Política

''Ondas do mesmo mar'': Poesia e diplomacia no surto do coronavírus

 

02/04/2020 11:28

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
Em 18 de março, aterrissou no aeroporto de Milão um vôo especial da China Eastern Airlines trazendo uma equipe de especialistas bem como equipamento médico para o norte da Itália, região gravemente afetada pela pandemia do covid-19. A China, assim, reciprocava a ajuda humanitária que recebera da União Européia e de seus estados-membros quando fora o centro do surto em janeiro, ao mesmo tempo em que se tenta reposicionar internacionalmente como país que lidera o combate internacional à pandemia. Logo após desembarcar, a equipe apresentou uma faixa de saudação dizendo, em língua italiana, "somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim".

A parte chinesa, incluindo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, atribuiu a frase ao filósofo romano Sêneca. O gesto teve um enorme impacto não só na Itália, mas mundialmente, levando observadores a especularem sobre uma suposta "Rota da Seda Filosófica"onde o "estoicismo greco-latino" se encontraria com o "estoicismo chinês".

Geng Shuang estava equivocado: Quem ler as muitas obras de Sêneca, não encontrará nenhuma passagem parecida com a mostrada na faixa. Tampouco a encontrará nas obras de seu pai, o orador Sêneca Maior. Porém, se a foto da equipe chinesa diante da faixa não nos dá margem para especularmos sobre o estoicismo, ela é, sim, um exemplo fascinante da constante circulação de conhecimento e de práticas culturais que é inerente à humanidade.

De fato, a faixa de solidariedade não foi um gesto isolado. Tais gestos de solidariedade começaram como adesivos em caixas de auxílio enviadas à China a partir do Japão e foram depois adaptadas pela diplomacia bem como por empresas e outras instituições chinesas às suas atividades de auxílio nas mais diversas partes do mundo.

Tampouco, tais gestos de solidariedade são os únicos que se globalizaram durante a pandemia. Outro fenômeno cultural que teve uma carreira semelhantemente global foi o de abrir as janelas a um determinado horário para cantar e gritar slogans de encorajamento. Tal hábito tem suas origens em Hongkong, embora em circunstâncias bem diferentes: lá, todas as noites às 22 horas, em um ato equivalente aos panelaços sul-americanos, muitos cidadãos abrem suas janelas para clamar "libertar Hongkong, a revolução de nossos tempo" (gwongfuk Heunggong, sidoi gakming).

O que em Hongkong é uma forma de protesto transformou-se em Wuhan em uma forma de solidariedade face a uma calamidade natural. Quando a cidade foi posta em quarentena, em final de janeiro, os cidadãos começaram a abrir as janelas às 20 horas para bradar "Força, Wuhan" (Wuhan, jiayou). Igualmente, cidadãos italianos e espanhóis têm elevado os seus espíritos cantando em suas varandas, e mais recentemente os moradores de um bairro na cidade alemã de Bamberg entoaram a canção Bella Ciao em solidariedade à Itália.


Relato japonês sobre as viagens de Jianzhen contendo os versos "Montanhas e rios separam os territórios, mas o vento e a lua compartem o mesmo céu". Omi no Mifune:To daiwajo tosei den (Relato da viagem ao oriente de um monge vindo de Tang), manuscrito preservado na Biblioteca Nacional do Parlamento Japonês (n° 216-53)


A trajetória das frases poéticas de solidariedade se iniciou no auge do surto na China, entre o fim de janeiro e o início de fevereiro. À época, o comitê responsável pela organização dos testes de proficiência de mandarim no Japão mandou caixas de equipamentos médicos para a província de Hubei. Adesivos nas caixas mostravam as bandeiras da China e do Japão, diziam "Força, China" (Jiayou, Zhongguo), e continham a frase "montanhas e rios separam os territórios, mas o vento e a lua compartem o mesmo céu". Esses versos têm um significado especial nas relações sino-japonesas: escritos no início do século VIII por um príncipe japonês, inspiraram o monge budista chinês Jianzhen a viajar ao Japão e foram incluídos no cânone poético chinês (poemas completos da dinastia Tang, fasc. 732-11).

Várias outras instituições localizadas no Japão imitaram o gesto, acrescentando frases poéticas sublinhando a humanidade comum as suas doações de equipamentos médicos. Uma das caixas, enviada por uma empresa privada, citava o Livro dos Cantares, a mais antiga coleção poética da literatura chinesa datada ao início do primeiro milênio a.C.: "Dizes tu que não tens fato? Minha veste será de ambos!" (tradução do Padre Joaquim Guerra).

