Política

''Coincidências'' chilenas

Léo Pinheiro denuncia Bachelet e sai da prisão em Curitiba

18/09/2019 17:43

 

 
Aquele que acredita em coincidências que atire a primeira pedra. Mas pense bem se ela existe neste caso. Ele envolve, novamente, um dos delatores preferidos da Lava Jato, o empresário Léo Pinheiro.

Nesta terça-feira (17/9), Pinheiro foi libertado da prisão em Curitiba, após sua delação premiada ter sido homologada pelo ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal). Muitos meios de comunicação brasileiros ligaram essa liberdade à parte da delação que foi usada como “prova” por Sérgio Moro para condenar Lula em 2017.

Mas chama a atenção o fato de, um dia antes, uma matéria envolvendo o empresário ter passado desapercebida no Brasil, ao mesmo tempo em que causou um escarcéu no Chile.

E não só isto. A notícia envolveu aquela que se tornou, semanas atrás, a nova grande adversária internacional de Jair Bolsonaro, a ex-presidenta chilena e Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Uma matéria da Folha de São Paulo (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/09/oas-afirma-que-assumiu-obra-deficitaria-na-bolivia-por-exigencia-de-lula.shtml) publicada na última segunda-feira (16/9), conta que Pinheiro também teria contado nessa delação sobre supostas doações a campanhas eleitorais de políticos de outros países. E uma delas teria sido para a campanha de Bachelet, em 2013.

Assim como na sua afirmação sobre a propriedade do triplex do Guarujá, Pinheiro não apresenta provas sobre as acusações que faz; apenas diz que teria sido obrigado por Lula a fazer as doações.

Desde então, a imprensa hegemônica chilena vem se refestelando com as suspeitas sobre Bachelet, em um tom parecido ao usado contra Lula, no Brasil, dois anos atrás.

Além disso, os meios transandinos relacionaram a suposta doação de Pinheiro ao contrato de construção da Ponte Chacao, que liga o Chile continental à ilha de Chiloé, na Patagônia. Até hoje é a única licitação vencida pela OAS naquele país.

Porém, essa ligação enfrenta uma séria controvérsia, já que a obra foi entregue à empreiteira em dezembro de 2013, ainda durante o primeiro mandato de Sebastián Piñera (atual presidente chileno, o qual também ocupava o cargo naquele momento).

Aliás, o governo de Bachelet submeteu o projeto a uma revisão da Controladoria Geral, assim como o que foi aprovado durante a gestão do seu antecessor.

Quase nada dessas informações mais precisas passou pelos noticiários da grande mídia, que prefere os comentários de líderes políticos da direita, sejam os ligados ao atual governo (que aproveita para atacar um ícone da esquerda e da oposição e assim desvia a atenção dos questionamentos à gestão de Piñera, que vem enfrentando uma popularidade em queda, pelos maus resultados econômicos) ou os da extrema-direita, como José Antonio Kast, um saudosista da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) que fala abertamente em reproduzir o sucesso de Bolsonaro do lado de lá da Cordilheira dos Andes.

Kast não perdeu a oportunidade de desfilar em todos os meios de comunicação – dizem alguns jornalistas locais que ele se oferece para participar dos programas, que costumam aceitá-lo já que suas declarações polêmicas rendem audiência.

Diante dessas acusações, Michelle Bachelet se viu obrigada a responder, e o fez em uma entrevista para o canal público TVN (Televisão Nacional do Chile), na qual afirmou que “é estranho ele (Pinheiro) ter tido a oportunidade de falar com a promotora Chong (em referência a Ximena Chong, que o interrogou anos atrás, em uma colaboração entre a Lava Jato e o Ministério Público chileno) sobre esse caso, e não apresentou nenhum indício (...) e que essa informação apareça agora, e em tom bastante especulativo, sem detalhar que a obra em questão foi entregue durante um governo que não foi o meu – o que me faz pensar se não há alguma estratégia por trás disso”.

Além das menções a Bachelet, as novidades na delação de Léo Pinheiro publicadas pela FSP também fazem referência ao presidente boliviano Evo Morales, que está em plena campanha por mais uma reeleição, e, é claro que as acusações sobre ele (também meramente verbais e carentes de provas materiais) estão sendo usadas pelos seus principais adversários.

Haverá alguma relação entre soltar o empresário e o uso dessas denúncias de última hora contra líderes da esquerda latino-americana?

Enquanto não há uma evidência concreta sobre isso, cada um pode matutar o quanto quiser, pode encontrar a sua resposta subjetiva e refletir sobre se acredita ou não em tantas coincidências.






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