Política

'A perseguição a Lula é outra das fases do golpe'

A ex-presidenta Dilma Roussef será uma das principais personalidades presentes nos atos e manifestações contra o julgamento de Lula da Silva, os quais ela descreve como uma briga em defesa das instituições do país.

21/01/2018 19:44

Adrián Pérez

Créditos da foto: Adrián Pérez

O centro de gravidade da política brasileira no momento é a cidade de Porto Alegre, onde está o Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF-4), que avaliará a sentença de nove anos e meio de prisão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proferida pelo juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato, magistrado de primeira instância da cidade de Curitiba.

Na capital gaúcha, que aguarda a chegada de caravanas de petistas e camponeses sem terra, a ex-presidenta Dilma Rousseff concedeu uma entrevista ao jornal Página/12, na qual criticou a “perseguição judicial” contra seu padrinho político, dizendo que esta é “uma das fases do golpe dado contra mim há dois anos”.

Rousseff possivelmente será uma das oradoras na vigília que precederá a audiência judicial, que se transmitirá ao vivo pelas redes sociais. Fora do Palácio que alberga o TRF-4 instalou-se uma zona de proteção policial, a qual é apoiada por tropas de elite federais. Também foi solicitada oficialmente a presença das Forças Armadas, mas o pedido foi negado pelo Ministério de Defesa. Essas medidas restritivas do direito de protesto são tomadas após uma série de manifestações de respaldo ao líder petista e a proliferação de grafites e pichações com a consigna “Lula é Inocente”, que apareceram em diversas capitais. O aumento do apoio à oposição é um fato da atual conjuntura, segundo Dilma, para quem “a luta pela democracia” será deflagrada dentro e fora dos palácios judiciais.

“Neste momento, o que a vida quer é coragem”, afirma Rousseff, a mesma frase que dá título a uma biografia que conta sua participação na resistência armada à ditadura, os três anos de prisão que enfrentou no começo dos Anos 70 e sua chegada à Presidência, em 2011.

Página/12: Você falou de um golpe continuado, cujo início ocorreu com o fim do seu governo, em 2016. O processo desta quarta é a última dessas etapas?

Dilma Rousseff: Não. Os responsáveis pelo golpe estão preparando outras. Mas antes de falar disso, deixe-me explicar em que consiste esta fase que terá lugar no TRF-4. O objetivo deste processo sem sustentação alguma, sem provas, totalmente inconsistente, é impedir a candidatura de Lula. Por isso a o julgamento foi marcado para uma data estranha, como é o 24 de janeiro, que não é quando o Poder Judiciário realiza audiências para atividades como essa. Estão tentando acelerar o trâmite, pensando nas eleições de outubro, e para isso precisavam diminuir o período entre a publicação da sentença de Moro (em julho) e esta revisão. Os golpistas estão diante uma verdadeira encruzilhada: necessitam vencer em outubro para dar legitimidade ao seu projeto político, mas não poderão fazer porque esse projeto tem um obstáculo que não se pode derrubar, e que se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Ele aparece como favorito em todas as pesquisas, com mais de 40% das intenções, mas do dobro de seu principal concorrente (o deputado e ex-militar Jair Bolsonaro) e está crescendo. Já há medições que o projetam como vencedor já no primeiro turno. Lula é o preferido em todas as faixas etárias e em todas as regiões do Brasil. Esta quarta-feira (24/1) será o dia em que tentarão derrubar esse obstáculo, e não conseguirão. Seria melhor se entendessem que Lula representa o povo brasileiro e que está decidido a seguir adiante aconteça o que acontece. Ele já disse que morto ou vivo, condenado ou absolvidos, preso ou solto, ele vai disputar as eleições.

Página/12: Segundo comentaristas da grande imprensa, o resultado mais provável seria o de a condenação de Lula fosse ratificada. Você concorda com essa previsão?

Dilma Rousseff: O que pode acontecer? Por um lado, pode ser que os três desembargadores do TRF-4 decidam condená-lo, e se isso acontece estaríamos diante de um agravamento do lawfare (guerra judicial), a tentativa de destruir sua imagem, utilizando instrumentos jurídicos para alcançar objetivos políticos. Também há a hipótese da absolvição, que é muito difícil, até porque um dos magistrados já se pronunciou dando a entender sua posição contra Lula (o relator do caso, João Pedro Gebran). Há todo um leque de probabilidades, entre elas o de uma decisão condenatória de dois votos contra um. Quero dizer que tanto para Lula como para o Brasil seria muito bom que o tribunal reconheça sua inocência. Seria algo bom para as instituições, principalmente para o Poder Judiciário. A inocência de Lula não significaria automaticamente o seu triunfo nas eleições, que são vencidas nas urnas, voto a voto, e não com uma decisão judicial. Há dois meses, eu estive na Argentina, com a presidenta Cristina, e falamos precisamente sobre lawfare. Pelo que sabemos, ela também é vítima de uma perseguição inquisitorial mediante acusações judiciais. Este é um processo que tem alcance regional, que também derrubou o presidente (Fernando) Lugo no Paraguai. Creio que devemos ter uma posição muito clara diante disso, porque não podemos nos esquecer quantos latino-americanos caíram na luta contra as ditaduras, não podemos aceitar a corrosão das nossas democracias através deste lawfare.

Página/12: Se a condenação nesta instância foi de dois votos contra um, isso poderia levar a mais apelações.

