Poder e Contrapoder

O futuro da energia renovável depende da China

A política externa linha-dura está perdendo terreno ao passo que a China fornece 70% ddos metais de terras raras do mundo

28/05/2021 11:37

Mina de terras raras em Xinjiang, China (Peter Chou Kee Liu/Flickr)

Créditos da foto: Mina de terras raras em Xinjiang, China (Peter Chou Kee Liu/Flickr)

 

Graças ao seu próprio nome – energia renovável – podemos imaginar um período em um futuro não tão distante em que a nossa necessidade por combustíveis não renováveis como petróleo, gás natural e carvão vai desaparecer. De fato, a administração Biden anunciou uma meta revolucionária para 2035 de eliminar completamente a dependência estadunidense nesses combustíveis não renováveis para a geração de eletricidade. Isso seria alcançado por meio do “uso de recursos geradores de eletricidade sem poluição por carbono”, principalmente a energia interminável do vento e do sol.

Com outras nações caminhando na mesma direção, é tentador concluir que os dias de competição por suprimentos energéticos finitos e fontes de conflitos logo terão fim. Infelizmente, pense novamente: enquanto o sol e o vento são, de fato, infinitamente renováveis, os materiais necessários para converter esses recursos em eletricidade – minerais como cobalto, cobre, lítio, níquel e os metais de terras raras – não são. Alguns deles, na realidade, são muito mais escassos que o petróleo, sugerindo que a luta global por recursos vitais pode não desaparecer na Era dos Renováveis.

Para compreender esse paradoxo inesperado, é necessário explorar como a energia eólica e solar são convertidas em formas utilizáveis de eletricidade e propulsão. A energia solar é amplamente coletada por meio de células fotovoltaicas, frequentemente usada em extensos parques eólicos. Para usar a eletricidade em transportes, carros e caminhões devem estar equipados com baterias avançadas capazes de suportar uma carga para longas distâncias. Cada um desses aparelhos usa quantidades substanciais de cobre para transmissão elétrica, bem como uma variedade de outros minerais não renováveis. As turbinas eólicas, por exemplo, exigem magnésio, níquel, zinco, metais de terras raras e molibdênio para seus geradores elétricos, enquanto veículos elétricos precisam de cobalto, grafite, lítio, magnésio e metais de terras raras para seus motores e baterias.

No momento, com a energia solar e eólica representando cerca de somente 7% da geração de eletricidade global e os veículos elétricos representando menos de 1% dos carros nas estradas, a produção desses minérios está mais ou menos adequada à demanda global. Se, no entanto, os EUA e outros países realmente forem em direção a um futuro verde do tipo concebido pelo presidente Biden, a demanda por esses minérios aumentará muito e a produção global não alcançará as necessidades antecipadas.

De acordo com um estudo recente da Agência Internacional de Energia (IEA), “O Papel de Minérios Importantes nas Transições para Energia Limpa”, a demanda por lítio em 2040 pode ser 50 vezes maior do que hoje e por cobalto e grafite 30 vezes maior se o mundo se mover para substituir veículos movidos a petróleo por veículos elétricos. Tal demanda, é claro, incentiva a indústria a desenvolver novos suprimentos desses minérios, mas as suas fontes são limitadas e o processo de viabilizá-los será custoso e complicado. Em outras palavras, o mundo poderia enfrentar escassez de materiais importantes. (“Enquanto transições para energia limpa aceleram em escala global”, o relatório da IEA observou, “e os painéis solares, turbinas eólicas, e carros elétricos são utilizados cada vez mais, esses mercados crescentes de minérios importantes podem ser sujeitados à volatilidade dos preços, influência geopolítica e até mesmo rupturas para realizar o fornecimento”.

E aqui está mais uma complicação: Para alguns dos materiais mais importantes, incluindo o lítio, cobalto, e esses elementos de terras raras, a produção é altamente concentrada em apenas alguns países, uma realidade que poderia levar a disputas geopolíticas que acompanharam a dependência global em algumas grandes fontes de petróleo. De acordo com a IEA, apenas um país, a República Democrática do Congo (DRC), atualmente fornece mais de 80% do cobalto do mundo, e outro – a China – 70% de seus elementos de terras raras. Da mesma forma, a produção de lítio é grande em dois países, Argentina e Chile, que, em conjunto, representam quase 80% do fornecimento mundial, enquanto quatro países – Argentina, Chile, a DRC e o Peru – fornecem a maior parte do nosso cobre. Em outras palavras, tais suprimentos futuros estão bem mais concentrados em poucos territórios do que o petróleo e o gás natural, fato que preocupa analistas do IEA sobre disputas futuras em relação ao acesso global a eles.