Outra, doada pela cidade japonesa de Maizuru à cidade chinesa de Dalian, citava um poema escrito pelo poeta chinês Wang Changling (698–756) quando da despedida de um amigo: "Separados por verdes montanhas, nós compartilharemos as nuvens e a chuva: Quando é que a clara lua jamais separou duas cidades?"

Um funcionário do governo provincial de Toyama até compôs um poema novo – se bem que a partir de elementos clássicos – para enviar a Liaoning, província irmã de Toyama situada às margens do rio Liao: "Quando a neve no rio Liao derrete, as flores brotam em Toyama. Esperemos juntos a primavera, como irmãos da mesma alma."


Mensagem de solidariedade da província japonesa de Toyama para a província chinesa de Liaoning (Fonte: Estação japonesa da Rádio China Internacional (http://japanese.cri.cn/20200220/21b8b6c5-1824-e134-9344-e8061e174fde.html)

Aparte algumas exceções, os gestos japoneses foram imensamente apreciados pelo público chinês, coincidindo com um período de relações relativamente amigáveis entre o Japão e a China. Alguns usavam o Japão como espelho da situação chinesa: poucos dias antes, um burocrata japonês que cuidava dos japoneses evacuados de Wuhan cometera suicídio. Descontentes com as reações das autoridades chinesas ao surto, internautas chineses se mostraram surpresos ao saber que o primeiro oficial a "tomar responsabilidade e se suicidar" (yinjiu zisha) não era chinês, mas japonês.

Outros comparavam a reação japonesa favorável às reações de outros países. Na esfera política, o Ministério das Relações Exteriores criticou os Estados Unidos por não enviarem ajuda humanitária e agradeceu efusivamente os auxílios japoneses com as mensagens de solidariedade.

Assim, logo que o centro da pandemia passou da China para outras regiões, a China também passou de receptora de auxílio humanitário a doadora. Dada a repercussão enormemente positiva das doações japonesas, os chineses adotaram exatamente as mesmas formas de comunicação.

Mostro aqui os exemplos dos três países que, depois da China, foram os primeiros a serem fortemente afetados por epidemias do coronavírus – a Coréia do Sul, o Irã e a Itália–, mas há várias outras mensagens de solidariedade mandadas para outros destinatários.

Em 27 de fevereiro a Embaixada da China na Coréia do Sul doou 25 000 máscaras para a cidade de Daegu. Os adesivos nas caixas eram exatamente equivalentes às caixas japonesas que se haviam tornado famosas na China. Mostravam as bandeiras da Coréia e da China, diziam "Força, Daegu; força, Coréia", e traziam uma mensagem poética. Exatamente como a primeira leva de auxílio oriunda do Japão, a embaixada chinesa escolheu uma frase com um significado especial nas relações sino-coreanas. Trata-se de uma passagem de um texto escrito por Ch'oe Ch'iwon, um estudioso coreano do século IX que passou muitos anos na China, e inscrito em uma estela no templo budista Ssanggye-sa,no extremo sul da Coréia do Sul: "Os caminhos não distanciam as pessoas / e a humanidade não tem países diferentes" (to pul won in; in mu i kuk).

Alguns dias mais tarde, um comitê de ajuda formado por um empresário chinês e um iraniano mandou equipamentos médicos para o consulado iraniano no Cantão, de novo com adesivo mostrando as bandeiras dos dois países e dizendo "Força, Irã! Força, China!" Porém, quem escolheu os versos a serem utilizados fora de fato o ministro das relações exteriores do Irã, Javad Zarif. Em 4 de fevereiro, ele postara no twitter uma mensagem de solidariedade à China em mandarim.

No seu tuíte, o ministro citara os versos do Livro dos Cantares utilizados nas doações oriundas do Japão e acrescentara versos equivalentes da literatura persa: "Os descendentes de Adão são todos irmãos, e irmãos são como membros do mesmo corpo. No início das coisas eram um só, e quando um membro é acometido por uma doença, ele infeta o corpo inteiro".(Tradução minha a partir do mandarim; as versões persas diferem ligeiramente).


