Política

'Pela primeira vez, América Latina e África têm período de largo crescimento'

Luiz Dulci, diretor do Instituto Lula, fala sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido pela entidade, principalmente na África e na América Latina.

09/04/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


"É a primeira vez na história que a África e a América Latina atravessam simultaneamente um largo período de crescimento econômico.  Neste século, a África tem crescido em média 5% ao ano e essa situação deve perdurar por um bom período. O crescimento econômico cria condições para que os países da África, tal como estão fazendo a maioria dos países latinos americanos, modernizem e fortaleçam as suas economias e, sobretudo, promovam um verdadeiro desenvolvimento social, capaz de combater com eficácia a fome e a pobreza, gerando empregos em escala massiva, ampliando e melhorando os sistemas de educação e saúde e universalizado os direitos de cidadania".A avaliação é de Luiz Dulci, diretor do Instituto Lula, que, em entrevista a Marilza de Melo Foucher, fala sobre o trabalho que o instituto vem desenvolvendo em nível internacional, em especial na África e na América Latina.
 
Luiz Soares Dulci (1956) foi Ministro-Chefe da Secretaria Geral da Presidência da Republica no Governo Lula. Formado em Letras Clássicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-1974. Foi professor universitário, militante do Sindicato dos Professores no Rio de Janeiro e Minas Gerais.  Coordenou  as primeiras greves dos trabalhadores do ensino público, participou da fundação da Central Única doa Tabalhadores (CUT) e foi também um dos fundadores do PT (1980).

Luiz Dulci entrou na vida parlamentar em 1982 tendo sido eleito deputado federal na primeira bancada do Partido dos Tabalhadores – PT. Foi um dos coordenadores da campanha de Lula à presidência em 2002.

Por que o Instituto Lula atua principalmente em nível internacional?

Luiz Dulci: Quando saiu da Presidência, Lula disse que iria dedicar-se, sobretudo à cooperação internacional. Isso não significa, é claro que ele tenha se afastado das questões brasileiras. Ao contrário: tem apoiado com entusiasmo o governo Dilma, os partidos progressistas e as organizações populares. Dialoga permanentemente com eles, não só na sede do Instituto, em São Paulo, mas nas suas inúmeras viagens pelo interior do país. E mantém contatos com os intelectuais, os sindicatos, a juventude, as igrejas, o empresariado. Mas o seu papel agora, evidentemente, é outro. Ele não se pronuncia sobre temas que são da competência da Presidenta Dilma, a não ser para apoiar as suas decisões ou defendê-la dos ataques cada vez mais furiosos da direita. É por isso que definimos para o Instituto duas linhas prioritárias  de trabalho:  estimular a integração da América Latina e cooperar para o desenvolvimento da África.

Qual é o foco do trabalho do Instituto na América Latina?

Luiz Dulci: É a própria integração regional. A América do Sul e a América Latina, como se sabe, tiveram avanços extraordinários na última década. A maioria dos países tem governos progressistas que conseguiram virar a página catastrófica do neoliberalismo, retomando o crescimento econômico, distribuindo renda e promovendo uma vasta inclusão social. A integração avançou bastante, principalmente nos aspectos comercial e político. Basta dizer que, em 2002, segundo a CEPAL o comércio entre os países latino-americanos era de US$ 33 bilhões; hoje, é de US$ 137 bilhões. E pode ser muito maior, pois somos um mercado de 400 milhões de habitantes, com enorme horizonte de expansão. Governantes das mais diversas orientações ideológicas perceberam que, unida, a região consegue defender melhor os seus legítimos interesses e tem maior peso nas decisões globais.
 
Assim, foi possível criar a UNASUL – União das Nações Sul-Americanas, e a CELAC – Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos. E elas já estão cumprindo um papel importante. Mas há uma consciência geral de que é preciso acelerar o processo de integração, incluindo outras dimensões que são também estratégicas. Recentemente, o Instituto Lula promoveu um grande seminário no Chile, em parceira com a CEPAL, o BID e a CAF, reunindo lideranças políticas e sociais dos vários países, para debater propostas de integração física, energética, financeira, trabalhista, de políticas sociais, culturais, ambientais etc... É preciso popularizar a causa da integração, envolvendo cada vez mais o cidadão comum. Nos últimos três anos, Lula fez 30 viagens na região, discutindo com os mais diversos setores sociais a necessidade – e a oportunidade – de avançar na integração.

