Política

'Os próximos anos serão de muita luta', avalia James Green

Pesquisador americano alerta para o crescimento da onda conservadora no Brasil e traça uma comparação entre o golpe atual e os anos que antecederam 1964.

15/06/2016 00:00

Arquivo de James Green

Créditos da foto: Arquivo de James Green

 
Em passagem pelo Brasil, o brasilianista James Green concedeu uma entrevista exclusiva à Carta Maior. Herdeiro da cátedra de Thomas Skidmore, na Universidade de Brown, ele esteve à frente do abaixo assinado que alertou a comunidade acadêmica internacional sobre a quebra da ordem democrática no Brasil (confiram aqui).
 
Nesta entrevista, Green conta sobre sua militância política na esquerda brasileira e sua luta pioneira no Brasil pelos direitos dos homossexuais. Ele também alerta para o crescimento da onda conservadora no país e traça uma comparação entre o golpe atual e os anos que antecederam o golpe de 1964. Acompanhem:

Como surgiu a ideia do abaixo assinado?
 
James Green – Eu estava preparando o 13° Congresso da Associação de Estudos Brasileiros (BRASA), que reúne 700 pessoas, na Universidade de Brown, então, nós começamos a pensar o que poderíamos fazer. Junto com o Renan Quinalha, ele estuda comigo, é advogado e trabalhou na Comissão da Verdade de São Paulo, nós fizemos uma versão em inglês do abaixo assinado que estava circulando em português. Em apenas uma semana, nós tivemos mil de assinaturas de pessoas da América, Europa, Oriente Médio, África. É, antes de tudo, um manifesto contra os procedimentos antidemocráticos no Brasil.
 
Existe uma forte solidariedade internacional ao Brasil neste momento. Lembro que durante a eleição de 2002, entre o primeiro e segundo turno, nós vivíamos uma articulação americana muito preocupante: Bush na presidência, após o 11 de setembro, em plena guerra do Iraque. Naquele período, organizamos uma rede de estratégia brasileira, reunindo pessoas, brasilianistas, representantes de movimentos, prevendo uma possível agressão contra o Brasil, caso Lula se elegesse. Aquilo foi muito positivo, aglutinamos muita gente e eu pude conhecer vários imigrantes brasileiros.
 
Hoje, muitos deles estão participando das atividades em solidariedade ao Brasil em Nova York e em outras cidades. Há comitês espalhados nos EUA e, também, na Europa, Itália, França e Londres. No dia 19 de março, Dia Nacional de Luta, fizemos um evento em Washington. Um fotógrafo brasileiro pediu a palavra e disse que estava estudando ali e que era jornalista “por causa do Lula”. Esse contexto de conquistas mobiliza as pessoas.
 
No final de maio, o Congresso da LASA (Latin American Studies Association) comemorou 50 anos. Em 1970, o Thomas Skidmore apresentou uma moção de repúdio à tortura e à repressão no Brasil, com a presença do Mário Moreira Alves. Neste ano, paralelamente ao Congresso, o Comitê Executivo promoveu uma moção contra o impeachment no Brasil. Nós precisamos de 20% dos votos (2.400) para que seja uma moção oficial da organização do Congresso. Foi nesse contexto, também, que houve toda uma movimentação contra a participação do Fernando Henrique Cardoso. Ele havia sido convidado ano passado, mas acabou cancelando, porque sabia que seria vaiado.
 
Nesta semana, também, nós lançamos uma iniciativa para fomentar a discussão entre os acadêmicos que vem assinando os manifestos e abaixo assinados fora do Brasil. A ideia é criar um diálogo, bastante parecido ao do Fórum 21, em defesa da democracia. A grande maioria das pessoas que estuda o Brasil tem uma fascinação pelo país, mas fica muito chocada com a miséria. Então, mesmo não gostando dos governos petistas, elas percebem a tentativa de mudança e se tornam simpáticas à ideia de um Brasil transformado. Nosso objetivo é manter esse diálogo internacional, muito inspirado na iniciativa de Hebe Mattos, dos Historiadores pela Democracia.


 
Qual o peso dos Estados Unidos no atual processo político brasileiro?
 
