Poder e Contrapoder

Imperialismo chinês

Agora que a vasta corte do presidente vitalício Xi Jinping abandonou Portugal, será porventura útil aclarar algumas referências chave sobre a potência oriental

15/12/2018 12:10

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Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 

A China é uma potência capitalista que se aproxima de ser a líder mundial em termos económicos, dispondo de recursos militares e tecnológicos muito significativos.

O seu traço capitalista não pode ser iludido a pretexto da existência de empresas públicas. O capitalismo privado convive bem com setores ligados ao capitalismo de Estado. Aliás, a orientação estatal tem sido,de há muitas décadas, a da extensão do mercado, da intensificação da exploração laboral, muito para além das chamadas zonas económicas especiais (estas declaradamente capitalistas).

A orientação estatal tem sido também a aposta acelerada do produtivismo antiambiental. A constatação deste processo, e respetivos factos, poderia parecer óbvia, à vista desarmada, mas torna-se necessária sublinhá-la quando ainda há quem ache que a República Popular da China é um país socialista pelo simples facto de ser dirigida pelo Partido Comunista. A caricatura desse partido político-militar é a acusação de repressão dura das massas operárias para quem o direito à greve é inexistente.

Xi Jiping fala do socialismo com "características chinesas", que é aliás muito parecido com o "capitalismo"com caraterísticas chinesas.O socialismo em Beijing é um fantasma de tempos passados, caso bem conhecido em todas as instituições financeiras internacionais. Isto são realidades completamente evidentes, mesmo que por viés alguns achem que as realidades são outras. Não tem sentido voltar a esse debate sobre a natureza do regime, um debate mais que ultrapassado.A China tirou milhões de chineses da fome, e isso é positivo, mas não altera o quadro económico e social do regime.

Mas tem todo o sentido interrogarmo-nos que objetivos persegue em Portugal, ou noutros países, a China atual. Será que estamos perante uma inocente intensificação de trocas comerciais e culturais, ou há algo mais decisivo e estrutural?

Xi Jinping aterra em Lisboa com uma lista de compras de empresas, outras a instalar, aproveitamento de vantagens para capitais chineses em relação a países terceiros no mercado interno europeu ou na "rota da seda", linguagem figurada para corredores de capital e mercadorias sob hegemonia chinesa. Capital monopolista, um grande estado ao seu serviço, disputa de mercados, matérias-primas e infraestruturas de transportes, exportação de capitais, que outros elementos faltam para não designar a China como um país imperialista? Ou seja,um Estado comprometido na sua própria expansão e domínio.

Está lá tudo nos textos de Lenine. Tome-se o "Imperialismo, estádio supremo do capitalismo", trabalho que tem o mérito de sintetizar várias outras reflexões sobre as características e a natureza do imperialismo. É só conferir item por item o descritivo intrínseco do imperialismo.

As negociações em curso sobre a venda à República Popular da China, claro que através de empresas públicas ou privadas, do Porto de Sines ou do Porto da Praia da Vitória são, entre outras situações, bem elucidativas da dinâmica em marcha. É claro que estamos a ver o que já vimos na Grécia quando esta vendeu o Porto do Pireu ao poder chinês.O que se observa,sem margem para dúvidas, é a utilização chinesa da mesma prática promovida pelos EUA e multinacionais ocidentais.

O imperialismo e a sua dominação, venha de onde vier, é nocivo ao desenvolvimento próprio de cada país (veja-se o desastre nacional na indústria e na finança) e não poucas vezes atrofia a mais simples soberania política de um povo. A Fosun ou a Lone Star são gémeas no negócio, ou não serão?

Questão diferente é saber como o imperialismo americano e seus reticentes satélites querem partilhar o globo com a China e outras potências da Europa e da Ásia. Se as escaramuças comerciais tendem a novos compromissos? Ou, será que tendem a ruturas no sistema monetário e nos mercados de bens, serviços e capitais? Precisamos de saber se as estratégias destes blocos privilegiam confrontos, ou arranjos em baixa escala, ou um misto de ambos. Uma coisa é definitivamente certa, neste tempo: está assegurada a escalada armamentista e guerra contra eventuais insurgentes. Mas ninguém pode excluir o risco de conflitos bélicos de outra dimensão.Porém, antes de tudo e de qualquer discussão dessas, é preciso reconhecer que a China é uma entidade tão benévola como qualquer troika para sugar recursos aos povos e proteger aquilo a que Mao chamava a burguesia compradora local.O rosto dessa burguesia compradora é António Mexia,o líder da EDP, hoje uma marioneta dos capitais chineses.

Ninguém no mundo de hoje pode defender isolamentos artificiais e é pois desejável o incremento do comércio, a circulação das culturas e das migrações. Convém não confundir esse desejo com listas de compras da China. Sff, o nome é imperialismo chinês.

Luís Fazenda é dirigente do Bloco de Esquerda, professor

*Publicado originalmente em esquerda.net


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