Poder e Contrapoder

EUA impede vendas a fabricantes de supercomputadores chineses

Decisão vem apenas confirmar: o que faz correr a administração da Casa Branca não é a segurança nacional ou a espionagem, mas a disputa da hegemonia tecnológica também na área dos supercomputadores

05/07/2019 17:23

 

 

Na sexta-feira 21 de junho, uma notícia importante para se perceber o real conteúdo da disputa comercial e tecnológica entre os Estados Unidos e a China passou quase despercebida no noticiário internacional: o Departamento de Comércio dos EUA anunciou a entrada de quatro empresas e um instituto de computação chineses na “lista de entidades” impedidas de comprar qualquer produto de um fabricante norte-americano sem autorização da Casa Branca. Trata-se da Sugon, a principal fabricante de supercomputadores chinesa; três empresas suas afiliadas, a Higon, a Chengdu Haiguang Integrated Circuit e a Chengdu Haiguang Microeletronics Technology; e ainda o Wuxi Jiangnan Institute of Computing Technology.

A lista de entidades, também conhecida por “lista negra”, identifica organizações e indivíduos que se acredita estarem envolvidos, ou que colocam um risco significativo de ficarem envolvidos em atividades contrárias à segurança nacional americana ou aos seus interesses em política externa. As entidades constantes desta lista só poderão comprar produtos de fabricantes norte-americanos com autorização especial do Departamento de Comércio. Desta forma, impedem as empresas chinesas de comprarem os processadores fabricados nos EUA que elas ainda não conseguem produzir.

Mas não era a espionagem?

Para introduzir nesta lista a Huawei, os EUA alegaram o temor de os equipamentos da quinta geração das redes de Internet móvel (5G) vendidos por aquela empresa incluírem dispositivos que poderiam permitir que o Estado chinês, usando “portas de fundos”, espionasse essas redes.

Mas a Sugon e suas empresas afiliadas, bem como o instituto de Jiangnan, estão localizados na China e é na China que ficarão situados. Não podem ser acusados de espionagem. Fica tão evidente que o que se trata é de impedir a China de liderar a corrida ao mais rápido supercomputador do mundo, que vem sendo travada nos últimos nove anos, desde que a China, pela primeira vez, fabricou o computador de maior capacidade de processamento do mundo, que o Departamento de Comércio norte-americano limitou-se a argumentar com a possibilidade de os supercomputadores serem usados para fins militares e nucleares.

Ora os supercomputadores, com a sua altíssima capacidade, servem para executar tarefas que precisam de grande poder computacional, como mapear o genoma humano, obter previsões meteorológicas mais precisas, simular reações químicas na busca de novos medicamentos, e também simular explosões nucleares. Outra das suas aplicações mais visadas é a Inteligência Artificial, área em que os Estados Unidos e a China competem pela supremacia. É verdade, como dizem os EUA, que os supercomputadores feitos pelas empresas visadas podem ser usados para fins militares. Mas isso aplica-se a qualquer supercomputador.

A lista dos 500 supercomputadores com maior capacidade de processamento (TOP 500) é liderada desde 2018 por dois supercomputadores dos EUA (antes, o líder era chinês), um com a capacidade de processamento de 148,6 petaflops e o outro de 96,6 petaflops. Em seguida vem o primeiro supercomputador chinês, com a capacidade de processamento de 93 petaflops. A China tem 219 supercomputadores na lista dos 500, seguida pelos EUA com 116. Bastante atrás vem o Japão, com 29, a França, com 19, o Reino Unido, com 18 e a Alemanha com 14. Os EUA, porém, lideram em poder de computação, com 38,4% do total da capacidade de processamento dos 500 supercomputadores, seguidos da China, com 29,9%.

Um petaflop corresponde a 1.000.000.000.000.000, (1 seguido de 15 zeros) isto é, mil biliões (mil milhões de milhões) de operações por segundo.