James Green - Eu não sou da CIA, portanto, eu não sei. Mas, obviamente, o governo dos Estados Unidos é imperialista, capitalista e tem seus interesses no mundo e no Brasil, no pré-sal. Lula e Dilma representam uma política diferenciada e uma tentativa de criar uma via alternativa. Até agora, a postura foi de apoiar essas democracias. O Obama ainda não chamou o Michel Temer para parabenizá-lo. Mas, recentemente, como vimos na OEA, o embaixador declarou que [o processo de impeachment] foi democrático e não um golpe.
 
O José Serra [ministro das Relações Exteriores] está mandando as pessoas nas embaixadas e consulados a combater a ideia que houve um golpe. Há, portanto, uma campanha que revela a preocupação deles em relação à imagem do Brasil. Em 1964, também houve essa preocupação. O embaixo norte-americano Lincoln Gordon insistia para o então presidente Lyndon Jonhson (EUA) aceitar imediatamente o governo do Brasil, dando legitimidade ao golpe.
 
Jango não abandonou o Brasil, ele foi obrigado a sair e havia uma ilusão que o golpe seria uma medida democrática. Tanto que, naquele ano, o senador Wayne Morse, do Oregon, ao mesmo tempo que defendia o golpe brasileiro no Congresso, a “democracia contra o comunismo no Brasil”, criticava a intervenção no Vietnã. Ele tinha a capacidade de criticar o caso do Vietnã, mas em relação ao Brasil, havia uma lavagem cerebral. Quando veio o AI-2 em 1965 e foram eliminados os partidos políticos aqui, a instalação de somente dois partidos oficiais e eleições presidenciais indiretas, ele percebeu que não era uma democracia e passou a denunciar a ditadura brasileira.
 
Em 1966, uma manchete da Folha de São Paulo estampava: “Castelo Branco diz que não é ditadura militar”. Era uma resposta, direta, aos questionamentos do Senado americano. O próprio Robert Kennedy veio ao Brasil e se encontrou com o Cândido Mendes em 1965. Ele voltou dizendo que era ditadura. Essa mudança foi muito fruto das campanhas, abaixo-assinados e ações que os militantes brasileiros fizeram no exterior.
 
Qual a proximidades entre os dois períodos?
 
JG – Nós não estamos em 1964, mas há proximidades com 1961. Naquele ano, após a renúncia de Jânio, houve a tentativa de impedir, legalmente, Jango de assumir a presidência. Jânio fez uma manobra, mandou Jango para a China, o mais longe possível e renunciou para negociar mais poder no Congresso. Este, por sua vez, também estava dividido e eles tinham minoria: o PTB (com apenas 1/3) aliado com o PSD do JK e a UDN, da direita. Hoje, o PT se aliou ao PMDB para compor uma maioria no Congresso.
 
Também havia a perspectiva dos movimentos populares que era a continuação de Vargas com Jango no poder em 1961. Mas, a polarização não era tão dramática como hoje. Naquele período, o Terceiro Exército estava contra [a intervenção militar], então, houve o acordo do parlamentarismo. Mas, quando Jango conseguiu apoio popular veio o golpe. Hoje, as Forças Armadas ainda estão a favor desse processo de impeachment, mas, não é necessário chamá-las. Além disso, elas estão desprestigiadas, com certo medo de serem vistas como inimigas. Não há interesse delas em assumir esse papel se não for necessário. Até porque, a classe política assumiu a negociação.
 
Outra semelhança é o envolvimento de setores das classes médias mobilizadas contra a corrupção, o alto custo de vida – houve uma inflação grande entre 1961 e 1964. Já a esquerda estava dividida e, em certo momento, tornou-se mais radical, com o surgimento da Ação Popular, o Política Operária e o PC do B. Hoje, temos uma esquerda mais desmoralizada, o caso do mensalão etc. Há, também, toda essa questão da mobilização pela internet que facilita, mas gera um acirramento muito forte. As pessoas hoje brigam pela internet.
 
E sobre o atual governo interino, qual sua avaliação?
 
