Política

"Governo Lula está perdendo batalha da opinião pública"

24/05/2005 00:00

O senador mineiro Milton Campos chamou a atenção, certa vez, para a importância da distinção entre opinião pública e eleitorado. Seus tempos e movimentos não são necessariamente simultâneos. O governo Lula deveria prestar atenção nesta distinção, pois embora o presidente ainda desfrute de grande apoio junto ao eleitorado, principalmente nas camadas mais populares, seu governo está perdendo a batalha da opinião pública, ou seja, vem perdendo apoio junto aos setores médios da população. A advertência é do cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que, em entrevista à Agência Carta Maior, analisa a atual conjuntura política e os dilemas enfrentados pelo governo federal, no momento em que a oposição, capitaneada por PSDB e PFL, prepara-se para instalar a CPI dos Correios e vê sua posição fortalecida em relação às eleições presidenciais de 2006.

 

Para além das projeções eleitorais, o cientista político identifica a fragilidade da democracia brasileira, quadro agravado pela crescente perda de credibilidade do Congresso e da classe política de um modo geral. Esse quadro, diz Fabio Wanderley Reis, ao invés de pavimentar a estrada da volta dos tucanos ao poder, pode abrir o caminho para novos aventureiros, reeditando experiências do tipo Collor ou como ocorreu com a eleição de Berlusconi, na Itália. A advertência do professor da UFMG lembra um comentário feito pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek sobre o que aconteceu na política italiana: “sua vitória (de Berlusconi) é uma lição deprimente sobre o papel da moralidade na política; o supremo desfecho da grande catarse moral-política – a campanha anticorrupção das ‘mãos limpas’ que, uma década atrás, arruinou a democracia cristã e com ela a polarização ideológica entre democratas cristãos e comunistas que dominou a política no pós-guerra – é Berlusconi no poder” (em Às Portas da Revolução – Escritos de Lenin de 1917, p. 332).

 

Agência Carta MaiorComo o sr. está vendo o atual momento político, quando o governo Lula passa por uma crise de articulação política e a oposição prepara a instalação de uma CPI no Congresso para investigar as denúncias de corrupção nos Correios?

Fábio Wanderley Reis: Acredito que estamos vivenciando o amadurecimento de um processo que vem de longe. A grande esquina do governo Lula deu-se no caso Waldomiro. O PT construiu sua identidade a partir de dois grandes traços: o compromisso social e o compromisso ético. O primeiro está afetado pela política econômica do governo Lula, mas aqui temos um componente técnico que é passível de discussão. Esse caminho está correto? Seria possível fazer diferente? Há um debate legítimo e real neste sentido. Quanto ao aspecto ético, não há nada disso, ou seja, não há componentes técnicos envolvidos. O caso Waldomiro colocou o PT e o governo na defensiva, desencadeando uma série de iniciativas negativas e ineptas que desarticularam a base de apoio do governo e culminaram na eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara dos Deputados. Neste episódio, o governo foi completamente inepto.

 

CM: E quais podem ser as conseqüências desse processo para o futuro do governo?

FWR: Acho que o governo atravessa um quadro de desajuste geral e está perdendo a batalha da opinião pública. O velho senador Milton Campos fazia uma distinção importante entre opinião pública e eleitorado. Lula continua com grande apoio do eleitorado, principalmente junto às camadas populares, mas vem perdendo apoio junto à opinião pública, constituída principalmente pelos setores médios da população. É preciso fazer uma ressalva neste tema da corrupção. Parte do que vem acontecendo tem a ver com o fato de que tem havido uma certa eficácia da Polícia Federal e de outras instâncias no combate à corrupção. Mas também é preciso reconhecer que o quadro negativo em torno deste tema afeta não somente o governo Lula mas também o Legislativo. A opinião pública que hostiliza Lula tampouco apóia Severino que, recentemente, foi vaiado em São Paulo. Então, o que estamos vendo é um desgaste crescente da classe política, cuja reputação já era negativa junto à população. O que mitiga um pouco esse quadro, considerando essa separação entre opinião pública e eleitorado, é que a penetração de Lula junto ao eleitorado popular ainda é forte e as notícias econômicas ainda são boas. Mas esse apoio tende a ser afetado pela corrosão da popularidade na esfera da opinião pública.

 

CM: O sr. acredita que esse quadro oferece riscos para a democracia brasileira?

