Política

'A própria noção de arte foi posta em questão'

Entrevista exclusiva com Rogério Bitarelli Medeiros, professor titular de Teoria da Imagem da UFRJ, baseada na palestra feita por ele durante o seminário '50 Anos das Revoltas Estudantis de 1968

18/05/2018 18:17

Cartazes exibidos em exposição sobre o Maio de 1968 na Escola de Belas Artes de Paris

Créditos da foto: Cartazes exibidos em exposição sobre o Maio de 1968 na Escola de Belas Artes de Paris

 

 Por Maurício Thuswohl
 
Rio de Janeiro – Rebelião que teve em “A Imaginação no Poder!” uma de suas principais palavras de ordem, o movimento de Maio de 68 foi revolucionário também para as artes na França. Ao fazer do contato direto com a população um de seus traços mais marcantes e utilizar a difusão de imagens como um bem sucedido instrumento de propaganda política, os estudantes franceses chamaram a atenção do mundo também por sua estética singular, que misturava inovação a elementos gráficos que remetiam aos levantes operários do início do Século XX.
 
A influência de Maio de 68 sobre a comunicação política - e sobre a produção de imagens de um modo geral - se fez sentir em inúmeros países. Na França, a estética trazida pelo movimento teve impacto profundo sobre a produção artística de grafites, cartazes, panfletos, pinturas, fotografias e filmes. Além disso, os debates realizados na Sorbonne e na Escola de Belas Artes em Paris se tornaram históricos e até hoje são revisitados pela Academia.
 
“A própria noção de arte como um campo especializado, separado da vida, foi posta em questão”, diz Rogério Bitarelli Medeiros, professor titular de Teoria da Imagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em conversa exclusiva baseada na palestra feita por ele durante o seminário “50 Anos das Revoltas Estudantis de 1968”, realizado em 10 de maio no Teatro Casa Grande.
 
Leia a seguir a íntegra da entrevista:
 
Do ponto de vista artístico, qual foi a importância dos acontecimentos de Maio de 1968 na França?
 
Além das influências dos grafites e da ação de grafitar, que se tornaram expressões simbólicas importantes e duradouras do movimento, os cartazes e os filmes de curta-metragem tiveram um lugar importante na manifestação estudantil. Durante dois meses, maio e junho de 1968, o Quartier Latin, em Paris - com a Sorbonne, a Escola Nacional Superior de Belas Artes e o Teatro Odéon - foi palco de um acontecimento permanente.
 
Nesses locais foi incansavelmente discutida a relação entre arte e instituições, assim como o status econômico dos ‘bens’ artísticos e as diretrizes do ensino institucionalizado. Mais ainda, foi a própria noção de arte como um campo especializado, separado da vida, que foi posta em questão. Através de slogans, muitos dos quais saíram da Escola de Belas Artes, vislumbrou-se a utopia de uma sociedade sem obras e sem artistas, onde o poder de criação seria restaurado a todos.
 
O que houve de inovação em termos de comunicação e propaganda política?
 
A Escola de Belas-Artes dominou a produção artística do movimento, com o seu Ateliê Popular, e criou um acervo de centenas de cartazes originais. A técnica utilizada pela maioria dos artistas foi a litografia, mas ela exigia muito tempo, não permitia produzir os cartazes rápida e maciçamente e exigia, especialmente, muitos recursos. Daí que desde a primeira assembleia se proponha usar a serigrafia. Esta tecnologia, que permitia produzir milhares de cartazes por dia, tinha, porém, alguns condicionamentos: ausência de dégradés, mono ou bicromia, impondo uma estética um pouco naive (ingênua) à produção. Encontramos muitos cartazes que só são feitos de texto, os que os aproxima dos grafites que se multiplicaram nas paredes de Paris neste período.
 
Uma silhueta de fábrica cuja chaminé termina com o punho fechado: este cartaz, um dos mais famosos de 68, está lá, com muitos outros. Foram vistos nas ruas de Paris naqueles tempos revoltosos. Muitos documentos mostram - sem surpresa - as lutas do Terceiro Mundo, dos negros americanos ou dos bascos e antifranquistas, mas também mostram seu apoio à causa palestina e sua solidariedade com o povo vietnamita em guerra com os Estados Unidos.
 
Como funcionava o Ateliê Popular criado na Escola de Belas Artes?
 
A instituição entrou em greve no dia 8 de maio de 1968. Em poucos dias, a ocupação atraiu a adesão de artistas e intelectuais. Cartazes são produzidos em massa por um período relativamente curto. No local, os manifestantes fundaram, no dia 14 de maio, o Ateliê Popular, uma oficina onde foram produzidos ao menos 300 cartazes emblemáticos do movimento de Maio de 68.
 