JG – Eu estou muito pessimista, virá um processo neoliberal muito forte. Este é um governo fraco, pode tentar se consolidar com a economia, mas está muito envolvido com a corrupção. Não é apenas “Cunha na prisão”, até porque ele pode revelar muita coisa se for preso. Eles estão atrás de uma reconciliação nacional. A situação não está sob controle para eles. Na minha avaliação, os próximos dois anos serão duros e os quatro anos após 2018, também.
 
A esquerda tem um grande desafio: refletir sobre os seus atos, repensar tudo e fazer a autocrítica. Há uma tendência a sempre culpar os americanos, a mídia, mas cometemos muitos erros. Por outro lado, há uma nova geração de lutadores que estão ocupando as escolas públicas, questionando o país. Eu vejo a emergência de um novo modelo social. Não sei se funcionará muito bem esse modelo horizontalizado, mas eles estão tentando. De qualquer forma, é um projeto interessante que reflete o desgaste com a política.
 
E no Congresso?
 
JG - A base do Congresso é a corrupção, a Bíblia e esses projetos reacionários. Seja quem for, o próximo presidente terá de negociar com essas pessoas. E elas vão usar este momento para ampliar as pautas reacionárias, o “escola sem política”, por exemplo; pautas contra os direitos e movimentos em defesa da igualdade racial, movimento LGBT, a luta das mulheres. Será uma onda conservadora. Nós teremos anos de muita luta. Daí a importância do movimento Acadêmicos pela Democracia no Brasil. Nossa ideia é, com apoio internacional, incentivar o debate e denunciar o que está acontecendo.
 
Por que você escolheu estudar o Brasil?
 
JG – Eu fui criado na Igreja Quaker, de tradição pacifista e pela justiça social. Aos 15 anos, já estava envolvido no movimento contra a Guerra do Vietnã e avaliava que a próxima intervenção seria na América Latina. Fui para o México aprender espanhol em uma escola impressionante, ligada à Teologia da Libertação, às ideias de Paulo Freire. Quando retornei, eu e mais seis outros jovens quakers formamos um Coletivo para Estudar América Latina. Eu tive de apresentar um trabalho sobre um país latino-americano e, então, escolhi o Brasil. Foi nesse período, para fazer este trabalho, que entrei em contato com um grupo de brasileiros, em Washington, que compunham o Comitê contra a Repressão no Brasil. Conheci o Marcos Arruda, um exilado político nessa época.
 
Marcos e os seus aliados norte-americanos tinham montando esse grupo em resposta à visita do general Médici à Casa Branca e, em 1972, formaram a Frente Comum sobre a América Latina. Eu comecei a trabalhar com eles na Filadélfia. Na época, eles estavam fazendo uma campanha pela libertação do líder camponês Manuel da Conceição, preso pela ditadura militar. Eu comecei a ajudá-los e percebi que, até então, ninguém sabia nada sobre o Brasil. A primeira missão política pública que eles me deram foi perguntar, durante um jantar na Filadélfia, ao embaixador brasileiro sobre o Manuel da Conceição.
 
Qual foi a resposta?
 
JG – Ele disse que não havia tortura no Brasil.
 
Em setembro de 1973, houve uma reunião em Nova York. Foi ali que eu conheci o Anivaldo Padilha, também exilado. Dias depois, no sete de setembro, organizamos um ato em frente à embaixada brasileira em Washington. Três dias após, houve o golpe no Chile. Aquilo nos chocou muito. Fizemos um grande movimento de solidariedade. Nessa época, eu já tinha assumido minha homossexualidade, e uni a minha militância LGBT com a militância política, organizando um ato de solidariedade gay com a resistência chilena, com 300 pessoas, em São Francisco, em 1975.
 
Naquela época havia uma geração nos EUA de jovens politizados pela Guerra do Vietnã, pelos direitos civis, a emergência do movimento feminista, o movimento LGBT, a luta contra o racismo. Nós vivíamos uma noção de revolução americana, de revolução dos costumes com mudanças radicais. Era um delírio, como foi 1968 aqui no Brasil, antes do AI-5. Nós tínhamos a ilusão de viver a revolução socialista. Era a sensação de ter o mundo nas mãos.
 
Você morou no Brasil, como isso aconteceu?
 
