Política

''Não há convivência possível entre Bolsonaro, vida e direitos dos povos'', afirmam movimentos

Em plenária da Campanha Fora Bolsonaro, centenas de organizações elaboram plano de lutas contra o governo. Ações envolvem novo pedido de impeachment, pressão pela cassação da chapa no TSE e articulações para eleições

12/07/2020 14:57

Card de divulgação da campanha: mobilização nas redes é central para movimentos sociais (Divulgação)

Créditos da foto: Card de divulgação da campanha: mobilização nas redes é central para movimentos sociais (Divulgação)

 
BRASÍLIA – No final de abril, quando movimentos populares e organizações da sociedade civil tomaram a decisão de entrar com pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, o Brasil tinha menos de 6 mil mortes e cerca de 85 mil casos pelo novo coronavírus. Passados pouco mais de dois meses, o país amarga mais de 70 mil vidas perdidas e mais de 1 milhão e 800 mil casos confirmados. Há mais de 30 dias, não saímos da média de mil mortes por dia. Apesar da extrema gravidade dos números, prefeitos e governadores flexibilizam medidas de isolamento social e o presidente, mesmo contaminado pela Covid-19, tem a coragem de vetar a obrigação de uso de máscaras em todos os ambientes públicos, fomenta o consumo irresponsável de cloroquina e mantém a pasta da Saúde sem ministro.

Neste sábado (11/07), movimentos sociais, ONGs, centrais sindicais, partidos políticos, ambientalistas, representantes dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, juristas e jornalistas, em uníssono, voltaram a afirmar: Bolsonaro é responsável por essas mortes e precisa ser retirado do poder. Numa plenária nacional virtual que reuniu mais de 600 lideranças, a Campanha Fora Bolsonaro [www.campanhaforabolsonaro.com.br] elaborou um plano de lutas nas diferentes regiões, buscando enraizar o debate contra os ataques do governo à vida e aos direitos da população em todo o território nacional e também fora do Brasil – entendendo que Bolsonaro é um risco também para o mundo.

Um das primeiras ações da Campanha será um novo protocolo de impeachment, agendado para esta terça-feira (14), em ato simbólico na Câmara dos Deputados. O novo pedido já conta com a adesão de 1.400 organizações e mais de duas mil personalidades. A plenária deste sábado ocorreu após mais um dia de mobilização pelo #ForaBolsonaro, que contou, na sexta (10), com ações nas principais cidades do país denunciando a política genocida de Bolsonaro frente à pandemia, com agitação nas redes, barulhaço e panos pretos nas janelas, e com um ato inter-religioso intitulado “Quem tem fé defende a vida e a democracia - Um milhão de velas - Fora, Bolsonaro”.

“Não é o ‘novo normal’ tantas pessoas estarem morrendo. Mas, para o governo, parece que essa tragédia está normalizada. Só coletivamente seremos capazes de fazer nossa voz chegar nos mais longínquos lugares do país. Não sairemos dessa crise sanitária, econômica, política, social e ambiental com Bolsonaro e Mourão na Presidência. Isso está evidente e não podemos abandonar essa trincheira. Temos o desafio de ousar tomar os destinos do país em nossas mãos. Só o povo brasileiro pode fazer isso”, disse Carmen Foro, filha de agricultores familiares e secretária geral da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Carmen Foro: "Temos o desafio de ousar tomar os destinos do país em nossas mãos" (CUT)

Lembrando o militante ambientalista Alfredo Sirkis, que faleceu na última semana, Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima acredita que a cada dia que esse governo existe é um dia perdido para o país. “Depois de 18 meses dessa catástrofe que se abate sobre o país, não há nenhuma dúvida de que não há espaço para a convivência entre Bolsonaro e os direitos. O Brasil tem que fazer uma escolha: ou teremos direitos ou continuaremos com Bolsonaro, ou teremos saúde, educação, a agenda LGBT, dos indígenas ou esse governo. É uma escolha entre o futuro do Brasil e o governo Bolsonaro. Não há convivência possível. Este momento é pela sobrevivência do país, pela vida, por nossos direitos”, analisa Astrini.

Na avaliação do presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), há um ataque planejado e coordenado por Bolsonaro à democracia e à vida das pessoas, e não há condições de construir a democracia em meio ao governo Bolsonaro. “É na democracia que a gente pode debater ideias e enfrentar adversários. E ela está ameaçada. Não é porque ele recuou um pouco e porque vieram revelações sobre Queiroz e sobre o gabinete do ódio, no inquérito das fake news no Supremo, que Bolsonaro vai recuar dos ataques à democracia. Suas ameaças não podem ser desprezadas”, acredita Iago Montalvão.