Ascensão da China nos TOP 500 supercomputadores

Um olhar para trás nas sucessivas listas dos TOP 500, que é publicada duas vezes por ano, permite ter uma ideia mais precisa do crescimento da China nesta área tecnológica. Em junho de 1993, quando foi publicada a primeira lista, não havia qualquer menção à China. O Brasil entrava com dois supercomputadores (fabricados nos EUA), um no Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE) e outro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os Estados Unidos eram donos de 232 dos supercomputadores listados. Portugal nunca teve um supercomputador na lista.

É preciso esperar por junho de 1995 para a China aparecer nos TOP 500 com um supercomputador operado pela administração Meteorológica da China e fabricado pela IBM. O Brasil caíra para 1 (o do INPE) e os Estados Unidos tinham dado um salto para 274 supercomputadores entre os 500 mais poderosos.

Em novembro de 2003, a situação começara a mudar: a China já tinha 12 máquinas na lista, das quais quatro fabricadas pela empresa chinesa Lenovo, a mais poderosa das quais ocupava a 14ª posição. O Brasil mantinha um supercomputador na lista, operando para a Petrobrás, fabricado pela HPE (EUA). E os Estados Unidos continuavam na liderança com 246.

Até que, em novembro de 2010, pela primeira vez um supercomputador chinês, o Tianhe-1 (Via Láctea), desenvolvido na China pela Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (mas com chips da Intel e da AMD), atingiu os 2,5 petaflops e deixou atrás o Jaguar, o supercomputador Cray do Laboratório Nacional de Oak Ridge (EUA), que processava 1,7 petaflops. A China já inscrevia 41 máquinas nos TOP 500, que continuava a ser liderados pelos EUA, com 276 supercomputadores. O Brasil voltara a ter duas máquinas na lista, do INPE e da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na lista seguinte, de junho de 2011, o Tianhe-1 perdeu a liderança para o K computer, fabricado pela Fujitsu, no Instituto Avançado de Ciência Computacional, no Japão, um supercomputador capaz de processar 10,5 petaflops, que por sua vez foi superado em junho de 2012 pelo Sequoia BlueGene/Q, da IBM, com 17,1 petaflops, trazendo a liderança de volta para os EUA.

O Titan, um supercomputador Cray, também dos EUA, passou a encabeçar os TOP 500 em novembro de 2012, com a capacidade de processamento de 17,5 petaflops.

Mas, em junho de 2013, a China voltou à liderança com o Tianhe-2, com 33,8 petaflops, liderança que se manteve até junho de 2016, quando foi superada por outra máquina chinesa: o Sunway TaihuLight , desenhado pelo Centro de Investigação Nacional de Engenharia e Tecnologia de Computação Paralela, capaz de processar 93 petaflops. Sunway TaihuLight significa algo como poder divino, luz do Lago Taihu. Essa mesma data marca uma outra significativa mudança: pela primeira vez, a China colocou 168 supercomputadores na lista dos TOP 500, ultrapassando os EUA, com 165.

Os Estados Unidos só conseguiriam voltar a encabeçar a lista em junho de 2018, com o Summit, da IBM, operado pelo Laboratório Nacional de Oak Ridge, capaz de processar 148 petaflops, mas o número de supercomputadores da China na lista continuou a crescer e a consolidar a maioria daquele país asiático, em número de máquinas, nos TOP 500: 206 versus 124. Hoje é de 219 versus 116 dos EUA. O Brasil tem três supercomputadores na lista. Um é o Fénix, fabricado pela Bull (França) e operado pela Petrobrás. Os outros dois são fabricados pela chinesa Lenovo.

China de volta ao topo?

Segundo o South China Morning Star, a China decidiu não inscrever na lista de junho deste ano o seu novo supercomputador, o Shuguang, para não acirrar os ânimos na disputa comercial e tecnológica em curso com os EUA. Ainda segundo o jornal, o Shuguang, localizado na Academia Chinesa de Ciências em Pequim, tem uma capacidade superior a 200 petaflops.

A retomada das negociações comerciais China-Estados Unidos, anunciadas por Trump no final da cimeira do G-20, pode até levar a acordos. Mas a disputa pela hegemonia tecnológica das duas potências não terá trégua.

*Publicado originalmente em esquerda.net

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