DO PETRÓLEO AO LÍTIO: AS IMPLICAÇÕES GEOPOLÍTICAS DA REVOLUÇÃO DOS CARROS ELÉTRICOS

O papel do petróleo na formação da geopolítica global é bem compreendido. Desde que o petróleo se tornou essencial para o transporte mundial – desse modo para o funcionamento eficaz da economia global – tem sido visto como um recurso “estratégico” por razões óbvias. Devido ao fato de que grandes concentrações de petróleo estavam localizadas no Oriente Médio, uma área historicamente distante e excluída dos principais centros de atividade industrial na Europa e na América do Norte e regularmente sujeita a convulsões políticas, as maiores nações importadoras há tempos buscam exercer algum tipo de controle sobre a produção e exportação de petróleo da região. Isso, é claro, levou a um imperialismo da mais alta estirpe, começando após a 1ª GM quando a Grã-Bretanha e outras potências europeias disputavam o controle colonial das regiões produtoras de petróleo da região do Golfo Pérsico. Continuou após a 2ª GM, quando os EUA entraram fortes nessa competição.

Para os EUA, garantir acesso ao petróleo do Oriente Médio se tornou uma prioridade estratégica após os “choques do petróleo” de 1973 e 1979 – o primeiro causado por um embargo árabe que foi uma resposta ao apoio de Washington a Israel na Guerra de Outubro daquele ano; o segundo causado por uma interrupção do suprimento causada pela Revolução Islâmica no Irã. Em resposta às filas infinitas nos postos de gasolina estadunidenses e às recessões subsequentes, muitos presidentes prometeram proteger a importação de petróleo do “modo que for necessário”, incluindo com o uso de forças armadas. E esse posicionamento levou o então presidente George H. W. Bush a declarar a primeira Guerra do Golfo contra o Iraque de Saddam Hussein em 1991 e levou também seu filho a invadir o mesmo país em 2003.

Em 2021, os EUA não são mais tão dependentes do petróleo do Oriente Médio, tendo em vista quão extensivos são os depósitos domésticos de xisto repletos de petróleo e outras pedras sedimentares que estão sendo exploradas pela tecnologia do fracking. Ainda assim, a conexão entre o uso do petróleo e conflito geopolítico dificilmente desapareceu. A maioria dos analistas acredita que o petróleo continuará a fornecer a maior parte da energia global por décadas, e é certeza que isso gerará disputas políticas e militares sobre os suprimentos remanescentes. Já, por exemplo, ocorreram conflitos sobre fornecimentos offshore disputados nos mares do sul e do leste da China, e alguns analistas preveem uma disputa pelo controle de depósitos de minérios e petróleo inexplorados na região do Ártico.

Aqui, então, a pergunta do dia: uma explosão no uso de carros elétricos mudará tudo isso? A participação de mercado dos carros elétricos já está crescendo rapidamente e é projetado que alcance 15% das vendas globais até 2030. Os maiores fabricantes estão investindo fortemente em tais veículos, antecipando um aumento na demanda. Tinham cerca de 370 veículos elétricos disponíveis para venda no mundo em 2020 – um aumento de 40% em relação a 2019 – e grandes fabricantes revelaram planos de produzir mais 450 modelos até 2022. Além disso, a General Motors anunciou sua intenção de eliminar progressivamente veículos movidos a diesel ou gasolina até 2035, enquanto o CEO da Volvo indicou que a empresa somente venderá veículos elétricos em 2030.

É sensato presumir que essa mudança somente ganhará atenção, com profundas consequências ao comércio global de recursos. De acordo com a IEA, um carro elétrico típico exige seis vezes mais minérios do que um veículo convencional movido a óleo. Entre eles estão o cobre para fiação elétrica e o cobalto, grafite, lítio e o níquel necessários para garantir a performance da bateria, longevidade e densidade energética. Além disso, elementos de terras raras serão essenciais para os imãs permanentes instalados em motores de veículos elétricos.

