Poder e Contrapoder

Uma superpotência em ascensão

Revista tecnológica do MIT expõe o enorme salto tecnológico feito pela China nas últimas três décadas e mostra como não é só na tecnologia 5G que os chineses estão na vanguarda

05/07/2019 17:03

Créditos da foto: "A China domina . Genes, chips, qubits1, foguetes, reatores, vigilância e areia - as ferramentas de uma superpotência em ascensão"

 

A edição de janeiro deste ano da revista de tecnologia do Massachusetts Institute of Technology, o lendário MIT, é totalmente dedicada à China. Este facto já de si seria significativo, mas ganha uma dimensão ainda maior por ser a edição que comemora o 120º aniversário da publicação.

“China Rules” (A China domina), é o título principal, e o subtítulo completa: “Genes, chips, qubits, rockets, reactors, surveillance, and sand – the tools of a raising superpower” (Genes, chips, qubits, foguetes, reatores, vigilância e areia – as ferramentas de uma superpotência em ascensão).

O título é, evidentemente, uma provocação. A China (ainda) não “domina” a tecnologia mundial. Mas é impressionante o crescimento do seu poder tecnológico em pouco mais de 30 anos, contando desde os anos 80. Foi por essa altura que começou a formar-se, num canto do noroeste de Pequim, perto das universidades de Pequim e de Tsinghua, a Rua das Eletrónicas, como ficou conhecida a zona em que se instalaram as primeiras empresas de informática chinesas.

A China (ainda) não “domina” a tecnologia mundial. Mas é impressionante o crescimento do seu poder tecnológico em pouco mais de 30 anos, contando desde os anos 80.

Hoje, a Zhongguancun, o nome pelo qual passou a ser conhecida esta área, já nada tem a ver com aqueles tempos heróicos em que cartazes empoeirados pendiam sobre as cabeças dos transeuntes, pilhas de caixas de papel bloqueavam o caminho, homens vestindo fatos baratos vendiam em quiosques cabos de força e tinteiros de impressora, e o software pirata era tão abundante que havia quem preferisse chamá-la de Rua dos Aldrabões, relata a revista.

Posteriormente, o governo criou muitos outros parques tecnológicos, noutros locais, para albergar empresas dessa área. Mas na Rua da Eletrónica emergiu, por exemplo, a Lenovo, fabricante do computador portátil em que está a ser escrito este artigo. E em Zhongguancun têm sede as gigantes tecnológicas Baidu, Didi Chuxing e Meituan-Dianping, e também centros de investigação da Microsoft, Google e Internet.

Pelas contas da MIT Technology Review, a China tem hoje nove das 20 maiores empresas tecnológicas, sendo que três estão no top 10. É chinês o maior rádiotelescópio do mundo, assim como são chineses vários dos mais rápidos supercomputadores. Em 2016, a China lançou o primeiro satélite de comunicações quântico. E está a construir o maior acelerador de partículas do mundo, que será duas vezes maior e sete vezes mais potente que o LHC do CERN, o Centro Europeu para a Investigação Nuclear.

As ambições do governo de Pequim, registadas em planos recentes, são de destacar-se em áreas como a tecnologia móvel da quinta geração (5G), a criação de sementes e a robótica em 2020 e tornar-se líder mundial em inteligência artificial em 2030.

Financiamento em I&D

Este salto quase inacreditável de um país que ainda há pouco tempo era apenas conhecido por suas cópias de quinquilharias produzidas a preço baixo e com má qualidade, é explicado pelo investimento em investigação e desenvolvimento. “Entre 1991 e 2016, o financiamento governamental para I&D cresceu no fator de 30. O país ultrapassou o Japão em gastos de I&D em 2009. A Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento prevê que vai ultrapassar os Estados Unidos por volta de 2019”, regista a revista.

Nem tudo é sucesso. Mesmo se as universidades de elite chinesas sobem nos rankings mundiais, o país teve apenas um prémio Nobel na área de ciências cuja investigação foi feita na China.

Isso não quer dizer que tudo seja sucesso. Mesmo se as universidades de elite chinesas sobem nos rankings mundiais, o país teve apenas um prémio Nobel na área de ciências cuja investigação foi feita na China. O incentivo aos cientistas chineses para publicarem em revistas indexadas internacionalmente obteve muito sucesso, guindando a China ao 2º lugar de publicação de papers em língua inglesa, só atrás dos EUA, mas o seu impacto na comunidade científica é muito menor: enquanto os papers dos EUA são citados, em média, 11,8 vezes, a média de citações dos papers chineses é de 9,4.