FWR: Recentemente, um instituto chileno divulgou uma pesquisa sobre a popularidade da democracia na América Latina. O Brasil apareceu como grande campeão negativo em defesa da democracia. Cerca de 63% dos entrevistados mostraram-se incapazes de dizer o que era a democracia. Então esse é um quadro preocupante.

 

CM: E quanto aos riscos específicos para o governo?

FWR: Bem, a relação do governo com os partidos da base aliada está claramente comprometida com toda essa confusão. Há questões exemplares que mostram um certo ânimo galhofeiro no ar. Uma mistura de irritação com galhofa. Há muitas piadas circulando pela internet indicando esse sentimento. Um outro exemplo disso foi um recente artigo de João Ubaldo Ribeiro, onde ele comenta as declarações de Lula dizendo que os brasileiros tinham que levantar o traseiro da cadeira. João Ubaldo fala sobre a suposta grossura do presidente e termina o artigo de uma forma bastante chula, falando sobre o que poderia estar ocorrendo com os traseiros dos brasileiros. Então, me parece que há uma certa desmoralização no ar que vem se traduzindo através de piadas e galhofas. Isso não é nada bom.

 

CM: Pelo que está vendo nas últimas semanas, o sr. acredita que o governo vem tomando medidas para superar esse quadro? E que medidas poderiam ser estas?

FWR:  Está havendo um desarranjo geral, um bater de cabeças. Apesar do risco de turbulência representado pela CPI, acho que o governo tem maiores chances de recuperação se facilitar os trabalhos da CPI. Ela acabou se transformando em uma espécie de avalanche, entre outras razões pelo fato de que o Congresso também percebeu o clima ruim criado contra a própria instituição. Viabilizar a CPI também oferece riscos, mas colocar-se contra ela pode trazer riscos ainda maiores. O governo Lula está diante de um dilema. Ele precisa agir de modo eficiente, do ponto de vista político, fortalecer as condições de governabilidade, e, ao mesmo, promover um resgate ético. Não é uma tarefa fácil.

 

CM: E como sr.analisa o comportamento da oposição, particularmente do PSDB e do PFL?

FWR: Acredito que, no que diz respeito a 2006, o quadro é positivo para a oposição. PSDB e PFL ainda não têm um candidato viável, mas contam com elementos promissores com esse clima todo criado nas últimas semanas. Por outro lado, creio que a fórmula usada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, comparando o governo a um peru bêbado, foi pesada demais e justificou a reação do PT denunciando um empenho desestabilizador por parte do PSDB. Tanto é assim que houve um certo recuo por parte das lideranças do PSDB e do PFL que adotaram um tom mais moderado. A CPI é conveniente eleitoralmente para esses partidos e eles vão tentar explorar isso, até, temo, sem pesar muito as conseqüências para o país.

 

CM: Além de comparar o governo a um “peru bêbado”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vem falando sobre a ameaça de crise institucional. O sr. acredita nesta possibilidade?

FWR: Acho difícil pensar numa crise institucional nos moldes daquelas que afetou o governo João Goulart, por exemplo. É difícil ver a crise atual tomando essa direção. O diagnóstico de Fernando Henrique Cardoso é exagerado e impróprio. Por outro lado, a situação atual está formando um caldo de cultura perigoso. Já andam circulando propostas de campanhas em defesa da renovação total do Congresso e também de voto nulo para as eleições presidenciais. Creio que um Congresso renovado radicalmente funcionaria menos bem do que o atual, pois não teríamos parlamentares com memória institucional. Esse é um caminho perigoso.

 

CM: O sr. acredita que é possível ocorrer no Brasil algo parecido com o que aconteceu na Itália, onde o descrédito de alguns dos principais partidos do país acabou abrindo espaço para a eleição de Silvio Berlusconi, um empresário da mídia que não integrava os partidos tradicionais e apareceu como uma espécie de salvador da pátria?

FWR: É claramente possível. Segundo a pesquisa que citei anteriormente, o eleitorado brasileiro está disposto a abrir mão da democracia em troca de alguns benefícios econômicos. Some-se a isso o quadro de violência e instabilidade social que afeta as cidades brasileiras e temos um caldo de cultura perigoso. A lembrança de Collor está aí presente para nos advertir dos perigos do surgimento de novos aventureiros.

 


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