Poder e Contrapoder

Washington Post: China saiu vitoriosa do G-20

Recuo de Trump ao retomar as negociações comerciais com Pequim leva o diário norte-americano a considerar a China a principal vencedora do embate que provocou uma guerra de tarifas. Os derrotados foram os "falcões" da Casa Branca.

05/07/2019 17:14

Tweet da Huawei: viragem de 180 graus (U-turn)

Créditos da foto: Tweet da Huawei: viragem de 180 graus (U-turn)

 
“Viragem de 180 graus? Donald Trump sugere que irá permitir que a Huawei volte a comprar tecnologia dos EUA!” (U-turn? Donald Trump suggests he would allow #Huawei to once again purchase U.S. technology! #HuaweiFacts). A mensagem, na conta oficial do twitter da Huawei no dia 29 de junho, reflete o espanto de alguém que ainda não acreditava na informação. Mas logo foi confirmado: os Estados Unidos anunciaram que a gigante empresa tecnológica chinesa pode voltar a comprar produtos de fabricantes americanas, nomeadamente os processadores da Qualcomm, Intel, AMD, Nvidia e outras, e manter o sistema operativo Android, da Google, nos seus smartphones. Nem os chineses esperavam tanto.

A única ressalva de Trump foi sobre vendas que os EUA considerem ameaçar a sua segurança nacional – leia-se de produtos relacionados a equipamentos de 5G, a quinta geração da Internet móvel – que continuarão banidas.

“Nós concordámos que as empresas norte-americanas podem vender produtos para a Huawei”, anunciou Trump, no final da reunião bilateral com o presidente da China, Xi Jiping, durante a Cimeira do G-20. O presidente dos EUA anunciou também que não serão impostas novas tarifas às exportações chinesas para os Estados Unidos, nem serão removidas, por enquanto, as que já foram impostas, e que as negociações voltarão a ocorrer. Como contrapartida, Trump sublinhou que a China prometeu comprar uma “enorme” quantidade de bens agrícolas aos EUA. “Vamos dar-lhes uma lista de coisas que gostávamos que eles comprassem”, disse, sem detalhar.

Em nota emitida pela diplomacia chinesa, o presidente Xi Jinping afirmou: “A China é sincera sobre continuar a negociar com os Estados Unidos, mas as negociações precisam ser em pé de igualdade e mostrar respeito mútuo”.

Quem ganhou e quem perdeu?

A retomada das negociações impõe o balanço: quem ganhou e quem perdeu neste embate? Foram dois meses de guerra comercial, com a imposição de tarifas às importações de produtos de ambos os países, e de guerra tecnológica, particularmente dos Estados Unidos contra a Huawei, mas também contra outras empresas chinesas ligadas à produção de supercomputadores.

O diário The Washington Post responde a esta questão com clareza: “a China conseguiu quase tudo o que queria nesta reunião: Trump concordou com a suspensão de novas tarifas e fez algumas concessões em relação à Huawei. Em A imposição de tarifas às importações da China resultaria na perda de dois milhões de empregos nos Estados Unidos, advertiram mais de 600 empresas dos EUAtroca, disse Trump, Xi Jinping deu o seu acordo à compra de mais produtos agrícolas dos EUA.”

Na lista dos vencedores, o Post inclui: a China, em primeiro lugar; as grandes empresas de venda em retalho, como a Walmart, Target, Amazon, que viam ameaçadas as suas vendas se fossem impostas as novas tarifas às importações da China, elevando o preço final de produtos como smartphones, produtos para bebés e sapatos; os consumidores dos EUA, que pagariam o preço do aumento de tarifas sobre os produtos importados da China; a Huawei, que volta a poder comprar chips fabricados por empresas norte-americanas e que mantém a esperança de entrar num acordo comercial final da China com os EUA; e Wall Street, que viu subir as cotações das bolsas.

