Poder e Contrapoder

EUA definem amigos e inimigos por apoio ao 5G da Huawei

 

20/02/2020 08:41

Um cliente visualiza smartphones em uma loja da Huawei no shopping Aviapark, em Moscou, em 10 de fevereiro de 2020. A Huawei planeja investir US$ 10 milhões na Rússia para apoiar o ecossistema de Serviços Móveis da Huawei. (VCG)

Créditos da foto: Um cliente visualiza smartphones em uma loja da Huawei no shopping Aviapark, em Moscou, em 10 de fevereiro de 2020. A Huawei planeja investir US$ 10 milhões na Rússia para apoiar o ecossistema de Serviços Móveis da Huawei. (VCG)

 
A Huawei nunca imaginou que se tornaria uma pedra de toque das relações entre países, especialmente as relações entre aliados. As boas-vindas do Reino Unido à gigante chinesa de telecomunicações, para ajudar a construir sua rede 5G, provocaram uma briga diplomática com a Austrália, quando alguns parlamentares australianos cancelaram uma viagem planejada a Londres.

A Austrália e o Reino Unido fazem parte da aliança de inteligência Five Eyes, que também inclui os EUA, Nova Zelândia e Canadá. A mais recente tensão fraterna ocorreu depois que o Reino Unido apresentou uma queixa à Austrália por causa de detalhes vazados de uma recente reunião entre o secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab, e alguns parlamentares australianos que questionaram a decisão de Rabb de aceitar a Huawei.

Desde o início das medidas severas dos EUA contra a Huawei, os EUA têm sido despótico para com seus aliados em relação à escolha de empresas no desenvolvimento de suas redes 5G.

Camberra, um seguidor leal de Washington, proibiu a Huawei de construir suas redes de internet móvel de próxima geração, mas Londres, em janeiro, ignorou a pressão dos EUA ao permitir a entrada da Huawei.

Um fenômeno estranho está ocorrendo: o campo ocidental liderado pelos EUA é dividido por apoiadores e oponentes da Huawei, e os EUA definem seus amigos ou inimigos tendo a Huawei como referência. As táticas de pressão dos EUA incluem avisos ou até ameaças de que os países que adotarem equipamentos da Huawei arriscarão seu relacionamento de compartilhamento de inteligência e valores transatlânticos com os EUA. Como afirmou o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, na Conferência de Segurança de Munique no fim de semana, a dependência de fornecedores chineses de 5G pode comprometer sistemas críticos de parceiros dos EUA.

Uma das razões para as ameaças intimidatórias dos EUA é que não há fornecedor de equipamentos 5G americano que possa competir com a Huawei, portanto, os EUA só podem recorrer a pressão e ameaça a seus aliados para conter a empresa chinesa de alta tecnologia, o que, no entanto, contraria a doutrina de livre mercado dos EUA.

Sobre a Huawei, os EUA não fizeram apenas um movimento contraditório. Na Conferência de Segurança de Munique, a presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, fez da questão da Huawei uma questão moral, dizendo que trabalhar com a Huawei é como "escolher a autocracia sobre a democracia". Mas a maioria dos aliados dos EUA não se esquecem como essa superpotência está corroendo sua autoridade moral por meio da coerção.

Em um mundo em que os interesses dos países são tão interconectados e convergentes, é do interesse deles que os países permaneçam independentes em vez de escolher um lado ao desenvolver relações com as principais potências. Sacrificar essa independência para obter favores dos EUA não passa de uma mentalidade auto-enganadora.

Quanto à briga entre o Reino Unido e a Austrália, talvez os EUA se encontrem num impasse, ao ter que lançar mão da retórica para confortar um e outra.

*Publicado originalmente em 'Global Times' | Tradução de César Locatelli



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