Poder e Contrapoder

Trump inquieta aliados geopolíticos do Oriente Médio

 

08/01/2019 12:57

 

 

Temos que reconhecer uma das capacidades de Donald Trump, que é a de surpreender constantemente tanto os aliados quanto os inimigos. Nesta quarta-feira (26/12), uma semana depois de anunciar que seus efetivos militares – cerca de 2,2 mil soldados – abandonarão o nordeste da Síria, ele se apresentou na base aérea de Ayn al Asad, no Iraque, para uma reunião festiva com as tropas estadunidenses ali estacionadas. O primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi foi avisado apenas duas horas antes da sua chegada, e evidentemente não gostou nem um pouco desse gesto neocolonial. Contudo, o anúncio da retirada da Síria decepcionou uma maior quantidade de aliados, pois se a decisão trouxer nova instabilidade no país vizinho, ou na reativação do Estado Islâmico (EI), poderia levar também a uma nova onda de refugiados. Por isso, Bagdá decidiu reforçar a segurança em sua fronteira.

“Temos um plano fantástico”, disse Trump, mas sem maiores explicações, além da ideia de que o Iraque poderia se uma “base regional” para o combate ao EI. Cabe recordar que a decisão de deixar a Síria resultou também no pedido de demissão do chefe do Pentágono, James Mattis, e na aposentadoria antecipada de Brett McGurk, representante presidencial na coalizão internacional contra o Estado Islâmico.

O mapa do nordeste da Síria e da fronteira com o Iraque, especialmente a região ao longo do rio Eufrates, começa a se transformar dramaticamente. Na ribeira oriental, se encontram as Forças Democráticas Sírias (FDS), formadas majoritariamente pelas milícias curdas da Síria, que possuem grande força de choque, estimuladas e instrumentalizadas pelos Estados Unidos. Assessores e artilheiros franceses também as apoiam, com a justificativa de atacar os redutos do EI na zona. Nas últimas semanas, o avanço das FDS foi substancial, já que contam com a ajuda de bombardeiros aéreos.

A retirada estadunidense de uma dezena de bases espalhadas pelo território do Curdistão sírio representa uma punhalada nas costas dos curdos. Por um lado, os deixa à mercê da ameaça da Turquia, que já reuniu as forças necessárias para fazê-los retroceder no setor mais ao oeste do seu território, perto da margem oriental do Eufrates.

Esta situação, potencialmente explosiva, acabaria com o sonho da autonomia curda na Síria. Mas, ao menos por enquanto, não se trata de uma situação definitiva.

No dia 12 de dezembro, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou oficialmente uma ofensiva do seu país contra os curdos. Dois dias depois, Trump comunicou por telefone a retirada das tropas estadunidenses. Segundo os meios e analistas turcos, a decisão confundiu Erdogan, já que insistiu durante ao menos um ano em que os Estados Unidos deixassem o enclave curdo de Manbij (oeste do Eufrates) e cedessem terreno às tropas turcas, e agora o presidente norte-americano decide sair, assim, de forma inesperada e sem maiores explicações. A retirada, que já foi iniciada, pode durar até cem dias, mas fez com que Erdogan adiasse o seu ataque. O que fazer agora? A ideia era obrigar os curdos a retroceder, numa ação pontual, sabendo que os norte-americanos estão do outro lado. Mas, agora que não estão, até onde podem levar a ofensiva?

Os curdos são a grande preocupação da Turquia, que levantou um muro de 800 quilômetros ao longo da fronteira síria, uma construção bem iluminada, repleta de sistemas eletrônicos e vigiada por tropas que disparam a qualquer um que se aproxime. Erdogan, portanto, não precisa de uma guerra no Curdistão.

Essa retirada, que parecia um favor norte-americano (também parece uma decisão irracional, do ponto de vista dos interesses de Washington), dificulta bastante as coisas. Neste sábado (29/12), uma delegação turca encabeçada por ministros de Defesa e Relações Exteriores, viajou a Moscou. Provavelmente, haverá uma conversa posterior entre Erdogan e Putin, por telefone.

Segundo o diário turco Hürriyet, o governo do país pretende discutir com a Rússia quem vai ocupar as zonas que os Estados Unidos deixarão livres. Para a Rússia, isso está muito claro: devem ser devolvidas ao governo sírio. Aliás, Damasco tem distribuído suas forças ao longo do Eufrates, incluindo suas unidades de elite.

Os curdos também estão em conversações com a Rússia. O enviado do presidente Putin para o Oriente Médio, Mikhail Bogdanov, disse que Moscou está mediando entre os curdos e Damasco para permitir o retorno das forças do governo de Bashar al-Assad ao Curdistão sírio – os sírios têm uma presença muito limitada em Qamishli e Hasakah, devido a acordos gerados durante a guerra, já que os curdos nunca combateram o regime. A outra meta da gestão russa teria como objetivo fazer com que a Turquia abandone a ideia de realizar sua ofensiva.

A Rússia também está trabalhando diplomaticamente em outro nível, promovendo a reconciliação dos países árabes com Bashar al-Assad. No dia 16 de dezembro, o presidente sírio recebeu a visita do sudanês Omar al-Bashir, encontro que foi proporcionado graças ao uso de aviões russos. Al-Bashir é um proscrito da Corte Penal Internacional, mas isso pouco importa. Tratou-se da primeira visita a Damasco de um líder árabe desde o início da guerra. Moscou respalda a Síria para que seja readmitida pela Liga Árabe, da qual foi expulsa em 2011, e alguns países estão dispostos a colaborar. Meios governistas egípcios advogam por isso, por exemplo. Muito mais significativos, os Emirados Árabes Unidos – que apoiaram a rebelião contra al-Assad – reabrirão sua embaixada em Damasco. O Egito, segundo fontes curdas, poderia mediar com al-Assad um acordo que os proteja da Turquia.

Em meio a este esforço russo, o fator iraniano não é menos importante. No front, as forças que têm maior peso não são as russas, muito limitadas, e sim as do Irã, além de milícias tanto sírias quanto estrangeiras (o Hezbollah libanês e outras formações xiitas). Segundo Bogdanov, uma vez que Damasco recupere o controle de toda a Síria e al-Assad seja reconhecido e aceito, o que está a caminho de ser confirmado, não haverá mais razão para que as forças de Teerã sigam no país.

A permanência do Irã e do Hezbollah na Síria sem o contrapeso norte-americano é motivo para a incomodidade de outro aliado dos Estados Unidos: Israel. Na madrugada desta quarta-feira (26/12), aviões israelenses atacaram novamente os objetivos logísticos do Hezbollah nos arredores de Damasco.

O Iraque, os curdos da Síria e Israel. Três parceiros estadunidenses que reclamam das consequências que virão após a decisão de Trump. Se as previsões se concretizam, o presidente terá gerado, como principal resultado, o incremento do peso da Rússia e do Irã na região, demolindo a confiança dos aliados presentes e futuros, tal como advertiram por carta meia dúzia de senadores republicanos.

Se espera que John Bolton, assessor de segurança de Trump, se reúna com os turcos depois do Ano Novo. Se trata do mesmo ideólogo que, há três anos, escreveu no The New York Times que a melhor forma de derrotar ao Estado Islâmico era dividir a Síria entre um território para al-Assad, um Curdistão e um “Sunistão” que, certamente não seria uma Suíça árabe. No momento, não parece que esse cenário será possível, a não ser que ele tenha um “plano fantástico”, como disse Trump no Iraque.

*Publicado originalmente em lavanguardia.com | Tradução de Victor Farinelli

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