Que há que levar muito a sério a crescente capacidade tecnológica da China e a sua apetência para ser a maior potência tecnológica do mundo fica evidenciado nas reportagens desta edição da MIT Technology Review.

Veículos elétricos

Veja-se o caso da indústria automobilística. Nos anos 80, as grandes automobilísticas estrangeiras foram autorizadas a entrar na China, mas com a condição de estabelecerem joint ventures com empresas locais. Assim, as empresas chinesas aprenderiam com mais rapidez e produziriam automóveis chineses de qualidade. Porém, quando os carros chineses invadiram o mercado, verificou-se que não passavam de más cópias e que os motores não tinham grande qualidade. Havia toda uma experiência de décadas da indústria automóvel europeia, japonesa ou norte-americana difícil de reproduzir, principalmente no que se referia à arte de fabricar partes móveis. Um motor a combustão de um Volkswagen Golf tem 149 segmentos móveis. Até hoje a China tem dificuldades com isto, e muitos carros chineses vendidos no exterior vêm equipados com motores de outros países e marcas.

Diante da dificuldade, a China procurou outra tecnologia de futuro onde pudesse mergulhar a fundo. Abraçou, então, a indústria dos veículos elétricos. Hoje, diz a MIT Technology Review, o governo chinês está a promover a passagem dos motores de combustão para os elétricos de uma forma que não é acompanhada por nenhum outro país do planeta. Os veículos elétricos são um dos pilares do plano Made in China 2025. Assim, desde 2013 foram criadas quase 500 empresas chinesas ligadas a este novo ramo da indústria. A China já tem três vezes mais fábricas de baterias em projeto que o resto do mundo inteiro junto. Cinquenta e seis por cento das baterias de lítio são fabricadas na China. E são chinesas cinco das dez maiores empresas de veículos elétricos do mundo, lista liderada pela norte-americana Tesla e onde entram também a BMW, a Renault-Nissan-Mitsubishi, a Volkswagen e a Hyundai-Kia. Estas cinco chinesas são a Byd, o grupo Baic, o grupo SAIC, o grupo Geely e a Chery.

Produção de chips, o calcanhar de Aquiles

O crescimento tecnológico chinês tem, porém, como mostra a revista do MIT, um enorme ponto fraco que é o da produção de microprocessadores. Apesar de a China ser o mercado maior e de mais rápido crescimento para semicondutores, nenhuma fabricante chinesa faz parte da lista das 15 maiores fabricantes de chips do mundo. Os mais avançados microprocessadores são feitos por empresas dos Estados Unidos, Taiwan, Japão e Europa ocidental. Os EUA produzem metade dos chips importados anualmente pela China.

O enorme ponto fraco da China é o da produção de microprocessadores. Apesar ser o mercado maior e de mais rápido crescimento para semicondutores, os mais avançados microprocessadores são feitos por empresas dos Estados Unidos, Taiwan, Japão e Europa ocidental.

Também neste caso a China criou em 2014 um fundo formado por governos locais e empresas do ramo, no valor de 180 mil milhões de dólares, para atualizar toda a indústria de chips chinesa. A sua ambição é que a indústria chinesa produza 80% dos chips de que precisa em 2030.

Não é um objetivo fácil, apesar de todo o investimento envolvido. “Fabricar chips envolve centenas, mesmo milhares de desafios técnicos”, diz o diretor de um centro de ligado à Academia de Ciências chinesa. Calcula-se que os mais avançados produtores têm pelo menos cinco anos de atraso em relação às mais avnaçadas empresa do mundo do ramo.

Por outro lado, há a possibilidade de a própria investigação sobre a Inteligência artificial venha a mudar este panorama. Isto porque está em curso uma mudança de paradigma no desenho dos próprios chips, uma transição entre a lógica da programação e o chamado aprendizado profundo da IA. Como a China não tem atraso em relação à já chamada revolução da aprendizagem profunda, é possível que possa recuperar o atraso devido a esta mudança de paradigma. Já um chip desenhado pela Huawei – mas produzido pela empresa TSMC, de Taiwan –, tem uma unidade de “processamento neural” virada para tarefas de aprendizagem profunda, como o reconhecimento de imagem e de voz.

