Política

“Alckmin poderia ser o candidato do PFL”, diz professor da UnB

14/03/2006 00:00

BRASÍLIA – Não é de hoje que o PSDB vem assumindo gradativamente a representação institucional do conservadorismo no país. Mas a escolha do governador Geraldo Alckmin como candidato tucano para as próximas eleições presidenciais, na concepção do professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Luis Felipe Miguel, carrega uma significação emblemática: o partido assumiu de vez a posição de centro aglutinador dos ideais conservadores na política brasileira.

“Um candidato à Presidência da República do perfil de Geraldo Alckmin seria impensável nos primórdios do PSDB, no final dos anos 80”, argumenta o acadêmico. “Alckmin poderia perfeitamente ser o candidato do PFL”. Nos últimos dez anos, esquadrinha o especialista, houve uma diminuição na quantidade de agremiações políticas caracterizadas como de direita, acompanhado de um deslocamento do conjunto dos partidos para a direita. “Se houvesse uma polarização entre PT e PSDB em 1989, ela estaria se dando em outro espectro político-ideológico”.

Para Miguel, a escolha de Alckmin não deixa também de ser uma aposta no marketing político como fator determinante na disputa eleitoral. Mais “moldável”, o governador de São Paulo seria um candidato com uma imagem a ser construída, sem referências marcantes em relação ao passado. “É a consagração do produto-candidato”, completa.

Em contraste com os traços apolíticos fundados na valorização da gestão técnica e da competência encarnados por Alckmin, o prefeito de São Paulo, José Serra, preterido no capítulo final da longa novela da escolha do candidato protagonizada pela cúpula tucana, seria, para o professor da UnB, um político complexo. As atuações como ministro em diferentes pastas do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e como comandante da Prefeitura de São Paulo podem ser tomadas como evidências da forte personalidade de Serra.

O processo de escolha do candidato tucano, analisa Miguel, foi marcado por uma “surpreendente ingenuidade” que não foi capaz de evitar “graves feridas” logo nos primeiros passos de uma dura campanha. Naturalmente, os ânimos tendem a se acirrar com a proximidade da escolha final do candidato. E a cúpula tucana teria apostado justamente no oposto, no aumento da unidade no momento de desfecho da disputa.

O próprio Serra teria se equivocado ao apostar nesse “consenso milagroso”. A estratégia do prefeito tinha duas etapas. A primeira delas, lembra o professor, consistiu na fragilidade de qualquer outro postulante tucano nas pesquisas de intenção de voto. Nessa primeira etapa, o candidato derrotado em 2002 acertara em cheio, já que Alckmin, mesmo com doses cavalares de investimentos em publicidade, pouco avançou na preferência dos eleitores. A segunda etapa da aposta é que não vingou: a transformação automática dos baixos índices de Alckmin na “aclamação” de Serra. Mesmo bastante pressionado, Alckmin resistiu de forma surpreendente, manteve as costuras políticas e ficou com a vaga.

“Agora, Serra também precisa disputar uma campanha para demonstrar empenho pela candidatura Alckmin. Se continuar na prefeitura, a tendência ao comodismo será acentuada”, prevê o professor. Para uma parcela mais bem informada da população, postula Miguel, a opção de PSDB de poupar Serra, candidato até aqui com mais chances de derrotar a candidatura da situação, passa um recado de derrotismo antecipado.


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