Dilma Rousseff: Tenho entendido que sim, mas qualquer que seja o resultado de uma eventual condenação, nós vamos a interpor todas as apelações possíveis. Enquanto isso, Lula seguirá percorrendo o país com suas caravanas (já realizou três muito bem sucedidas no ano passado, pelo interior do país), e continuaremos trabalhando nos recentemente criados Comitês de Defesa da Democracia, vêm tendo um resultado bastante positivo. Nosso plano de mobilização não termina em um ato. Nesta quarta, haverá uma muito importante, mas nós estamos em mobilização permanente.

Página/12: Você descarta a hipótese de que determinem a prisão de Lula?

Dilma Rousseff: Eles não são loucos. São conservadores, reacionários, repressores, mas não se arriscarão a colocá-lo numa prisão, para transformá-lo em um herói. Ademais, com que justificativa o fariam? Não podem alegar que têm dificuldade de encontra-lo, porque é um homem público. Seria muito complicado, porque a sentença desta semana não esgotará as instâncias de apelação. Eu realmente descarto essa possibilidade.

Página/12: O PT trabalha com um Plano B caso Lula não possa ser candidato?

Dilma Rousseff: Não temos Plano B. Só existe o Plano Lula. Não há outro candidato, isso significa que seguiremos defendendo-o seja qual for o resultado desta semana. Nossa decisão política é irreversível, é a resposta aos golpistas que querem bani-lo das eleições de qualquer forma. Por mais que nos ameacem tentando nos induzir a escolher outro candidato no caso de condenação. Se o PT escolhesse outro candidato estaria legitimando a manobras para tirar Lula da campanha. Não vamos dar o aval ao jogo sujo deles!

Página/12: Algo parecido ocorreu em seu último ano de governo, quando pediam a sua renúncia.

Dilma Rousseff: Essa analogia é apropriada, porque quando me pediam para renunciar à Presidência eles buscavam o mesmo efeito: facilitar o caminho para o impeachment. Nós não aceitamos deixar o governo apesar das fortes pressões que sofremos. Quando eles compreenderam que eu não renunciaria, passaram a pedir que não fôssemos ao Senado fazer nossa defesa final. Diziam que minha presença no Congresso seria terrível. A verdade é que não queriam que denunciássemos o golpe. Finalmente, fui ao Senado e o denunciei.

Página/12: Você compararia estas mobilizações com as aquelas entre 1983 e 1984, que reclamavam por eleições diretas nos últimos anos da ditadura?

Dilma Rousseff: De alguma forma sim, mas há diferenças, porque na luta por eleições diretas, que era a principal bandeira durante a transição à democracia numa época na qual havia que reconstruir tudo, a gente começou do zero, não tínhamos um legado para apresentar ao povo. Agora nós temos o exemplo deixado pelos nossos governos.

Salvador da pátria

Dias atrás, o ex-presidente Fernando Collor de Mello anunciou sua pré-candidatura, se apresentando como uma opção “de centro”. Em 1989, Collor derrotou Lula no segundo turno, após a emissora Globo manipular o debate final. Durante toda aquela campanha, o canal carioca apresentou Collor como uma espécie de “salvador da pátria”. Nos últimos meses, essa mesma empresa ensaiou o lançamento da candidatura de Luciano Huck, um dos seus apresentadores mais conhecidos, ideia que por enquanto não decola. Antes, o preferido dos grandes poderes econômicos era o empresário e ex-apresentador de reality shows João Dória Jr., atual prefeito de São Paulo, mas ele tampouco conseguiu ameaçar o favoritismo de Lula.

Dilma Rousseff falou dos riscos que representam os tais outsiders, entre os quais incluiu o deputado e militar retirado Jair Bolsonaro, que se consolidou no segundo lugar entre os candidatos com mais chances – entre 15 e 18% das intenções de voto.

Página/12: Há espaço no Brasil atual para surgir outro “salvador da pátria”?

Dilma Rousseff: É algo ao qual devemos ficar atentos. Temos que considerar uma série de circunstâncias estruturais que estão ocorrendo, como a financeirização acelerada, que na verdade é a verdadeira cara do neoliberalismo, a primazia das atividades financeiras sobre as produtivas. Há uma drenagem de recursos que leva a uma brutal concentração de riqueza e renda, e com elas um agravamento das desigualdades, e o aumento do desemprego, criando assim um ambiente onde surgem aqueles que justificam os ataques à democracia. É assim que se facilita a aparição de “salvadores da pátria”, defensores de posições intolerantes, de restrições às liberdades. São personagens como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Página/12: Você falou antes que haveria futuras fases do golpe. Quais seriam?

Dilma Rousseff: Bem, a que está em curso agora é impedir a candidatura de Lula, que seria invencível para eles. Outra possibilidade é a consolidação do retrocesso que se iniciado com o golpe de Estado, que foi seguido pelo congelamento do gasto público por vinte anos, aprovado como reforma constitucional pouco depois do impeachment. Seu objetivo é dar continuidade à atual agenda de retirar do Estado as atribuições de indutor do crescimento econômico e de agente que trabalha para reduzir as desigualdades.

Ou seja, Estado mínimo, com redução dos investimentos praticamente à estaca zero, além da redução da soberania e da abertura indiscriminada. Eles estão vendendo o país através da entrega da Petrobras. Venderam vários campos do Pré-Sal. Também tentam vender a Eletrobras e estão acabando com os investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que é o banco estatal responsável pelos financiamentos de longo prazo. Muitas vezes não se sabe, fora do Brasil, a importância do BNDES, que tem uma importância para os investimentos internos do país similar à do Banco Mundial no âmbito internacional. O que estão fazendo com o BNDES é outra demonstração da posição servil deste governo diante do capital internacional. Mas esse projeto é inviável, é um país ingovernável.





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