A atual guerra comercial movida pelos Estados Unidos à China, ao mostrar que Washington pode atrasar o progresso chinês, pode ter como consequência que Pequim invista mais e acelere o caminho para recuperar o atraso e ganhar autonomia na produção de chips, conclui a revista.

Regresso à corrida espacial?

Em julho de 2017, uma falha no foguete Longa Marcha 5 levou ao fracasso à queda do engenho no mar e forçou a um compasso de espera em parte dos planos aeroespaciais da China. O próximo lançamento do Longa Marcha 5 está previsto para julho deste ano e, se correr bem, porá em órbita um satélite geoestacionário de grande capacidade. O voo seguinte servirá para enviar a sonda Chang’e 5 que fará uma viagem de ida e volta à lua. A China já demonstrou as suas capacidades este ano, quando conseguiu pousar uma sonda no lado oculto da lua. Os próximos passos serão a construção de uma estação espacial em órbita e de um telescópio espacial com a mesma resolução do Hubble e com um campo de visão 300 vezes maior. O telescópio ficará a pequena distância da estação orbital, para o caso de ser necessário uma intervenção para reparar alguma avaria. Dos planos chineses consta ainda a construção do Longa Marcha 9, prevista para 2028, que terá capacidade para enviar uma nova missão tripulada à Lua e empreender a viagem de uma sonda a Marte, de ida e volta.

A revista do MIT recorda que a mesma tecnologia que lança satélites, também lança mísseis, mas critica a atuação de Washington, que tem feito os possíveis por obstruir os planos espaciais de Pequim, impedindo a participação da China na estação espacial internacional e aprovando uma lei de 2011 que proíbe contactos bilaterais entre a NASA e cientistas chineses.

A revolução quântica

Em 29 de setembro de 2017, um satélite chinês chamado Micius, nome de um filósofo e cientista chinês do século V, emitiu um pequeno pacote de dados para uma estação terrestre em Xinglong, a duas horas de distância de Pequim. Menos de uma hora depois, o satélite passou sobre a Áustria, no outro lado do mundo, e enviou outro pacote para uma instalação perto da cidade de Gratz. Aqueles pequenos pacotes eram chaves de encriptação para garantir transmissões seguras. As chaves enviadas tinham sido codificadas em fotões, num delicado estado quântico. Qualquer tentativa de intercetá-las teria provocado o colapso deste estado, destruindo a informação e revelando a presença hacker. A encriptação da emissão de vídeo foi convencional, não quântica, mas como as chaves de decriptação são quânticas, o link de vídeo é totalmente seguro.

O Micius foi o primeiro Satélite para Experiência de Ciência Quântica do mundo, e a MIT Technology Review entrevistou o seu criador, Jian-Wei Pan. A computação e as comunicações quânticas estão entre os megaprojetos em que o governo chinês aposta, vendo uma oportunidade de liderar a era quântica da mesma forma que os Estados Unidos dominaram o advento da informática. “Éramos apenas seguidores e aprendizes no nascimento da moderna ciência da informação”, diz o cientista, o mais jovem membro da Academia das Ciências Chinesa. “Agora, temos a possibilidade de ser líderes”.

Além da experiência do satélite Micius, já existe na China a maior rede (por link terrestre) usando chave quântica de distribuição, que liga Pequim a Xangai (2031 quilómetros).

O número de patentes registadas em áreas como as comunicações quânticas e a criptografia quântica ultrapassa as registadas pelos Estados Unidos.

Entre os planos de Jian-Wei Pan está a criação de uma Internet baseada numa constelação de satélites com segurança quântica, e chegar ao nível dos Estados Unidos e se possível ultrapassá-los na construção de computadores quânticos, que têm uma capacidade de processamento ampliada exponencialmente. Estes computadores poderão, por exemplo, correr simulações de reações químicas cuja complexidade é demasiada para os computadores atuais, mesmo os supercomputadores. Dessas simulações poderão sair novos materiais ou novos medicamentos.

O entusiasmo da China pela ciência quântica ficou bem demonstrada pelo próprio Xi Jiping, que se referiu a ela como a ciência que abrirá “uma nova revolução industrial”. (L.L.)

1 Qubits: bits quânticos. Ver aqui.

*Publicado originalmente em esquerda.net

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