Poder e Contrapoder

O G7 deve agir para vacinar o mundo

Os países mais ricos do mundo não estão defendendo a cooperação global necessária para derrotar a pandemia. Na cúpula do G7 em junho no Reino Unido, líderes devem concordar em um plano financeiro para reforçar a colaboração internacional contra a covid-19, começando pelo acesso igualitário às vacinas

16/04/2021 12:41

(Sia Kambou/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (Sia Kambou/AFP via Getty Images)

 
LONDRES – “Ninguém está a salvo até que todos estejam a salvo” está definindo o mantra da era covid-19. Capta a verdade fundamental. Em face a um vírus que não reconhece fronteiras, nenhum país é uma ilha – e não há substituto para a solidariedade internacional.

A cúpula do G7 de junho no Reino Unido fornece aos líderes políticos dos países mais ricos do mundo uma oportunidade para demonstrar essa solidariedade. Eles deveriam aproveitar o momento para concordar com um plano financeiro de ação que reforce a batalha da humanidade contra a covid-19, começando pelo acesso igualitário às vacinas.

O desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes contra a covid-19 foi um triunfo científico. Novas parcerias envolvendo governos, negócios, filantropos e instituições multilaterais testaram, entregaram e começaram a administrar vacinas em tempo recorde. A ACT-A, uma parceria única entre a OMS e outros, fornece uma moldura multilateral para cooperação nos diagnósticos, tratamentos e vacinas. A facilidade COVAX, pilar dessa parceria, até agora entregou um total de 40 milhões de doses em mais 100 países.

Mesmo com essas conquistas, a desigualdade vacinal está ampliando a cada dia. Representando 16% da população mundial, países de alta renda correspondem a mais da metade dos pedidos confirmados de vacinas, ou cerca de 4.6 bilhões de doses – suficiente para vacinar suas populações diversas vezes em alguns casos. Com quase o dobro da população, países pobres em desenvolvimento possuem metade do número de pedidos confirmados. O fornecimento atual para a África Subsaariana cobre menos de 1% da população. Ao passo que os países ricos imunizam grupos populacionais mais jovens e mais saudáveis, trabalhadores da saúde em Moçambique, Nepal e Bolívia estão lutando contra a pandemia sem proteção – e vidas estão sendo perdidas.

Essa brecha salienta uma injustiça chocante. Enquanto os países do G7 estão a caminho de conquistar 70% de cobertura até o final de 2021, alguns dos países mais pobres não alcançarão esse nível antes de 2024 de acordo com tendências atuais. Essa é uma lembrança ameaçadora da resposta inicial à crise de HIV/AIDS, quando a África e outras regiões em desenvolvimento ficaram no final da fila dos remédios antirretrovirais que eram amplamente distribuídos em países ricos. O atraso na entrega custou quase 12 milhões de vidas.

Deixar os pobres do mundo para trás na corrida pela vacinação contra a covid-19 representa um fracasso moral catastrófico. Também é um ato devastador de autoflagelação. Enquanto o coronavírus se espalha e se transforma em meio a populações não imunizadas, ele representará uma ameaça à saúde pública para todos – incluindo os países ricos. Além disso, a ruptura no mercado causada pelas baixas taxas de imunização nos países em desenvolvimento poderia custar 9.2 trilhões de dólares à economia mundial, com as economias avançadas correspondendo à metade da perda.

Em suma, há uma necessidade ética, epidemiológica e econômica que requer uma ação coletiva para alcançar a igualdade vacinal. Quanto mais agirmos decididamente enquanto uma única comunidade humana, mais vidas serão salvas, e mais rápido as economias se recuperarão.

O desafio é garantir que vacinas suficientes estejam acessíveis e disponíveis em todos os países. Não vamos alcançar esse desafio por meio de doações voluntárias somente, acordos bilaterais fora da COVAX e do nacionalismo vacinal desenfreado que tem caracterizado a resposta dos países ricos até agora.

Esse é o momento para ações ousadas. Os países do G7 devem urgentemente aumentar seu apoio à ACT-A enquanto apoiam esforços para a construção da auto-suficiência vacinal nos países em desenvolvimento. Para construir defesas globais eficazes contra a covid-19 e futuras ameaças pandêmicas, precisamos de uma partilha igualitária de vacinas e transparência em relação à expertise, informações e tecnologias necessárias para desenvolver capacidades complexas de produção onde sejam necessárias. Abrir mão de patentes pela duração da pandemia ajudaria a facilitar essa partilha, aumentaria a produção e abaixaria os preços. A Aliança pela Vacina do Povo está mobilizando apoio para essa renúncia, e os governos sul-africano e indiano entregaram propostas à OIT.

