Poder e Contrapoder

Por que Biden deveria abandonar a fracassada guerra comercial com a China?

O presidente eleito estadunidense Joe Biden diz que não fará mudanças significativas na política chinesa dos EUA até que conduza uma revisão completa da atual fase um do acordo comercial e consulte com aliados na Ásia e na Europa. Mas não deveria ser necessária uma revisão ampla para perceber que essa abordagem é inviável

19/01/2021 20:15

(Frederic J. Brown/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (Frederic J. Brown/AFP via Getty Images)

 
Quando o presidente eleito Joe Biden tomar posse na semana que vem, ele agirá rapidamente para transformar muitas dimensões da política estadunidense. Uma exceção gritante é a China. Mas se Biden mantiver a abordagem conflituosa do presidente Donald Trump em relação a segunda maior economia global, ele vai se arrepender eventualmente.

Enquanto Biden pode ser menos antagonista em relação a China do que Trump foi, ele já ecoou muitas das reclamações de seu antecessor sobre as práticas comerciais da China, acusando o país de “roubar” propriedade intelectual, despejar produtos em mercados estrangeiros, e forçar transferências tecnológicas de empresas estadunidenses. E ele já indicou que não abandonará de imediato o acordo comercial bilateral “fase um” alcançado no ano passado, ou remover as tarifas de 25% que agora afetam cerca de metade das exportações da China para os EUA.

Na visão de Biden, é melhor não fazer nenhuma mudança significativa na atual abordagem com a China até que ele conduza uma revisão completa da atual fase um do acordo comercial e consulte com aliados na Ásia e na Europa, de modo a “desenvolver uma estratégia coerente”. Sua Representante Comercial escolhida, Katherine Tai – uma advogada de comércio asiático-americano (e fluente em mandarim), com vasta experiência sobre a China – pode ter um papel importante na revisão do processo.

Mas não deve ser necessário um exame abrangente para perceber que altas tarifas e o acordo são fundamentalmente incompatíveis. Nos últimos dois anos, a proporção de exportações chinesas para os EUA sujeitas a tarifas adicionais aumentou de uma quota insignificante para mais de 70%. E a quota de exportações estadunidenses para a China sujeitas a tarifas disparou, de 2% em fevereiro de 2018 para mais de 50% dois anos depois.

No mesmo período, os EUA implementaram 11 rounds de sanções contra entidades chinesas. A adição no mês passado de 59 empresas chinesas e indivíduos à lista de entidades proibidas para exportação do Departamento de Comércio dos EUA elevaram o total para 350 – o máximo para qualquer país.

Com custos altos e limitações rígidas às exportações, a China simplesmente não consegue honrar seu compromisso, incluso no acordo fase um, de adquirir cerca de $200 bilhões em bens e serviços estadunidenses adicionais em 2020-21. Desde janeiro de 2020, as exportações dos EUA para a China caíram bem abaixo dos objetivos do acordo. Como resultado, em novembro de 2020, a China havia cumprido apenas 57% do seu compromisso anual de compra.

As opções da China para um progresso acelerado são severamente limitadas. O setor privado – que representa quase 80% da demanda chinesa por importados estadunidenses – não pode simplesmente ser instruído a adquirir bens estadunidenses com tarifas tão altas. E forçar empresas estatais a assumir os problemas criaria seus próprios problemas.

A conclusão é clara: enquanto Biden mantiver a abordagem conflituosa de Trump, o acordo será fundamentalmente inviável, e um progresso em direção a uma relação comercial benéfica mutualmente será tudo menos possível. O comércio bilateral pode até colapsar.

Mas isso não significa que a administração Biden precise somente remover tarifas. O acordo também é profundamente falho, consentir com ele forçaria a China a reduzir as importações dos outros países. Dando aos EUA uma vantagem significativa sobre os parceiros comerciais da China, o acordo pode até violar o princípio de não discriminação da OIT.

Outros países, com isso, estão tentando igualar o campo de ação. No final de 2020, a União Europeia e a China concluíram o Acordo Abrangente sobre Investimento, e todos os 10 dos países da ASEAN assinaram a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), junto com a China, Japão, Coréia do Sul, Austrália e a Nova Zelândia.

Nada disso é do interesse dos EUA. Para início de conversa, países da ASEAN – que, coletivamente, formam o quarto maior mercado exportador dos EUA – são mais propensos a reorientar o comércio para seus parceiros do RCEP. O fato de que o RCEP carece de padrões ambientais e de trabalho vistos em acordos com o Canadá, México e os EUA, vai reforçar essa reorientação.

O RCEP também é propenso a aumentar a demanda chinesa de exportações de energia e agricultura da Austrália e da Nova Zelândia. E ao estabelecer indiretamente uma zona de livre comércio entre a China, o Japão e a Coréia do Sul – o chamado triângulo de ferro – irá consolidar cadeias de distribuição no nordeste da Ásia e no oeste do Pacífico. Isso coloca os EUA em uma desvantagem econômica crescente.

Ao invés de manter a política chinesa conflituosa de Trump, Biden deveria aceitar o papel central da China na economia global, e perseguir um acordo comercial não discriminatório e mutualmente benéfico. Os esforços da China de se unir ao Acordo Progressivo e Abrangente para a Parceria Transpacífico – que evoluiu da Parceria TransPacífico depois de Trump abandoná-la quatro anos atrás – poderiam fornecer uma importante abertura aqui.

A administração Biden promete um recomeço para os EUA e suas relações com o mundo. Para cumprir essa promessa, ele deve pôr fim à desastrosa guerra comercial contra a China do seu antecessor.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares

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