O lítio, um componente primário das baterias de lítio usadas na maioria dos veículos elétricos, é o metal conhecido mais leve. Embora presente em depósitos de argila e compósitos de minérios, é raramente encontrado em concentrações de fácil extração, embora também possa ser extraído de salmouras como no Salar de Uyuni na Bolívia, a maior planície de sal do mundo. No momento, aproximadamente 58% do lítio do mundo vem da Austrália, outros 20% do Chile, 11% da China, 6% da Argentina, e porcentagens pequenas de outros lugares. Uma empresa estadunidense, Lítio Américas, está prestes a realizar a extração de quantidades significativas de lítio de um depósito de argila no norte de Nevada, mas está encontrando resistência de fazendeiros locais e nativo-americanos, que temem a contaminação de seu suprimento de água.

O cobalto é outro componente chave das baterias de lítio. É raramente encontrado em depósitos únicos e frequentemente adquirido como subproduto da mineração de cobre e níquel. Hoje, é quase inteiramente produzido graças à mineração do cobre na violenta e caótica República Democrática do Congo, em maior parte no que é conhecido como cinturão de cobre da província de Katanga, uma região que já tentou se isolar do resto do país e que ainda nutre impulsos secessionistas.

Elementos de terras raras representam um grupo de 17 substâncias metálicas espalhadas pela superfície da Terra, mas que são raramente encontradas em concentrações passíveis de mineração. Entre eles, muitos são essenciais para as soluções de energia verde para o futuro, incluindo disprósio, lantânio, neodímio e térbio. Quando usados como ligas com outros minérios, eles ajudam a perpetuar a magnetização de motores elétricos sob condições de alta temperatura, uma exigência crucial para veículos elétricos e turbinas eólicas. No momento, aproximadamente 70% desses elementos vêm da China, talvez 12% da Austrália e 8% dos EUA.

Uma olhada na localização de tais concentrações sugere que a transição para a energia verde concebida pelo presidente Biden e outros líderes mundiais possa encontrar problemas geopolíticos severos, similares com aqueles gerados no passado por causa da dependência do petróleo. Primeiramente, a nação mais militarmente poderosa do planeta, os Estados Unidos, pode fornecer para si mesma somente pequenas porcentagens de elementos de terras raras, bem como outros minérios importantes como o níquel e o zinco necessários para tecnologias verdes avançadas. Ao passo que a Austrália, uma aliada próxima, será, sem sombra de dúvidas, uma fornecedora importante de alguns deles, a China, já vista como uma adversária, é crucial em relação aos elementos, e o Congo, uma das nações mais enfestadas por conflitos no planeta, é a principal produtora de cobalto. Então nem por um segundo imagine que a transição para um futuro com energia renovável será fácil ou sem conflitos.

A CRISE QUE ESTÁ POR VIR

Com a perspectiva de suprimentos inadequados ou difíceis de acessar de tais materiais, estrategistas energéticos já estão pedindo maiores esforços para desenvolver novas fontes em mais locais. “Os planos de investimento e suprimento de hoje para muitos minérios importantes estão bem abaixo da necessidade acelerada de uso de painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos”, disse Fatih Birol, diretor executivo da IEA. “Esses riscos são reais, mas são superáveis. A resposta dos políticos e empresas determinará se os minérios importantes permanecerão sendo facilitadores para transições para energia limpa ou se serão um obstáculo no processo.”

Birol e seus associados na IEA deixaram claro, no entanto, que superar esses obstáculos à uma maior produção de minérios não será nada fácil. Para começo de conversa, iniciar novas empresas de mineração pode ser extraordinariamente caro e envolve muitos riscos. Empresas de mineração podem estar dispostas a investir bilhões de dólares em um país como a Austrália, onde o aparato legal é convidativo e onde podem esperar proteção contra futuras expropriações ou guerras, mas muitas fontes de minérios promissoras estão em países como a DRC, Mianmar, Peru e Rússia onde tais condição não se aplicam. Por exemplo, o conflito atual em Mianmar, um grande produtor de certos elementos de terras raras, já causou preocupações sobre a disponibilidade futura desses elementos e causou um aumento nos preços.

