Poder e Contrapoder

Trump é assustadoramente instável - o mundo corre perigo

Já passou da hora do impeachment e a 25ª emenda nunca foi testada. As urnas são nossa última esperança

17/09/2019 09:41

(Kevin Lamarque/Reuters)

Créditos da foto: (Kevin Lamarque/Reuters)

 
Em retrospecto, o que mais preocupa no "Sharpiegate" não é a tentativa desastrada de Trump de falsificar um mapa do Serviço Nacional de Meteorologia nem seu descaramento em tentar fazer com que a mesma agência minta em seu nome.

O que mais preocupa é o motivo totalmente mesquinho para fazê-lo. Tivemos presidentes que tentaram encobrir uma ligação sexual com uma estagiária ou um roubo tosco, mas nunca antes um presidente se esforçou tanto para esconder uma previsão meteorológica imprecisa. O estado do Alabama atingido por um furacão? Amigos, isso não é um comportamento racional.

Trump também cancelou uma reunião com o Talibã em Camp David. Era para ser uma reunião secreta. Estava marcada para a semana do aniversário de 11 de setembro. Ele cancelou-a por tuíte.

Alguma dessas coisas lhes parece minimamente racional?

Antes disso, Trump cancelou uma visita de estado à Dinamarca porque a Dinamarca não quis vender a Groenlândia para os EUA. Oi? A Groenlândia não estava à venda. Os EUA não compram mais países povoados. A visita de estado estava planejada há meses.

Ele sugeriu algumas vezes que órgãos americanos explorassem o uso de bombas nucleares para impedir que furacões atingissem os EUA. Ele acredita que os videogames causem assassinatos em massa. Ele acha que as mudanças climáticas não têm importância.

Ele diz que as guerras comerciais são "boas e fáceis de vencer". Ele insiste que são consumidores chineses e não americanos que pagam suas tarifas. Ele "ordena" que empresas americanas parem de fazer negócios na China.

Ele chama o presidente do Federal Reserve de "inimigo". Ele retuitou a sugestão nojenta de um comediante de que os Clintons eram os responsáveis pelo suicídio do agressor sexual condenado Jeffrey Epstein.

Acho que temos que encarar a verdade que ninguém parece querer admitir. Não se trata de mais um caso de narcisismo excessivo ou exibicionismo. Não estamos simplesmente lidando com um ego extraordinariamente grande.

O presidente dos Estados Unidos é seriamente, assustadoramente, perigosamente instável. E está piorando a cada dia.

Uma pessoa assim no Salão Oval pode causar sérios danos.

O que fazer? Podemos votar para que deixe o cargo dentro de 14 meses. Mas ele pode acabar com o mundo em 7,5 segundos.

É também importante questionar se ele sairá de bom grado.

Você pode imaginar o que ele fará para ganhar as eleições? Será que vai convencer a Rússia a fazer mais sujeira? Irá instruir o departamento de justiça a prender seu oponente? Emitir uma ordem executiva proibindo quem não tiver nascido nos EUA de votar? Começar outra guerra?

Quando os tribunais ordenarem que ele interrompa qualquer manobra inconstitucional que possa tentar fazer para permanecer no cargo, a eleição poderá ter terminado. Ou ele pode simplesmente ignorar os tribunais.

É quase tarde demais para um impeachment. Além disso, nenhum presidente americano foi mandado embora. Nixon renunciou quando viu que isso aconteceria. Trump optaria por iniciar uma guerra civil.

Além disso, ser instável não é passível de impeachment.

Dois republicanos que querem desafiá-lo em primárias sugerem outra possibilidade: a 25ª emenda.

O ex-governador de Massachusetts, Bill Weld, tuitou recentemente que Trump é "um perigo claro e presente" para os EUA, com a hashtag #25thAmendment. O ex-representante de Illinois Joe Walsh diz que a emenda deveria ser "analisada".

Em fevereiro, o ex-vice-diretor e diretor interino do FBI Andrew McCabe afirmou que membros do Departamento de Justiça haviam discutido o uso da 25ª emenda.

Ratificada em 1967, permite que o vice-presidente se torne "presidente interino" quando "o vice-presidente e a maioria dos principais membros dos departamentos executivos ou de outro órgão que o Congresso possa por lei estipular" declararem um presidente incapacitado.

O único atributo que o vice-presidente Mike Pence exibiu até hoje é a bajulação: a ilustração mais recente foi o pernoite no resort de golfe de Trump na Irlanda. Mas com os rumores de que Trump poderia trocá-lo por outro cãozinho, quem sabe? Talvez Pence descubra seus cojones.

Outro problema: a emenda não define quem são os "principais executivos" e a constituição não menciona a palavra "ministério". Se Trump pensasse haver uma revolta em curso, demitiria todos instantaneamente.

Eu não descartaria completamente a 25ª emenda, mas a única coisa que faria Pence e a maioria dos comandados de Trump destituírem o presidente antes que Trump se livrasse deles seria tão assustadora que o dano causado aos EUA e ao mundo estaria muito além de tudo aquilo que vivemos até agora.

Ou seja: tenham cuidado com o que desejam.

Orem para que possamos atravessar os próximos 14 meses. E então, façam tudo o que estiver ao alcance de vocês para tirar esse homem da presidência.

Robert Reich, ex-secretário do Trabalho dos EUA, é professor de políticas públicas na Universidade da Califórnia em Berkeley e autor de Saving Capitalism: For the Many, Not the Few e The Common Good. É também colunista do Guardian US

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles



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