James Green – Eu vim a convite da irmã do Marcos Arruda que estava voltando para o Brasil. Eu cheguei pelo Rio Solimões e a primeira cidade que conheci foi Tabatinga. Nós viajamos pelo Norte, Nordeste e ficamos um mês em Salvador. Foi assim que eu aprendi o português e a cultura brasileira. Minha ideia era ficar seis meses, foram seis anos.  
 
Quando cheguei em São Paulo, eu fui dar aula de inglês. Depois comecei a militar na esquerda, na Convergência Socialista (hoje PSTU) que era trotskista e, na época, a única corrente de esquerda com certa abertura em relação à questão da homossexualidade. Em 1978, em São Paulo, nós criamos o primeiro grupo de homossexuais organizados dentro de um partido político na América Latina. Eu também acompanhei a fundação do Grupo Somos, o primeiro grupo político LGBT, que foi fundado em maio do mesmo ano. Eu cheguei em setembro e acompanhei o Somos até 1981.
 
Na militância política, havia uma orientação de procurarmos alianças com outros setores sociais e oprimidos. Em 1980, nós realizamos o primeiro encontro nacional dos grupos de homossexuais no Brasil. No 1° de Maio, durante a greve geral, levamos 50 homossexuais à Vila Euclides, carregando duas faixas: uma contra a repressão do sindicato do ABC e a outra contra a discriminação do trabalhador homossexual - uma pauta inédita, ninguém falava desse assunto.
 
Eu também fiz campanha para o PT - eu estudava na USP – então havia aquela mobilização toda, o movimento estudantil. Eu vivi uma situação muito peculiar, eu militei na esquerda brasileira.
 
E o fato de você ser norte-americano, isso nunca atrapalhou?
 
JG - Ninguém imaginaria que a CIA fosse inventar alguém como eu para trabalhar no campo político. Mas, claro, havia aquela coisa da CIA infiltrada. Anos depois, pesquisando a documentação do Sistema Nacional de Informação (SNI), um colega encontrou um relatório policial que dizia: “Jimmy Green deve ser codinome de Fernando Gabeira, fundador do movimento homossexual de orientação socialista”. Eles confundiam tudo...
 
Você fez uma pesquisa sobre o Herbert Daniel...
 
JG – Sim. Herbert Daniel era estudante de Medicina. Ele militou em uma organização chamada Colina, depois na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Ele passou pela clandestinidade e no exílio, ele assumiu a sua homossexualidade, reprimida durante a luta armada. Depois, ele voltou ao Brasil, militou no PT e participou da fundação do PV. O Herbert foi um dos pioneiros na luta LGBT no Brasil. Ele cobrou da esquerda uma posição contra a homofobia e chegou a ser candidato a deputado estadual no Rio de Janeiro, em 1986. Em 1989, ele se descobriu soropositivo e transformou a visão do país em relação a AIDS. Ele faleceu em 1992.
 
Nos anos 80, poucas organizações LGBT conseguiram sobreviver aqui no Brasil. Nos anos 90, com a estabilidade econômica, surgiu uma nova fase no movimento. Eu acompanhei isso também porque estava aqui no Brasil, pesquisando o doutorado. Agora, nós vemos os frutos indireto, por exemplo, o Jean Wyllys no Congresso. Estamos muito felizes com isso, ele articula tudo aquilo que eu esperava que fosse articulado por um brasileiro. Na minha visão, ele é hoje o que seria Herbert Daniel no Congresso.
 
Depois você voltou aos Estados Unidos?
 
JG – Sim, aí eu entrei na Academia e fiz o meu doutorado, “Além do Carnaval Homossexualidade Masculina no Brasil do Século XX”, publicado pela Unesp. Depois, eu escrevi o “Apesar de Vocês: a oposição à ditadura militar nos EUA”, que conta a história da solidariedade internacional durante a ditadura militar. O Anivaldo [Padilha] é um dos protagonistas desse livro. Fiz uma pesquisa profunda sobre esse envolvimento americano com o Brasil, desde o golpe até a democracia, sobre essa rede de solidariedade, o Brazilian Information Bulletin que o Anivaldo editava, o desfile famoso da estilista Zuzu Angel, em Nova York. É uma história que pouca gente conhece.







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