Unidade e diversidade

Ao longo da plenária, foram inúmeros os exemplos de que o governo federal não está apenas fazendo ameaças, mas sim agindo frontalmente contra a democracia e a vida da população. Alberto Terena, um dos articuladores da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), enumerou as várias frentes da gestão Bolsonaro contra os povos originários do país, via medidas de flexibilização da proteção ambiental; da abertura para a ação de posseiros, grileiros, madeireiros e garimpeiros nos territórios indígenas; e, agora, dos vetos do presidente a ações de proteção emergencial a essas comunidades durante a Covid-19. Diversas lideranças indígenas já morreram durante a pandemia.

“Bolsonaro escolheu o povo indígena como inimigo. E não aceitaremos ser mais uma vez massacrados, como há 520 anos. Não é que nos governos anteriores era fácil, sempre estávamos lutando, mas agora ele tenta atropelar, tirar direitos de forma brusca e retornar àquilo que vínhamos sofrendo no passado. É uma luta milenar do nosso povo e que seguirá contra esse governo genocida”, anunciou Terena na plenária.

Alberto Terena: "A luta milenar do nosso povo seguirá contra esse governo genocida" (MNI/Cimi)

São ações como estas que justificam o esforço dos movimentos para mobilizar a maioria da população, que já se declara contra o governo, a agir. Os militantes que se reuniram virtualmente no final de semana acreditam nessa possibilidade, sobretudo se consideradas as características da campanha em curso: uma iniciativa de unidade nacional a partir da pluralidade da sociedade civil brasileira; de reconhecimento da diversidade de lutas nos territórios; e de valorização e presença igualitária dessa diversidade de atores políticos, inter-religiosos, antirracistas, feministas, anti-homofóbicos, ambientalistas, entre outros, no processo.

“É só a partir disso que poderemos oxigenar a cultura política dos últimos tempos no país”, afirmou Evanildo Barbosa Silva, da Abong (Associação Brasileira de ONGs). A expectativa é que esse grito chegue às instituições que tem a responsabilidade, no Estado Democrático de Direito, de cumprir o que a Constituição Federal estabelece para quem a desrespeita.

Cassação da chapa e eleições municipais

Uma dessas instituições é o Tribunal Superior Eleitoral, que está analisando uma série de pedidos de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão. Há diversas ações cuja votação ainda não teve início, sobretudo as baseadas no disparo em massa das chamadas “fake news”. Defensora da cassação e da convocação de novas eleições, a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político destaca que as divergências com o governo eleito não são apenas em relação a determinadas políticas; é uma divergência de projeto de país – um projeto de morte daqueles que tem outra concepção de vida e existência.

“A eleição de Bolsonaro e o próprio governo que ele representa não é algo fora da curva do nosso sistema político. Só um sistema como o nosso, que é expressão do poder econômico e das vontades das elites, é capaz de eleger um governo como esse. Daí a importância da cassação da chapa e em pensarmos a reforma do sistema político, para chegarmos a um sistema onde a maioria da população esteja representada e o poder seja alicerçado no poder popular”, defendeu José Antônio Moroni, da Plataforma.

A decisão do TSE também é considerada estratégica diante da necessidade de reconstrução do país pós-pandemia, algo que requer não apenas a retirada de Bolsonaro do governo, mas também de seu vice e de seus ministros. Do contrário, acreditam os movimentos, o país vai sofrer mais ainda para superar este desafio.

Andreia de Jesus: "Precisamos de uma política que dê resultado. Precisamos ocupar a institucionalidade com corpos de luta" (Reprodução Facebook)

Por fim, a plenária nacional da campanha apontou para o momento das eleições municipais como estratégico para minar o apoio social do presidente e construir as bases políticas que possam levar ao afastamento de Bolsonaro – além, claro, de eleger nomes comprometidos com a agenda de uma sociedade mais justa.

“Bolsonaro foi a alternativa escolhida para este governo, de coalizão entre o capital e as forças armadas, passar a boiada sobre nossos corpos e territórios. Temos que derrotar esse projeto de morte que ele vem vocalizando”, explicou Andreia de Jesus, das Brigadas Populares e da Frente Povo Sem Medo. “Temos que participar do cotidiano das pessoas para fazer política, e uma política que dê resultado. As agendas feministas trazem respostas concretas. Precisamos fazer isso ocupando a institucionalidade com corpos de luta, de um povo que tem um modelo de nação que deu certo, como o dos terreiros. Nas eleições, vamos trazer isso para o campo da política. Por fogo no engenho e tomar esse lugar”, concluiu Andreia.



Conteúdo Relacionado