O que está faltando é o plano financeiro necessário para prosseguir com os princípios criados pela ACT-A. A cúpula do G7 pode ter um papel importante aqui. Os líderes políticos devem concordar com um plano financeiro global com foco na conquista das ambições vacinais de todos os países até o final do ano, com todos que querem a vacina imunizados até o final de 2022. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África estabeleceu uma meta de 60% de cobertura para a região até essa data.

Um comprometimento do G7 de cerca de 30 bilhões ao ano pelos próximos dois anos, suplementado por medidas amplas para apoiar a auto-suficiência vacinal, aproximaria a meta da realidade. Também ajudaria a fechar a atual brecha financeira da ACT-A para esse ano de cerca de 22 bilhões. O presidente Ramaphosa da África do Sul e a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, escreveram para vários governos propondo um arranjo global de partilha de fardos financeiros baseado no peso econômico relativo de cada país. Nós apoiamos essa abordagem – e um de nós (Brown) propôs a adoção do arranjo na cúpula do G7.

Os países do G7 podem bancar o plano que propusemos? Nós convidamos os líderes a inverteram a pergunta: eles podem bancar não fazer esse investimento? O financiamento exigido é quase equivalente ao que as economias do G7 podem perder a cada duas semanas por causa do deslocamento comercial resultante do acesso limitado às vacinas. Além disso, uma vacinação igualitária vai pagar a si mesma. O FMI estima que as economias avançadas podem ganhar um trilhão em renda adicional com a expansão econômica entregue por causa da acelerada vacinação global – um retorno de 16 dólares para cada 1 dólar investido.

Os governos do G7 têm alguns mecanismos financeiros pré-prontos à sua disposição. Eles poderiam concordar em divulgar de 10 a 15 bilhões de dólares em títulos de vacina contra a covid-19 canalizados pelo Instituto Financeiro Internacional de Imunização. Subscrever os riscos garante o financiamento contra a covid-19 fornecido pelo Banco Mundial e outras instituições financeiras multilaterais e é uma outra opção. Com seu crédito triplo A protegido, o Banco poderia mobilizar quatro a cindo dólares para cada um dólar fornecido como garantia.

Tendo em vista seus status como principais acionistas no FMI e no Banco Mundial, os governos do G7 deveriam ser mais ambiciosos no uso dos recursos das duas instituições para uma resposta contra a covid-19. Países de baixa renda que estão encarando uma combinação letal de crescimento reduzido, dívida insustentável e espaço fiscal limitado precisam urgentemente de apoio financeiro. O FMI estimou recentemente que 200 bilhões adicionais são necessários para a contenção da pandemia, incluindo financiamento em sistemas de saúde e programas de vacinação.

Com os EUA tendo concordado a princípio com a divulgação de 650 bilhões de dólares em direitos de saque especiais – de fato, dinheiro internacional novo – há uma oportunidade de estimular a liquidez e estreitar a brecha financeira. Os governos do G7 poderiam concordar em dobrar a atribuição do direito de saque para países de baixa renda, uma ação que geraria 42 bilhões para lutar contra a pandemia. Eles também podem perguntar por que mais de 40 países pobres ainda estão gastando mais em dívidas do que em saúde, e agir para converter as responsabilidades com dívidas não pagas em vacinas que salvam vidas.

É claro, o financiamento é somente uma parte da equação. A governança também importa. Devemos garantir que todos os governos – e a sociedade civil – tenham voz na reformulação da cooperação internacional. A Assembléia Mundial de Saúde fornece uma plataforma multilateral para essa voz – e tem um papel importante na jornada para a conquista da igualdade vacinal.

Benjamin Franklin alertou os autores da Declaração de Independência dos EUA sobre os perigos da divisão em face a um inimigo poderoso. “Devemos, de fato, todos andar juntos”, ele alertou, “ou, com certeza, andaremos separados”. Frente a essa pandemia mortal, os líderes do G7 devem agora demonstrar solidariedade global. A segurança de seus cidadãos e as esperanças do mundo dependem disso.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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