Política

'Eles não têm a força da razão, por isso vão se apoiar na razão da força', afirma Amorim

Em sua participação durante o Ato de Juristas e Intelectuais em Defesa da Democracia, o diplomata Celso Amorim falou sobre o golpe e o avanço da direita não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. Dada a importância de suas reflexões, Carta Maior publica a degravação da fala do diplomata

29/01/2018 17:53

 

Em sua participação durante o Ato de Juristas e Intelectuais em Defesa da Democracia, ocorrido em 21 de janeiro, em Porto Alegre, o diplomata Celso Amorim falou sobre o golpe e o avanço da direita não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.

Dada a importância de suas reflexões, Carta Maior publica a degravação da fala do diplomata, gentilmente realizada e cedida por Vera Vital Brasil. Confira abaixo:

Discurso de Celso Amorim durante o ato de juristas e intelectuais em defesa da democracia

Porto Alegre, 21 de Janeiro de 2018

Queria cumprimentar meus companheiros de mesa que expressam tão bem a solidariedade que é fundamental na América Latina, a presença aqui do nosso grande deputado Chinaglia. Arlindo Chinaglia que foi presidente da Câmara [dos Deputados] que não era de subserviência, a Câmara era de soberania popular.

Esse momento é muito emocionante. Primeiro, por eu ter vindo ao Estado do Rio Grande do Sul em um momento fundamental como esse, que nos faz lembrar a legalidade, porque essa também é uma luta pela legalidade. Portanto, temos que criar no Brasil todo, na América do Sul toda, uma cadeia de legalidade para impedir que os golpes que ocorreram aqui prosperem. Para impedir que o presidente dos Estados Unidos da América, que é o país mais poderoso do mundo, diga que a opção militar não está excluída no caso da Venezuela.

Isso é um absurdo, uma coisa que há 60 anos, desde o bloqueio de Cuba, eu nunca ouvi em relação a um país latino americano. Claro que isso foi praticado de maneira disfarçada, mas eu nunca ouvi dizer que a opção militar estava aberta em relação a um país sul-americano. E a América do Sul não fez nada, porque não tem líderes. Era para ter uma reunião da UNASUL, da CELAC, para denunciar isso. Existem mecanismos para proteger a Venezuela. Não queremos que a Venezuela seja o Vietnam da América Latina. Não podemos deixar, porque a agressão à Venezuela é uma agressão a todos nós. É agressão ao Brasil. É agressão à Argentina. É agressão ao Uruguai. Nós temos que defender a Venezuela porque é um país irmão. Temos que impedir essa ideia louca do uso da força contra um país sul americano.

Digo isso, com certa autoridade, porque trabalhando com o presidente Lula, eu tive muitos diálogos com o presidente Chávez. Nem sempre a gente concordava em tudo, nos métodos, mas a gente conversava e dialogava. Vocês permitam que eu faça uma confidência, já faz tempo, ele não está mais no poder. O nosso querido amigo presidente Correa, que também nos apoia, contou um diálogo que teve com o presidente Chávez, quando a relação entre Brasil e Equador estava um pouquinho complicada, por uma questão de financiamento. Ele estava conversando [sobre o tema] e o Chávez lhe disse: “Pero Rafael, con Lula, uno no pelea. A Lula uno pide consejos”.

Isso mostra muito bem, inclusive, essa vocação verdadeiramente mundial e que é possível sensibilizar, mas não com ameaça, não com a atitude que o governo brasileiro atual teve e o próprio chanceler reconhece que o Brasil não pode mediar e facilitar porque o Brasil tem partido. Depois ele dizia, Chinaglia, que a atuação política era apartidária.

O Lula conversava com o Chávez, mas conversava com o Uribe também (...). Nós conversamos muito, respeitando naturalmente a soberania venezuelana; mas também persuadindo quando era necessário persuadir. Não pela força da pressão, mas pela força da razão, porque essa era a força que o operário tinha e que esses que estão no poder hoje não têm. Eles não têm a força da razão, por isso vão cada vez mais se apoiar na razão da força.

O que estamos vendo no Brasil hoje, o perigo de luta na região, é esse avanço da extrema-direita. O avanço do fascismo não só no conteúdo, mas na forma. Essas conduções coercitivas que levaram à prisão sem cabimento e ao suicídio de um reitor numa universidade, as invasões de universidades, o apoio a movimentos golpistas – e são tantos por aí que não quero nem mencionar –, tudo isso me deixa preocupado em relação ao futuro da América Latina.

Coincidências?

Perguntaram-me ali na entrada: o senhor acha que tudo isso é uma conspiração de Washington? Eu já repeti isso, as pessoas me dizem ‘você tem que parar de se repetir’, mas alguma coisa você tem que repetir porque é verdade. Eu me lembro de um humorista brasileiro, grande humorista Millôr Fernandes, que na época da ditadura militar dizia: ‘o fato de eu ser paranoico não quer dizer que eu não esteja sendo perseguido.’ Bom, o fato de eu não acreditar em teoria conspiratória não quer dizer que algumas delas não sejam verdadeiras.

