Poder e Contrapoder

O yuan digital chinês e a perplexidade dos Estados Unidos

A China é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra e a segunda em valor de mercado, mas fica muito atrás dos Estados Unidos nas finanças globais. A moeda digital ''pode mudar para sempre a relação entre dinheiro, poder econômico e influência geopolítica''. Qual é o desafio geopolítico da criptomoeda chinesa?

16/06/2020 10:46

Se a China, com sua moeda digital, eliminar intermediários financeiros, outros Estados a seguirão. (AFP)

Créditos da foto: Se a China, com sua moeda digital, eliminar intermediários financeiros, outros Estados a seguirão. (AFP)

 
A moeda digital da China intensificou ainda mais o conflito com os Estados Unidos. O impacto de um yuan totalmente etéreo alimentou sentimentos de que a China está pronta para contestar a liderança mundial estadunidense.

A China, como outros países, anunciou sua moeda digital há cinco anos. Em agosto de 2019, Mark Carney, do Banco da Inglaterra, propôs que uma moeda digital global substituísse o dólar como moeda mundial, armazenada por todos os países, para se proteger de uma recessão nos Estados Unidos – reduzindo, assim, o domínio global desse país nos mercados de crédito e bens.

O Facebook apresentou sua criptomoeda, a Libra, como uma moeda global, prometendo que não sofreria os altos e baixos da bitcoin, incentivando visões de que a imaterialidade da moeda substituiria o monopólio estatal por ofertas privadas.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou enfaticamente “ativos criptográficos não regulamentados” com base em “lugar nenhum”. Ele afirmou que o dólar é a única moeda real, mais forte e mais confiável do que nunca, por ser “de longe, a moeda mais dominante em qualquer lugar do mundo, e sempre permanecerá assim”. Não faltam elementos sobre os quais basear a supremacia global do dólar.

Hegemonia

A China é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, e a segunda em valor de mercado, mas fica muito atrás dos Estados Unidos nas finanças globais.

Dois terços dos ativos de reserva dos bancos centrais do mundo estão em dólar, que também domina contratos privados e públicos. De acordo com a plataforma SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), no último mês de abril, 44% das transações internacionais foram em dólares, com o yuan chinês em quinto, com menos de 2%.

O Banco Internacional de Pagamentos de Basileia, em dezembro de 2019, informou que havia 65,4 trilhões de dólares em crédito em todo o mundo, 20% fora dos Estados Unidos. Metade dos 6 trilhões de dólares circulando diariamente no mercado mundial de câmbio está em dólar e sua participação no volume negociado em contratos de swap é de pelo menos 90%.

Nas últimas sete décadas, o dólar teve uma participação na designação de empréstimos bancários e emissões de dívida, em contratos de comércio internacional, como reserva de divisas para bancos centrais, entre 50 e 65% do total global. Da mesma forma, os Estados Unidos são mais fortes militar e diplomaticamente, e seu modelo social é a base do soft power mundial que contribui para a inércia internacional a seu favor.

Mudar a moeda implicaria um novo sistema institucional e cultural que está por trás da economia mundial, e cujos custos econômicos a própria rede deseja evitar.

Diante de tal superioridade, o desafio geopolítico do yuan digital chinês não se deve a questões de poder estrutural, como diria a acadêmica Susan Strange, mas à atual estratégia global dos Estados Unidos. Como Hu Xinjin expressou no Global Times, ao responder à acusação de Trump de que os chineses queriam sua derrota eleitoral: pelo contrário, ele argumentou, eles querem sua reeleição porque isso torna os Estados Unidos odiosos para o mundo, e ajuda a unir a China.

Poder e dinheiro

Preocupado com o futuro global da América, na CNBC Frederick Kempe, presidente do influente think tank Atlantic Council, vê o yuan digital como parte da tentativa da China de aproveitar o efeito da covid-19 para estender seu peso global, ao lado de sua nova doutrina de segurança para Hong Kong, seus 1,4 trilhão de dólares em investimentos em tecnologia, aumento de 9% em seu orçamento de defesa e maior presença institucional global (ilustrada pela contribuição de 2 bilhões de dólares à OMS) , peças que “se encaixam perfeitamente” na estratégia de Xi Jinping de “fortalecer o domínio interno do partido, consolidar o poder regional da China e expandir sua influência internacional”, intensificando a competição com os Estados Unidos.

Kempe conclui que as intenções chinesas não são o principal problema americano, e sim o fato de não ter uma estratégia adequada.

Uma “estratégia adequada” dos Estados Unidos em relação à China poderia ser limitada pelos mesmos interesses internos que tornam o país líder em mortes por covid-19.

Andy Mukherjee, da Bloomerg, afirma que a moeda digital “poderia mudar para sempre a relação entre dinheiro, poder econômico e influência geopolítica”, porque eliminaria o possível anonimato com dinheiro – aumentando o controle e o rastreamento financeiro –, e tornaria mais fácil para os bancos centrais evitar intermediários, reduzindo totalmente o poder social da elite financeira.

Assim, ele calcula que a China poderia economizar as enormes comissões que paga aos bancos por transferências internacionais entre empresas. A China não disse que irá tão longe; suas grandes instituições distribuirão sua moeda digital. Poderia expandir seu espaço monetário externo, especialmente ligado à sua rede de investimentos da Nova Rota da Seda.

Finanças digitais

Esse resultado seria irônico para a ideologia financeira ocidental dominante, que defende as criptomoedas privadas para fugir da “opressão do poder do Estado”: o yuan digital destrói a mitologia neoliberal individualista de um “mundo de moedas privadas”.

