Política

"Foi um movimento heterogêneo demais em sua concepção ideológica"

Confira em entrevista exclusiva à Carta Maior do mestre em Filosofia e escritor Roberto Ponciano

24/05/2018 12:50

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Rio de Janeiro – O debate sobre as influências que pavimentaram os caminhos dos estudantes franceses em Maio de 68 começou junto com o próprio movimento. Eram marxistas? O filósofo Jean-Paul Sartre era mesmo seu “norte” teórico? Havia alguma afinidade teórica entre suas lideranças e os partidos comunistas cubano, chinês ou soviético? Nada disso. Ou tudo isso e mais um pouco. Em uma época onde o levantar do véu sobre os crimes e métodos de Stalin colocavam o comunismo em xeque e o próprio marxismo era contestado, adaptado ou assimilado por diversas outras correntes de pensamento, a explosão e espontaneidade do movimento que ocupou o Quartier Latin em Paris trazia um si um caleidoscópio de influências.

“Foi um movimento estudantil heterogêneo demais em sua concepção ideológica”, afirma o mestre em Filosofia e escritor Roberto Ponciano, em entrevista exclusiva à Carta Maior. Naqueles dias, nenhuma camisa de força teórica seria suficiente para conter aquela grande novidade política. Afinal, a França de 1968 fervia entre estruturalistas, anarquistas, existencialistas, surrealistas e marxistas de diversos tons e modelos: “Criou-se o grande dilema do Maio Francês, uma grande disputa de narrativas dentro da esquerda”, diz Ponciano. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

De que forma a relação de Jean-Paul Sartre com os estudantes de Maio de 68 na França influenciou o movimento?

O próprio Sartre dizia que não era mestre intelectual dos estudantes de 1968, mas ele era seguramente um dos intelectuais mais lidos, segundo depoimento do próprio líder estudantil Daniel Cohn-Bendit. A Crítica da Razão Dialética era um livro em voga entre os estudantes da época, mas não dá para mensurar qual o grau de importância desta leitura num movimento estudantil heterogêneo demais em sua concepção ideológica. Mesmo os anarquistas do Maio Francês, surrealistas, eram diferentes dos outros anarquistas pelo mundo, e o maoísmo francês, de verdade, foi um maoísmo que só existiu na França.

Como foi a reação do Partido Comunista Francês aos acontecimentos de Maio de 68? A posição adotada pelo partido teve algum impacto sobre o movimento?

A reação foi de incompreensão e mesmo de conformismo diante das possibilidades revolucionárias. Isto distanciou o PC francês da juventude, o PC perdeu hegemonia e protagonismo. Se o PC e o Partido Socialista possuíam as máquinas e puderam negociar em separado, através de seus sindicatos e centrais, conquistas específicas para a classe operária, esvaziando a greve, de outro lado perderam representação na sociedade francesa e força, inclusive na intelectualidade. Criou-se o grande dilema do Maio Francês, uma grande disputa de narrativas dentro da esquerda. O Partido Comunista não conseguiu compreender aquele momento como um momento revolucionário e perdeu o trem da história.

Qual a importância de Maio de 68 para a construção do pensamento marxista nas décadas seguintes?

O Maio Francês é como a Bastilha, apenas um marco de algo muito maior. Há uma desconstrução do marxismo oficial soviético que tem outros fatores, como a desestalinização, a Hungria de 56, a Tchecoslováquia no mesmo ano e a influência de críticas ao marxismo “ortodoxo” que vem de todos os lados. Vem da Escola de Frankfurt, inclusive com parte do pensamento produzido no exílio nos Estados Unidos, e os franceses em geral, do existencialismo à fenomenologia. O marxismo não podia simplesmente ignorar as inovações na Filosofia e nos outros ramos das Ciências Sociais e das discussões intelectuais e acadêmicas. Crítica da Razão Dialética é meio que síntese disto, de um intelectual, Sartre, que nunca se assumiu um marxista na acepção mais “ortodoxa” do termo, mas que de outro lado afirma que o marxismo era a única “filosofia viva”. Temos Althusser, seus aparelhos ideológicos fundamentais para a luta pelo socialismo em um país de capitalismo consolidado, suas influências vindas de Lacana, mas que, ao sugerir que o “corte epistemológico” é separar a dialética do marxismo, sem querer, aproxima-se de Stalin. O que vai advir desta crise no pensamento marxista, na verdade, ainda é um campo em aberto.

Além das teorias de esquerda, alguma outra corrente de pensamento pode ser considerada como base do movimento protagonizado pelos estudantes franceses?

O movimento francês era heterodoxo demais para sequer o reivindicar marxista. Na verdade, muita coisa que se produziu como “influência ao Maio Francês”, como Marcuse, é datada de uma influência posterior à crise do Maio Francês. Havia um pouco de tudo, uma certa indeterminação, na verdade quase todas as correntes de filosofia francesa e algumas de fora estavam “juntas e misturadas” no Maio Francês. Por isto é um movimento tão “incompreensível”. Mesmo grandes intelectuais dissentem tanto sobre a influência de teorias com respeito ao Maio Francês quanto a seus desdobramentos.

A Revolução Cubana e a Revolução Cultural chinesa tiveram algum impacto sobre o movimento dos estudantes franceses? Qual foi esse impacto?

A Revolução Cubana e o Vietnã. Há o impacto em toda a década, pelo fato de David derrotar Golias. A ideia de que a Revolução era possível - e por isto, como disse, o PC francês, ao negar a Revolução, perdeu influência. Já a Revolução Cultural, isto dito pelos herdeiros do próprio Maio, foi uma reinvenção francesa baseada numa interpretação ocidental do Livro Vermelho de Mao e teve pouco que ver com a real “Revolução Cultural” chinesa. Foi um fenômeno muito francês, uma “Revolução Cultural” que foi antropofagicamente reinventada na França e que tem muito pouco que ver com os embates internos na China.

Outros importantes intelectuais franceses como, por exemplo, Michel Foucault e Claude Lévi-Strauss, contribuíram de alguma forma para a construção da identidade do movimento de Maio de 68?

Lévi-Strauss e o estruturalismo foram uma das correntes que entraram na salada do Maio Francês. Não me cabe aqui discutir o estruturalismo, mas muito mais a visão que os estudantes tinham deste, como, por exemplo, ao valorizar uma certa “gramática interna” de um sistema antropológico, revalorizar as culturais ancestrais em detrimento de um certo etnocentrismo evolucionista. Foucault, com seus encontros e desencontros com o estruturalismo, foi um crítico mordaz do autoritarismo, o que era uma pólvora, um combustível para a moçada, que não queria só fazer revolução social, queria, por exemplo, liberdade sexual, liberdade para gozar. Difícil dimensionar o Maio Francês e colocá-lo na conta de um só intelectual. O grande dilema do Maio Francês é que seu evento continua aberto e em disputa. Existiu mesmo um Maio Francês?

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