Ou é tudo coincidência? É coincidência o apoio do poder econômico à vitória do Macri na Argentina? É coincidência o golpe parlamentar no Brasil? É coincidência a declaração do Trump sobre o uso do poder militar na Venezuela? Tudo isso é coincidência? Não acredito que tudo seja coincidência. Não é possível. Quem quiser que acredite em coincidência (...) O que que eles atacaram? Atacaram o nosso petróleo, atacaram nossa energia nuclear, atacaram nossa capacidade de investimento nas Forças Armadas, atacaram também a nossa saúde, os direitos dos trabalhadores. Então, eles estão tratando de destruir o país.

Por que isso tudo aconteceu? Não foi só por causa do Brasil, não. As pessoas falam muito no Brasil sobre a capa da revista inglesa The Economist com a estátua do Cristo Redentor subindo. Mas não foi essa [capa] que causou problema em Washington ou em outros centros. Foi uma outra capa que mostrava a América do Sul, usando a convenção que existe de cabeça para baixo – com o Norte em cima e o Sul embaixo – e o título “Não é mais colônia de ninguém”.

Na realidade [o título] dizia: ‘Ya no és el patio trasero de nadie’, porque nós tínhamos feito a União Sul-americana, criada pela primeira vez em 200 anos de história. Fora o caso do futebol ou de outro esporte, não havia nenhuma organização sul-americana. E nós a fizemos! Com o presidente Chávez, a presidenta Kirschner, o Presidente Uribe, na época era o Tabaré e depois continuou com o Mujica. Nós trabalhamos intensamente pela unidade sul-americana e pela unidade latino-americana.

É uma vergonha que os Estados Unidos estejam expulsando duzentos mil salvadorenhos, que estejam insistindo em fazer um muro para impedir a entrada de mexicanos e que nós sul-americanos, latino-americanos, não estamos fazendo nada. Onde estão os nossos líderes, gente? Não há líderes! Nossos países estão acéfalos! Nossos países estão sendo diariamente destruídos. No caso do Brasil, é todo dia em relação a Petrobrás, a Embraer.

Essa coisa de privatização é conversa fiada, conto de fadas, porque não tem nenhum empresário brasileiro, não tem mais um Ermínio de Morais para comprar a Embraer. É a Boeing! Não tem ninguém. São todas empresas estrangeiras. Por trás da palavra privatização, na realidade, o que existe é desnacionalização. É um ataque à soberania do nosso país. E não é só aqui.

Eu sempre disse e digo sem demagogia: o Brasil não estava interessado na integração da América do Sul só porque era bonzinho, não. Claro que nós temos solidariedade com nossos amigos e nossos irmãos. Temos fronteiras com tantos países. E mesmo com aqueles que não temos fronteiras, nos sentimos fronteiriços, como é o caso do Equador e do Chile. Não é só por uma questão de solidariedade, mas porque hoje nós vivemos em um mundo de grandes blocos.

A China é um grande bloco em si mesmo. A União Europeia tem os problemas dela, mas é um grande bloco. Os Estados Unidos são um bloco também em si. O Brasil é um país grande, um grande país, mas sozinho, ele não é um bloco. Agora, a América do Sul é um bloco. A América do Sul e a América Latina mostraram que a soberania não era referida só no sentido estritamente nacional, mas de toda a região, dos trabalhadores de toda a região. Isso assustou. Assustou muito.

Então, se o que nós todos estamos falando é teoria conspiratória, eu não sei. Eu não vou fazer igual ao outro [que diz] ‘não tenho provas, mas tenho convicção’. Não é isso não. Mas o raciocínio político é que, de fato, há uma ação determinada para nos subjugar. E nós não vamos aceitar.

Eu queria dizer duas ou três coisinhas mais. Eu estava falando, até criticando a nossa grande presidenta Gleisi [Gleisi Hoffmann, presidenta do PT] porque falou dos mortos, mas ela... eu não sei em que sentido, agora... haverá mortos, sim. Não porque a gente vá praticar a violência, não é isso. Nós somos pacíficos. Mas haverá mortos de fome e haverá mortos de vergonha.

Eu queria lembrar uma coisa que ficou muito viva. Quando a gente está no colégio aprende aqueles hinos todos, que é tudo na ordem sintática inversa, a gente não entende nada, fica cantando sem saber direito o que está cantando. Eu lembro que a minha professora de português perguntava sempre quem era o sujeito da primeira frase do Hino Nacional Brasileiro. Ninguém sabia. Mas teve um verso que marcou muito a minha geração no combate à ditadura. Ele se aplica à América do Sul e à América Latina como um todo: “ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil”.

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