A sociedade capitalista emergiu das entranhas do Estado-nação, que viabilizaram a dimensão da acumulação privada. É evidente que o objeto que define essa acumulação não pode depender de quem deseja acumulá-la. A lógica circular vazia das criptomoedas se manifesta quando o Facebook promete, para torná-la candidata a moeda global, manter o valor de sua Libra em um patamar similar ao de uma cesta de moedas estatais.

Por outro lado, o dólar, como a verdadeira moeda global atual, depende apenas de seu emissor, o Estado norte-americano, especialmente desde 1971, quando deixou toda a pretensão de estar ligado ao ouro. Por esse poder, ele criou e quebrou suas próprias regras, convenientemente, desde que ditou as regras do mundo capitalista, em 1945.

A partir da presidência de Ronald Reagan, esses padrões beneficiam seu complexo militar e elite financeira, forjando os ultra ricos. Desde a crise de 2008, o FED (Banco Central dos Estados Unidos) aumentou seus ativos de 1 para quase 7 trilhões de dólares, para preservar os ativos e a renda dos rentistas. O resto da sociedade foi abandonado, mesmo sem cobertura médica, e diante de uma pandemia de covid-19. A doença provocou o mega salvamento de grandes empresas e bancos, e cobriu apenas uma semana de despesas para a população, algo que até um economista da Universidade de Chicago, Luigi Zingales, denunciou como “socialismo corporativista”.

O sistema monetário opera com base no dinheiro de conta, que requer um intermediário, e no token (símbolo), que não o exige.

Os bancos fazem parte dos primeiros, que estavam registrando inovações digitais por empresas de tecnologia financeira para competir com eles. As moedas do estado são baseadas em um token físico (notas e moedas), mas a China inaugura agora uma digital. Isso permite transações diretas entre agentes, mesmo os geograficamente distantes, algo que não era possível antes. Por meio dos dispositivos que utiliza, esse relacionamento direto de informações e pagamentos reduz o relacionamento bancário convencional.

Os tokens digitais privados, como todo o dinheiro privado por definição, não possuem curso legal obrigatório. É por isso que eles operam sujeitos a pelo menos um Estado, o que é evidente, por não poder pagar impostos com seu próprio dinheiro. Portanto, eles não podem ser uma unidade de conta e, apenas especulativamente, um valor de reserva. Ou seja, eles não podem ser uma moeda completa.

Se a China, com sua moeda digital, eliminar intermediários financeiros e aumentar seu poder, especialmente com benefícios geopolíticos, outros Estados a seguirão. De fato, vários países já o fazem. A Fedcoin seria a proposta dos Estados Unidos, mas parece muito distante – tanto que, em junho passado, Mark Zuckerberg procurou o apoio do Congresso para sua Libra, argumentando que, se não, “Pequim e suas empresas e subsidiárias estatais assumiriam o futuro das finanças”.

EUA

A pandemia é propícia à moeda digital, impedindo o contágio por meio de notas físicas. Exige alta aceitação social. Faisal Ahmed e Hardik Gupta Ahmed, em seu livro “Diplomacia Moderna”, acreditem que haverá na China, porque lá já se usa muito os aplicativos necessários, e as pessoas preferem receber ajuda do governo devido à covid-19.

A transferência de fundos para as pessoas, dizem eles, expôs os problemas da infraestrutura financeira americana. A ideia de um “dólar digital” foi adiada até 2021. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, disse que os Estados Unidos não têm a necessidade imediata de alguns países, de desenvolverem uma moeda digital, o que faz sentido para Nikhil Raghuveera, do Atlantic Council, por seu sólido sistema de pagamento.

Da mesma forma, ele acredita que os Estados Unidos não devem abandonar, como vêm fazendo, a liderança global e o desenvolvimento de um conjunto comum de valores para que outros países e o setor privado operem. Em outras palavras, o desempenho global de Trump pode acabar favorecendo a internacionalização do yuan digital.

Da mesma forma, Aditi Kumar e Eric Rosenbach se manifestaram em artigo na Foreign Affairs, e Matthieu Favas na The Economist, questionando especialmente o crescente uso do SWIFT dos Estados Unidos para fins nacionais e geopolíticos, mesmo com seus aliados mais próximos, fazendo com que, até mesmo na Europa, apareçam vozes defendendo outro sistema. Eles temem que muitos países e empresas migrem para o circuito chinês, especialmente se isso também gerar comércio e investimento.

A candidata de Trump ao Conselho de Governadores do Federal Reserve, Judy Shelton, propôs em abril, a partir da tecnologia das criptomoedas, retornar ao padrão do ouro, porque é “a disciplina monetária por si mesma”, retirando o poder do Federal Reserve.

Essa proposta, que ela chama de “voltar ao futuro”, é geopoliticamente incomum, porque os Estados Unidos estariam renunciando a um elemento essencial e muito barato de sua hegemonia – o que a França, nos Anos 60, chamou de “privilégio exorbitante” da pequena máquina de imprimir dinheiro.

A ideia de enfraquecer o dólar como moeda mundial, obviamente, não caiu bem no Senado estadunidense, que negou a designação de Shelton, a quinta pessoa proposta por Trump.

Esse presente confuso dos Estados Unidos leva Kempe a concluir que, embora a China seja mais fraca, mesmo com o yuan digital, é “geopoliticamente mais determinada” do que os Estados Unidos, que sofrem com o “Problema de Pogo”, em referência a um desenho animado dos Anos 60, onde o personagem principal repetia: “nós encontramos o inimigo, e o inimigo somos nós mesmos”.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli



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