Poder e Contrapoder

Os desafios da China em 2019

Desaceleração da economia e desigualdade são os problemas que aparecem no meio do caminho e que desafiam o projeto chinês a curto prazo

14/01/2019 17:32

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Para chegar ao fim do mês, Xu Yuan, de 33 anos, tem que compartilhar a cama com sua melhor amiga em Xangai, onde trabalha em marketing. Uma cortina marca a sua metade da cama. Fica no trabalho até o mais tarde possível, todos os dias, e só vai à casa para dormir. “Nenhuma das duas é feliz, mas temos que ser tolerantes,” diz ela, sobre a situação.

Liu Xun, 26 anos, trabalha como editor de vídeo em Pequim, mas não tem tempo para ver filmes no cinema, tampouco para comprar roupas novas ou ter encontros. “Para ser honesto, creio que ter uma namorada é caro demais”. Hillary Pan, que trabalha em meios de comunicação, diz que já não come nunca em restaurantes, e que compra sua comida num local de comida rápida quase todos os dias.

A economia da China está se desacelerando e as pessoas como Xu, Liu e Pan são as que acabam sofrendo. São alguns dos muitos chineses comuns que são obrigados a cortar gastos cotidianos em consequência do fato de a segunda maior economia do mundo estar experimentando sua pior recessão desde a crise financeira mundial de 2008.

“As pessoas começaram a cortar gastos, deixaram de gastar com coisas supérfluas, e algumas chegam até a racionar as essenciais, porque sentem que a economia não está bem”, diz Ye Tan, um economista independente que vive em Shanghai. “As empresas e os indivíduos são pessimistas sobre a economia”, agrega.

Neste começo de 2019, a China enfrenta não só a desaceleração da economia como também os efeitos de uma guerra comercial prolongada com os Estados Unidos, uma enorme dívida que ameaça a economia mundial, além do próprio sistema financeiro chinês, e uma população que exige uma melhor proteção do meio ambiente, do trabalho e da saúde.

No próximo ano, os dirigentes chineses enfrentarão algumas das decisões políticas mais difíceis dos últimos anos. Segundo os analistas, eles terão que escolher entre impulsar o crescimento através das alavancas tradicionais de Pequim, como a construção de infraestruturas financiadas com dívida, ou as dolorosas reformas que reduzam o risco financeiro, embora aumentem a possibilidade de crise e instabilidade social.

Oficialmente, a economia da China marcha em um bom ritmo. Se espera que o crescimento econômico se desacelere fique em torno dos 6,3% neste ano, depois de alcançar um 6,6% em 2018. No terceiro trimestre (o mais lento já vivido no país desde 2009), a economia cresceu 6,5%. Essa desaceleração da economia chinesa afeta as exportações de muitos países latino-americanos, como Bolívia, Brasil, Chile e Venezuela, para citar alguns exemplos.

Das vendas de automóveis à produção industrial, os indicadores econômicos mostram números piscando no vermelho. Em novembro, o crescimento do setor de manufaturas da China se estagnou pela primeira vez em mais de dois anos. As vendas anuais de automóveis no maior mercado do mundo estão a ponto de cair pela primeira vez desde os Anos 90.

As ações da bolsa chinesa, que podem servir para medir a confiança sobre a economia real, vêm sofrendo quedas seguidas nas últimas semanas, chegando a perder até 2 bilhões de yuanes. As fábricas estão despedindo trabalhadores antes das férias pelo ano novo chinês – que acontece em fevereiro. O setor imobiliário, uma das poucas áreas nas que os chineses comuns podem investir, também enfrenta problemas, forçando os corretores a reduzir os preços.

Uma desaceleração econômica é especialmente sensível na China, onde a estabilidade social muitas vezes se condiciona à capacidade do governo de assegurar um crescimento contínuo. Em setembro, as autoridades responsáveis pela propaganda governamental ordenaram aos jornalistas que deixassem de dar cifras que revelassem sinais da desaceleração da economia, ou que falassem da guerra comercial com os Estados Unidos, ou de qualquer coisa relacionada às “dificuldades de vida das pessoas”.

Mas não é fácil ocultar esses problemas. Além das dificuldades já mencionadas aos corretores imobiliários, os proprietários de imóveis de todas as cidades da China começaram a realizar protestos, e o mesmo fizeram muitos grupos de trabalhadores. O Boletim do Trabalho da China (CLB, por sua sigla em inglês), que rastreia o ativismo trabalhista no país, mostra que as greves e mobilizações entre 2103 e 2017 (durante o primeiro mandato do presidente Xi Jinping) incluem não somente o setor industrial como também o de serviços e o comércio varejista.

O CLB registrou 1640 greves ou protestos industriais em 2018, cerca de 400 a mais que no ano anterior, e isso que o número tampouco é representativo de todas as greves acontecidas no país durante o período.

“Se observamos a natureza desses protestos, a grande maioria dos casos está vinculada de alguma forma à desaceleração da economia. Os protestos são provocados pela incapacidade dos empregadores de pagar os salários a tempo, pelo fechamento das fábricas e o colapso das empresas no setor de serviços, entre outros fatores”, disse Geoffrey Crothall, um dos responsáveis pelo CLB.

Como reação a isso, a China vem aplicando medidas para recuperar a economia, através de cortes de impostos para os consumidores, como forma de fomentar o gasto, além de subsídios aos jovens sem emprego e subvenções fiscais no pagamento do seguro de desemprego às empresas que não despedem empregados.

Mas pode ser que isso não seja suficiente para encarar o outro problema que ameaça a economia: a distribuição desigual da riqueza. Durante os últimos 30 anos de crescimento econômico na China, a riqueza foi parar nas mãos do governo e das elites locais, que preferem acumular dinheiro do que gastar, segundo o economista Michael Pettis, professor de finanças da escola de gestão Guanghua, da Universidade de Pequim.

“Corrigir os problemas da China é uma tarefa bastante simples. Basta transferir a riqueza das elites para as classes trabalhadoras chinesas”, argumenta Pettis. “Essa sempre foi a parte mais difícil, a gestão da transferência da riqueza”, completa.

De certa forma, a China voltou à sua velha fórmula de abrir as válvulas do investimento público. No começo deste ano, o governo autorizou os bancos estatais a outorgar financiamento às pequenas e médias empresas que outrora tiveram problemas para acessar esse crédito. No terceiro trimestre, os planificadores aprovaram 45 novos projetos de infraestrutura pelo valor de 437,4 bilhões de yuanes, contra 90,5 bilhões no trimestre anterior.

Os analistas, em seu otimismo a respeito de que China realizará as reformas prometidas e continuará com sua campanha para reduzir a moratória, dizem que estas medidas mostram uma China com novas prioridades.

“Creio que as metas de crescimento do PIB fixadas para os próximos 20 ou 30 anos já não representam um consenso de todos os níveis de governo. São muitos os dispostos a tolerar taxas de crescimento mais lentas”, analisa Damien Ma, cofundador do Centro de Estudos Macro Polo, do Instituto Paulson, de Chicago.

Segundo Ma, “o contrato social evoluiu com Xi Jinping. Já não se trata de crescimento, mas sim de assistência sanitária, educação, ar limpo, água potável, qualidade de vida”, se referindo também à taxa de partículas contaminantes no ar, um indicador da poluição. Ele agrega que “nos próximos 5 ou 10 anos, os objetivos com respeito às partículas serão mais importantes que o objetivo do PIB”.

Lily Kuo é jornalista e analista britânica, correspondente do diário The Guardian em Pequim

*Publicado em espanhol em sinpermiso.info | Tradução de Victor Farinelli




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