A lista dos perdedores é encabeçada pelos “falcões” de Trump em relação à China, seguidos dos “falcões” do Congresso, que queriam um endurecimento maior da Casa Branca para com Pequim, e os democratas, que apostavam na crítica à estratégia de impor mais tarifas.

Aumento de tarifas vira-se contra os EUA

A viragem de 180 graus de Trump tem a sua explicação mais profunda nas pressões que o presidente dos Estados Unidos vinha sofrendo por parte de grande parte das mais importantes empresas americanas. Se fossem aplicadas as tarifas sobre os produtos que ainda não tinham visto o seu custo de importação agravado, os perdedores não seriam só os chineses, mas sim os próprios americanos. E isto por um motivo muito simples: todos os produtos de empresas dos EUA fabricados na China contam como importações da China. Um exemplo flagrante é o iPhone, cuja montagem final é totalmente feita na China.

O caso da Apple é paradigmático. A China exportou para os Estados Unidos, em 2018, 35 mil milhões de dólares em telemóveis. Quase todo este valor provém dos iPhones: 31 mil milhões de dólares. Para se ter uma ideia da importância deste valor, ele representa 6,5% do total de exportações chinesas para os EUA.

A imposição de tarifas de 25% sobre o custo de importação dos iPhones e de outros produtos da Apple fabricados na China seria um desastre para a empresa. Um estudo da Morgan Stanley mostrou que a imposição de tarifas elevaria em 160 dólares o preço final de um iPhone de 999 dólares.

Numa nota divulgada recentemente, a empresa afirmou que caso as tarifas fossem aplicadas ficaria prejudicado o seu compromisso de contribuir com 350 mil milhões de dólares para a economia dos EUA nos próximos cinco anos. As tarifas, observou a empresa, prejudicariam a competitividade dos produtos Apple nos mercados internacionais, porque muitos dos seus competidores seriam, ao contrário da Apple, pouco afetados pela imposição de tarifas.

Perda de dois milhões de empregos nos EUA

Mas não seria só a Apple a prejudicada: mais de 600 empresas, entre elas a Walmart, a Target, a Ikea e a J. Crew tinham mandado uma carta a Donald Trump afirmando que “a imposição de tarifas às importações da China seriam impostos pagos diretamente pelas companhias dos EUA, não pela China”.

A carta citou um estudo mostrando que a imposição de tarifas às importações da China resultaria na perda de dois milhões de empregos nos Estados Unidos, aumentaria em mais de 2.000 dólares anuais os custos de uma família média de quatro pessoas, e reduziria o valor do PNB dos EUA em 1 por cento.

Outras empresas a pressionar Trump contra as tarifas foram as produtoras de PCs e portáteis, incluindo Dell, HP, Intel, e Microsoft, que calcularam o aumento do preço dos portáteis em 120 dólares em média, chegando a preços que colocariam estes produtos fora do alcance de muitos consumidores.

Com a retomada das negociações, fica suspensa a guerra comercial EUA-China. Mas a guerra tecnológica continuará acesa nas mais variadas áreas, porque a China vai continuar a batalhar por ser hegemónica em áreas como a 5G, inteligência artificial, supercomputadores, computação quântica e tantas outras. Veremos qual será o próximo episódio.

A guerra comercial movida pela administração Trump contra a China agravou-se no último mês e ameaça ter repercussões graves na economia mundial. Neste dossier, mostramos que o que está em causa não é uma questão de espionagem, mas uma disputa pela hegemonia tecnológica em que a China, em diversas áreas, procura superar os Estados Unidos. Dossier coordenado por Luis Leiria.

A combinação de alta tecnologia, capitalismo e regime ditatorial está a construir uma aterradora distopia: um “sistema de crédito social” onde cada um dos 1400 milhões de chineses participará de um ranking nacional, a partir de dados controlados pelo governo, e as suas atitudes farão a sua pontuação subir ou descer.

*Publicado originalmente em esquerda.net



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