À criatividade alia-se uma perfeita organização, indispensável para conseguir pôr na rua diariamente uma enorme quantidade de cartazes impressos em serigrafia. Os mais criativos e eficazes cartazes de rua de toda a história foram criados em assembleias gerais, produzidos artesanalmente, discutidos abertamente nas semanas do Maio francês de 1968. Foram criações coletivas que envolveram mais de 300 artistas. A sua eficácia é ainda hoje um exemplo para todos os que se preocupam com a arte de passar uma mensagem. Trata-se dos documentos que melhor testemunham a efervescência libertária deste momento histórico.
 
Como se deu naqueles dias a produção coletiva dos cartazes do movimento?
 
Os principais cartazes produzidos nessa época saem do Ateliê Popular, fruto da ocupação da Escola por seus alunos e professores, aos quais numerosos artistas se associaram. Um período criador fértil de slogans, mas também um grande gerador de imagens: cartazes - alguns são ícones - mas também pinturas, fotografias, folhetos. Uma assembleia geral reunia-se diariamente, reunindo todos os militantes e artistas. Era onde eram escolhidos democraticamente os cartazes, depois da discussão. Os projetos eram normalmente feitos em comum, depois de uma análise da situação política e dos acontecimentos do dia ou depois de discussões nas portas das fábricas.
 
Foi decidido afixar na entrada o seguinte texto: “Trabalhar no Ateliê Popular é apoiar concretamente o grande movimento dos trabalhadores em greve que ocupam as fábricas contra o governo gaullista antipopular. Pondo todas as suas capacidades ao serviço da luta dos trabalhadores, cada um neste atelier trabalha para si, porque se abre pela prática ao poder educador das massas populares”. O primeiro cartaz é uma litografia intitulada Usines - Universités - Union (Fábricas - Universidades - Unidade). Duas questões são sempre colocadas: a ideia política é justa? O cartaz transmite bem esta ideia?
 
O ritmo de produção era intenso...
 
Muitos dos projetos são realizados por equipes dos ateliês que se revezam dia e noite. Formam-se depois dezenas de equipes de coladores, às quais se juntam os comitês de ação dos bairros e os comitês de greve das fábricas. As responsabilidades no interior dos ateliês são provisórias e rotativas, de acordo com as necessidades. O Ateliê Popular é assim uma instituição aberta e democrática, onde participaram mais de 300 artistas e milhares de estudantes que davam uma ajuda. Apesar de toda a abertura e da quantidade de artistas envolvidos, os cartazes têm uma unidade verdadeiramente original. A maior parte dos cartazes são textos e manuscritos. As palavras de ordem, as mensagens transcritas, são marcadas por uma profunda espontaneidade que refletia o que se gritava na rua. Os cartazes absorviam a espontaneidade juvenil do movimento e difundiam rapidamente as palavras de ordem e as temáticas: De Gaulle, os CRS (polícia de choque) e a sua violência, a liberdade, as greves nas fábricas, etc.
 
Há sempre uma imagem chamativa, acompanhada de um texto curto e forte. Trabalha-se com as formas e desenhos simples. O texto encontra-se acima ou abaixo da imagem, dialogando com ela. O aspecto bruto da realização e o humor ou a ferocidade das palavras de ordem ajudam a dar uma impressão de força e de eficácia às mensagens veiculadas. Assim, estes cartazes tiveram um papel importante na mobilização e na difusão das ideias claramente libertárias destas semanas.
 
Qual foi o impacto de Maio de 68 sobre a produção cinematográfica francesa?
 
Maio de 68 produziu um número incalculável de imagens que não se limitam aos cartazes. Há também os filmes de curta-metragem, um conjunto que desempenhou um papel central na construção da iconografia do movimento. A experiência dos ciné-tracts - ou film-tracts - foi lançada em maio e junho de 1968, por iniciativa do cineasta Chris Marker. São filmes feitos a partir de documentos fotográficos das mídias francesas e internacionais. A palavra tract, que significa panfleto, foi adotada por expressar de maneira mais objetiva a proposta de um cinema político anônimo e coletivo e que visava criar uma narrativa do movimento.
 
Realizados com uma câmera de 16 mm, os film-tracts têm uma grande unidade formal: são mudos, em preto e branco, com duração média de 3 minutos. São montagens de imagens fixas, em múltiplas combinações, textos, desenhos e fotografias. Em 1968 foram realizados 30 film-tracts com a duração total de uma hora e nove minutos. O coletivo de cineastas imaginou uma forma de produção simples, rápida e econômica, acessível ao maior número de espectadores. A técnica de filmar fotos e documentos ainda evita o estágio da montagem. Os filmes são projetados para servir de mídia para debates políticos e disseminar uma palavra militante.
 
Foi uma atitude contra a narrativa dominante...
 