O que também é uma preocupação é a questão do declínio da qualidade dos minérios. Em relação aos sítios de mineração, esse planeta já foi vasculhado minuciosamente atrás deles, às vezes desde a Era de Bronze, e muitos dos melhores depósitos já foram descobertos e explorados. “Nos últimos anos, a qualidade de muitas commodities continuou a cair”, observou a IEA em seu relatório sobre minérios importantes e tecnologia verde. “Por exemplo, o nível médio de minério de cobre no Chile caiu em 30% nos últimos 15 anos. Extrair conteúdo metálico de menor qualidade exige mais energia, pressionando custos de produção, emissão de gases do efeito estufa e volumes de lixo.”

Além disso, a extração de minérios de formações rochosas no subsolo frequentemente utiliza ácidos e outras substâncias tóxicas e tipicamente exige grandes quantidades de água, que são contaminadas após o uso. Isso se tornou um problema ainda maior desde a aprovação de leis de proteção ambiental e mobilizações de comunidades locais. Em muitas partes do mundo, como em Nevada quando o assunto é lítio, novos esforços de mineração e processamento de minérios vão encontrar forte e crescente oposição local. Quando, por exemplo, a Corporação Lynas, uma empresa australiana, quis ignorar leis ambientais do país enviando minérios da sua mina de terras raras em Mount Weld para processamento na Malásia, ativistas locais fizeram uma campanha para impedi-los.

Para Washington, talvez nenhum problema seja mais desafiador, quando o assunto é a disponibilidade de materiais importantes para a revolução verde, do que a relação deteriorada do país com Pequim. Afinal, a China fornece atualmente 70% dos suprimentos de terras raras do mundo e abriga depósitos significativos de outros minérios importantes. Não menos importante, esse país é responsável pelo refinamento e processamento de muitos materiais importantes que são explorados em outros lugares. Na realidade, quando o assunto é processamento de minérios, os números são impressionantes. A China pode não produzir quantidades significativas de cobalto ou níquel, mas representa aproximadamente 65% do cobalto processado do mundo e 35% do níquel processado. E enquanto a China produz 11% do lítio do mundo, é responsável por quase 60% do lítio processado. Em relação aos elementos de terras raras, no entanto, a China domina de modo arrebatador. Não somente fornece 60% da matéria prima do mundo, mas também quase 90% dos elementos processados.

Para explicar de modo simples, não tem como os EUA ou outros países passarem por uma enorme transição dos combustíveis fósseis para uma economia baseada em renováveis sem se envolver economicamente com a China. Sem dúvidas, esforços serão feitos para reduzir o nível dessa aliança, mas não há perspectiva realista de eliminar a dependência em relação à China e os metais de terras raras, lítios e outros materiais importantes no futuro próximo. Se, em outras palavras, os EUA saíssem de um posicionamento de guerra fria em relação à Pequim para um posicionamento ainda mais hostil, e se se envolvessem em tentativas trumpianas de “desacoplar” sua economia da economia da República do Povo, como já foi defendida por muitos “chineses linha-dura” no Congresso, não restam dúvidas: a administração Biden teria que abandonar seus planos de um futuro verde.

É possível, é claro, imaginar um futuro no qual nações comecem a batalhar entre si pelos suprimentos globais de minérios importantes, assim como já batalharam pelo petróleo. Ao mesmo tempo, é perfeitamente possível conceber um mundo no qual países como o nosso simplesmente abandonam seus planos por um futuro verde por falta de matéria prima adequada e retornam às guerras por petróleo do passado. Em um planeta já superaquecido, no entanto, isso levaria a um destino pior que a morte para a nossa civilização.

Na verdade, há poucas chances de Washington e Pequim colaborarem entre si e também de outros países acelerarem suas transições para a energia verde estabelecendo novas instalações de processamento e mineração para esses minérios importantes, desenvolvendo substitutos para os materiais que têm baixa oferta, aprimorando técnicas de mineração para reduzir danos ambientais, e dramaticamente aumentar a reciclagem de minérios vitais provenientes de baterias e outros produtos. É garantido que qualquer alternativa se prove como sendo um desastre de primeira ordem – ou além.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares

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