Poder e Contrapoder

O grande acossador com a corda no pescoço

Trump encontrou finalmente um concorrente à altura: a estrela pornográfica Stormy Daniels que, com seu inteligente advogado, ameaça ganhar tanto o pleito judicial quanto o midiático

14/04/2018 11:03

 

 

Por Claudio Lomnitz, para o La Jornada, do México

Donald Trump conseguiu fazer do ato de fugir dos problemas uma forma de governar. Esconde a investigação sobre a intromissão russa em sua campanha criando uma guerra comercial com a China. Dribla o desastre causado pelas novas taxas chinesas aos agricultores enviando tropas à fronteira do México. Ignora a reação mexicana a essas injúrias ameaçando com uma invasão à Síria. É assim que ele vai governando, e ficando cada vez mais rico, de crise em crise… Na luta livre, seria como aquele fanfarrão, mas meio covarde, um estilo totalmente oposto à sobriedade histórica da Presidência dos Estados Unidos.

É interessante constatar, a partir dessa estratégia, que o mais difícil de ocultar não são os conflitos com os grandes interesses econômicos e políticos internos e externos, e sim os muitos abusos e grosserias que Trump acumulou em sua longa carreira de playboy e quase proxeneta. Há toda uma constelação de coelhinhas, atrizes e prostitutas que já apresentaram queixas por acosso sexual, e outras tantas que, simplesmente, querem falar da vez em que dormiram com ele.

Até agora, a estratégia para calar este contingente tem se baseado sobretudo na cooptação, selada em um documento legal chamado, em inglês, non-disclosure agreement (acordo de não divulgação), que pode ser entendido como o equivalente corporativo da famosa omertà, o pacto de silêncio da máfia italiana. Quem assina não pode mais falar.

O uso destes acordos de não divulgação tem sido uma obsessão de Trump. Assim, há algumas semanas, o The Washington Post reportou que o agora presidente obriga todos os membros de sua equipe na Casa Branca a assinar este tipo de contrato, embora esteja seriamente em questão se este pacto viola ou não a lei que obrigaria a estes funcionários a declarar se presenciaram alguma violação às normas. Não importa. Trump fez sua fortuna investindo caminhões de dinheiro em advogados – os usa para intimidar ou calar os mais pobres – para, sobretudo, comprar acordos de silêncio. E tudo isso tem funcionado muito bem para ele.

Só que, como dizem, nunca falta um chinelo velho para um pé descalço, e Trump encontrou finalmente um concorrente à altura: a estrela pornográfica Stormy (Tormenta) Daniels. Talvez era preciso uma mulher rude para desbancar um homem rude governando a Casa Branca. Assim, a tormentosa Stormy, com seu inteligente advogado, ameaça ganhar tanto o pleito judicial quanto o midiático.

Stormy Daniels e Donald Trump tiveram relações sexuais poucos meses depois de que Melania deu à luz a Barron Trump. Esse fato teria bastado para desbancar qualquer outro presidente dos Estados Unidos, mas já estamos em outra realidade, em outro país, onde até os evangélicos apoiam um conhecido acossador sexual, em troca de concessões políticas. Tempos depois, quando Trump iniciava sua campanha política, seu advogado, Michael Cohen, deu a Stormy 130 mil dólares, para que ela assinasse um acordo de não divulgação das relações com o magnata. É justo que Trump agora esteja, na corda bamba, não tanto por ter dormido com Stormy, e sim por fazê-la assinar o acordo.

Esse acordo que Stormy assinou não está referendado por Trump, e por isso o advogado da moça pede que se esclareça quem está obrigando quem a fazer o que. Pressionado pela imprensa, Trump declarou que ele não havia assinado o acordo, nem sabia de nada daquilo. Agora, o advogado de Stormy busca que um juiz que declare o contrato inválido, o que significaria que Donald Trump teria que declarar diante de um juiz, sob o risco de incorrer no crime de perjúrio, se afirma que nunca teve relações com Stormy Daniels e ela depois conseguir provar que isso realmente aconteceu.

Por outra parte, se Trump e Cohen decidem que o acordo de não divulgação não existe, e que Stormy é livre para declarar o que quiser, o presidente não só terá que enfrentar a publicação de um best-seller garantido, como também uma enxurrada de declarações dela na imprensa, falando desde o tamanho do seu pênis até outros detalhes que certamente afetarão a sua imagem, sem contar uma possível demanda de Stormy por difamação, já que ele disse muitas coisas sobre ela nas últimas semanas.

Contudo, há um importante detalhe que não pode ser ignorado. Se Trump não pagou os 130 mil dólares, como diz sua versão, e quem pagou foram seus advogados, deveria haver uma investigação judicial para ver se esse dinheiro não constituiria, então, uma doação ilegal de campanha, de Cohen a Trump. Nesta semana, o FBI vasculhou o escritório de Michael Cohen e apreendeu alguns documentos. Trump já está reclamando que se trata de uma caça às bruxas, mas a verdade é que Stormy está conseguindo o que ninguém havia feito até agora.

O mundo deve se manter atento e preparado, porque se a estratégia de Trump será, sem dúvida, tentar outra fugir do problema criando outra polêmica, ou outra crise diplomática, e não importa quanto de harmonia mundial pode ser colocada em risco para salvar o mandato do presidente estadunidense.



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