Em face das notícias oficiais divulgadas pelo poder político, os film-tracts têm um papel de contrainformação. Sua dimensão coletiva e seu anonimato reivindicado estão de acordo com o espírito de Maio de 1968. No entanto, cineastas bem conhecidos participaram da aventura cinematográfica e, se eles não assinaram seus filmes, certos indícios materiais e a estilística permite identificá-los. Seu modo de produção ‘padronizado’ e sua vocação subversiva conferem aos filmes uma proximidade formal e temática. Mas, dentro desse modelo imposto, vemos desdobrar uma inventividade surpreendente e uma diversidade estilística.
 
Concentrando-se em Paris em maio e junho de 1968, os cineastas querem colocar esse momento particular da história em perspectiva com o movimento mundial dos povos oprimidos que lutam por sua emancipação. A segregação racial dos negros americanos, as guerras de independência, especialmente a do Vietnã, ou as guerrilhas revolucionárias da América Latina são frequentemente mencionadas. As figuras de Che Guevara e Fidel Castro, então personagens emblemáticos de uma luta revolucionária armada, são proeminentes.
 
Os film-tracts levantam abertamente a questão da guerra revolucionária. Após a vitória do poder dominante nas eleições legislativas, os filmes resistirão ao discurso do retorno à ordem geralmente difundido na mídia. Eles se tornarão por um tempo atos de resistência para que a palavra tomada em Maio de 68 não seja confiscada. Sua produção continuará por algum tempo com outros tópicos, como a guerra no Vietnã.
 
Qual a relação do movimento cinematográfico conhecido como “Nouvelle Vague” com Maio de 68?
 
A presença da Nouvelle Vague na esteira do cenário de Maio de 68 será mais nítida nas realizações do Grupo Dziga Vertov, um coletivo de cineastas politicamente ativos - de orientação maoísta - criado por Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin em 1968. Seus filmes são caracterizados principalmente pelo experimentalismo, pela forma brechtiana, pela ideologia marxista e pela falta de autoria pessoal. O nome do grupo homenageia o cineasta soviético Dziga Vertov. O grupo foi dissolvido em 1972.
 
Godard não só participou dos eventos de Maio de 68, mas também foi um dos seus atores. Durante o Festival de Cinema de Cannes daquele ano, Godard e François Truffaut decidem cancelar as exibições em apoio aos grevistas e provar que o cinema não é exceção em termos de contestação. Alguns meses antes, em janeiro, os mesmos protagonistas protestaram contra a demissão de Henri Langlois da Cinémathèque Française. A revista Cahiers du Cinéma e a Nouvelle Vague iriam se envolver nos caminhos da revolução.
 
Ao participar logo do projeto dos film-tracts, Godard vai muito além de Truffaut e usa seu talento como cineasta a serviço das reivindicações dos estudantes e trabalhadores. Realizado pouco depois, “Um filme Como os Outros” está na mesma linha: Godard retoma as imagens de Maio de 68. Esses filmes permitem ao Godard militante criticar a famosa política de autores que ele desenvolveu dez anos antes com seus ex-companheiros de Cahiers du Cinéma.
 
Maio de 68 parece ter levado Godard a conceber o cinema sob uma nova luz. Se as manifestações abalaram a França de cima a baixo, elas também parecem ter perturbado o trabalho de um dos cineastas mais famosos do mundo. Acreditando que poderia encontrar outra coisa em outro lugar, Godard, na segunda metade de 68, exila-se no exterior. O objetivo é duplo: o diretor quer estabelecer novos contatos e aplicar suas habilidades onde elas possam ser necessárias. Em plena continuidade com o movimento de protesto, Godard trabalha para dar a palavra às minorias atuantes.
 
Houve influência do movimento também sobre o fotojornalismo?
 
As fotografias registraram os acontecimentos e também revelaram qualidades estéticas, simbólicas ou jornalísticas. Elas não são atos de rebeldia ou de resistência produzidos pelos coletivos de estudantes, e foram difundidas pelas mídias hegemônicas, como a revista Paris-Match.
 
Algumas imagens vêm imediatamente à mente quando pensamos em Maio de 68. A fotografia de Gilles Caron captando Daniel Cohn-Bendit quando ele foi convocado a comparecer a um conselho disciplinar na Sorbonne, em 6 de maio. O estudante olha com sarcasmo para um policial em primeiro plano, com um sorriso irônico. Ou a jovem "Marianne de Maio de 68", carregada no ombro de um manifestante durante uma passeata. Com um rosto grave e solene, ela segura a bandeira da Frente Nacional de Libertação do Vietnã. Tirada pelo fotógrafo Jean-Pierre Rey, evoca outra imagem, ela mesma simbólica, “A Liberdade Guiando o Povo”, pintura romântica de Eugène Delacroix, que descreve uma batalha de rua em Paris, na Revolução de 1830.



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