Poder e Contrapoder

Investimento excessivo em guerra: como a indústria de defesa dos Estados Unidos impulsiona o gasto militar global

Em 2018, o mundo gastou cerca de 1,8 trilhão de dólares em questões de defesa, o maior valor desde o final da Guerra Fria. Há anos, os Estados Unidos encabeçam a lista de países que dedicam maior quantidade de recursos ao âmbito militar

30/04/2019 15:15

O porta-aviões USS Yorktown, fotografado a partir do convés do destróier USS Laffey, em Mount Pleasant, Carolina do Sul (Randall Hill/Reuters)

Créditos da foto: O porta-aviões USS Yorktown, fotografado a partir do convés do destróier USS Laffey, em Mount Pleasant, Carolina do Sul (Randall Hill/Reuters)

 
O auge do gasto militar global, alcançado em 2018, não se deve a ameaças reais, e sim ao cada vez maior apetite cada vez maior da indústria de defesa dos Estados Unidos, segundo o afirmado pelos analistas consultados pelo portal russo RT, que asseguram que existe atualmente um “investimento excessivo em guerra”.

Alguns dados podem demonstrar essa situação:

* No ano passado, o mundo gastou 1,8 trilhão de dólares em defesa, o maior valor destinado a esta questão desde o fim da Guerra Fria, segundo um informe anual publicado nesta segunda-feira (29/4) pelo Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI, por sua sigla em inglês).

* O gasto dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) representa mais da metade dessa quantidade acima citada. Washington, o primeiro da lista dos países que investem mais recursos ao âmbito militar, destina quase a mesma quantidade à indústria da guerra que as oito seguintes nações juntas.

* A Arábia Saudita, outro importante aliado estratégico dos Estados Unidos, ocupa o terceiro lugar desse ranking, ficando um posto atrás da China e um à frente da Índia.

“Ganhar favores” de Washington

Michael Maloof, ex-analista de políticas de segurança do Pentágono, argumenta que “grande parte desse gasto, particularmente no caso da Arábia Saudita e da Índia, se deve a razões políticas”, já que Deli e Riad pretendem “ganhar favores” de Washington comprando armas estadunidenses, com a esperança de, em troca, obter concessões em outras áreas do seu interesse.

Com respeito à pressão relacionada aos gastos militares que os Estados Unidos exercem sobre seus aliados da OTAN, Maloof opina que a questão tem menos a ver com a segurança da aliança e mais com o desejo de ajudar a indústria de defesa estadunidense a “se manter à frente” dos seus concorrentes, e a contratar mais pessoas”, o que indica, portanto, uma “clara dimensão econômica”.

“Gastar mais sem uma boa razão”

Ao mesmo tempo, os analistas advertem que, em seu desejo de satisfazer as necessidades do seu complexo industrial militar, os Estados Unidos se arrisca a aumentar as tensões no âmbito internacional.

“Não há uma boa razão” para incrementar os orçamentos de defensa, assegura Ted Seay, ex-diplomata estadunidense e principal consultor de políticas do Conselho Britânico-Estadunidense de Informações sobre Segurança (BASIC, por sua sigla em inglês).

Na opinião desse especialista, o temor de Ocidente a uma suposta “ameaça russa” é o que tem levado a uma desestabilização no continente europeu.

Para Seay, “não há razão lógica para um confronto entre Europa e Rússia”, tampouco existe uma situação militar que obrigue países como Letônia ou Polônia a aumentar o seu gasto militar. Apesar disso, “há pessoas que parecem ter a intenção de criar esses conflitos, e incentivar os países da OTAN a gastar mais dinheiro sem uma boa razão”, lamenta o analista.

Finalmente, as últimas tendências mostram que “é pouco provável que se produza uma diminuição das tensões no cenário internacional a curto prazo”, vaticina Seay. O consultor também explica que “há muitas pessoas que investem muitíssimo dinheiro na guerra”, como forma de embasar as suas expectativas a respeito do tema.

*Publicado originalmente em rt.com | Tradução de Victor Farinelli



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