Mensagem de solidariedade ao Irã: "Os descendentes de Adão são todos irmãos, e irmãos são como membros do mesmo corpo." Fonte: Beijing Ribao (http://culture.people.com.cn/BIG5/n1/2020/0321/c1013-31642240.html)

Esses versos fazem parte da mais importante obra da literatura persa, o livro Golestan ("Jardim das Rosas") escrito no século XIII por Sa'dide Shiraz. Por seu conteúdo universalista, os versos passaram a ser freqüentemente utilizados em contextos diplomáticos: estão inscritos em um tapete instalado na sede das Nações Unidas em Nova Iorque e já foram recitados por Barack Obama e Ban Ki-moon. Agora, escritas em caixas de equipamentos médicos, tornaram-se uma mensagem de solidariedade entre a China e o Irã.

É nesse contexto que se encaixa a frase mostrada pelos médicos chineses em Milão. A frase, na verdade, já fora escolhida duas semanas antes, em 5 de março, quando a empresa Xiaomi doou à Itália uma quantidade de máscaras.


Mensagem de solidariedade à Itália com a exortação à fraternidade de 'Abdul-Baha', atribuida a Sêneca. Fonte: Conta de Facebook da empresa Xiaomi (https://www.facebook.com/XiaomiItalia/posts/3155778151100689)

Para a ocasião, os funcionários reponsáveis tentaram encontrar na tradição literária italiana um texto que exprimisse o mesmo sentimento de solidariedade entre os povos. O que encontraram não faz exatamente parte da tradição literária italiana. Porém, ele nos conta outra história transcultural, complexa e fascinante.

A frase se encontra em duas inscrições modernas em língua italiana, ambas intituladas "mensagem da fraternidade". Uma está situada no quartel-geral da marinha militar em Roma e a outra no parque Sigurtà na cidade Valeggio sul Mincio no norte da Itália. A placa da fraternidade no parque Sigurtà – que foi reformado completamente a partir de 1941 – foi colocada em cima de um velho túmulo romano pertencente a uma pessoa chamada Senecio Cassius, filho de Eburius Cassius. Esse Senecio é uma figura totalmente desconhecida e não tem nada a ver com o filósofo Lucius Annaeus Seneca, filho de outro Lucius Annaeus Sêneca, conhecido como o "Maior". Mesmo assim, a proximidade da placa com o túmulo de Senecio levou à atribuição falsa da frase ao filósofo Sêneca, primeiro por guias turísticos italianos, depois pelos funcionários da Xiaomi, e finalmente pela diplomacia chinesa.

Mas se a frase não é de Seneca, de quem será? Todos os elementos contidos na frase – ''ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim'' – são extremamente comuns nas escrituras da religião Bahá’í. O bahaismo foi criadoem meados do século por Baha’ ullah, um profeta persa exilado ao Império Otomano.O cerne de sua doutrina é a união de toda a humanidade dentro da sua diversidade racial e cultural. Conquanto em sua terra natal, o Irã, não seja reconhecida e sofra perseguições, a religião hoje tem cerca de 8 milhões de aderentes no mundo inteiro, inclusive na Itália. Mais precisamente, a origem da "mensagem de fraternidade" está em um discurso proferido pelo filho de Baha’ ullah, Abdul-Baha, em Nova Iorque,a 17 de abril de 1912, quando ele aconselhou ao seu público: "Sede como um unico espírito, uma alma só, folhas de uma só árvore, flores do mesmo jardim, ondas do mesmo oceano."

Talvez seja essa a lição que devemos tirar dessa pandemia. A crise tem fortalecido tanto os aspectos negativos como os positivos da natureza humana. Por um lado, o medo da doença tem levado a discriminação injustificada e racismo no mundo inteiro: dentro da China, contra pessoas oriundas de Hubei, fora da China, contra chineses e geralmente contra asiáticos, e agora de novo dentro da China contra estrangeiros.

Políticos ocidentais tentam lucrar políticamente ao taxar o patógeno de "vírus chinês", ao que muitos chineses, inclusive vários oficiais do governo, respondem tentando incriminar o exterior. Mas, por outro lado, a crise também tem suscitado forte solidariedade nacional e internacional. Afinal, o vírus não discrimina raça, religião, cor de pele ou nacionalidade, tampouco é como uma doença que acomete uma árvore e se distingue entre as suas folhas.

Egas Moniz Bandeira é advogado, historiador e pesquisador pós-doutorado do Centro de Estudos de Ásia Oriental da Universidade Autônoma de Madrid

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