Porque o Instituto decidiu priorizar o continente africano? Inclusive percebe-se que o Instituto Lula presta solidariedade não somente na África dita lusófona. Por que esta relação sul/sul é tão necessária?

Luiz Dulci: Os laços históricos, culturais – e morais  –  entre o Brasil e a África são  fortíssimos. Como se sabe, metade da população brasileira é de origem africana. A Africanidade está presente em todos os aspectos da nossa existência coletiva: na língua, nos costumes, nas artes, na vida espiritual. Para o Brasil, cooperar com a África é ao mesmo tempo um impulso natural e uma obrigação política.

Por outro lado, é a primeira vez na história que a África e a América Latina atravessam simultaneamente um largo período de crescimento econômico.  Neste século, a África tem crescido em média 5% ao ano e essa situação deve perdurar por um bom período.

O crescimento econômico cria condições para que os países da África, tal como estão fazendo a maioria dos países latinos americanos, modernizem e fortaleçam as suas economias e, sobretudo, promovam um verdadeiro desenvolvimento social, capaz de combater com eficácia a fome e a pobreza, gerando empregos em escala massiva, ampliando e melhorando os sistemas de educação e saúde e universalizado os direitos de cidadania.

O governo brasileiro acompanha com atenção esse processo, e o apoia ativamente, desde que Lula assumiu a presidência, em 2003. Durante seus dois mandatos, Lula fez 33 viagens a 26 países Africanos, ampliando o nosso intercâmbio político, tecnológico, universitário, cultural e empresarial. E a presidenta Dilma manteve essa prioridade.

Uma decisão fundamental do nosso governo foi a de incorporar o ensino de História da África ao currículo de todas as escolas brasileiras.

O Instituto Lula, além de apoiar as iniciativas governamentais, procura mobilizar os diferentes segmentos da sociedade brasileira para o diálogo e a cooperação com a África. Foram inúmeras as atividades do Instituto nesse sentido. E ele já se tornou uma referência importante para os brasileiros e africanos dispostos a se empenhar pela nossa maior aproximação.

A língua, evidentemente, nos aproxima dos países lusófonos – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe – com os quais nos encontramos regularmente na CPLP. Mas trabalhamos com diversos outros países, de distintas línguas e culturas, e com as instituições continentais da África, a exemplo da União Africana e do Banco Africano de Desenvolvimento.

E quanto à relação sul-sul?

Luiz Dulci: A partir da eleição de Lula, o Brasil passou a apostar estrategicamente nas relações sul-sul, sem prejuízo das nossas tradicionais relações com a Europa e a América do Norte. Achamos que isso é importante para tornar mais equilibrado o sistema econômico e político internacional e para fazer com que o multilateralismo não seja apenas retórico, mas efetivo. Na esfera política e diplomática, esse esforço sul-sul resultou na criação dos BRICS, das cúpulas América Latina/ África e América Latina/Países Árabes e tornou incontornável a própria criação do G-20. Mas os resultados em termos de expansão do comércio e dos investimentos recíprocos também são muito expressivos.

O Brasil parece hoje bem representado nos organismos multilaterais, entretanto, em termos de imagem na cena internacional têm se a impressão de que o Brasil anda perdendo seu espaço... A própria imprensa internacional não dá hoje o mesmo destaque que dava durante o governo Lula. Qual a razão?

Luiz Dulci: Até onde eu percebo, alguns segmentos da imprensa europeia e norte-americana mudaram de posição sobre os chamados países emergentes. Não foi só com o Brasil, mas também com a Índia, a Turquia, a África do Sul e vários outros. Até com a China, em certa medida. De repente, publicações conservadoras como “Economist” e “Finantial Times”, que antes não se cansavam de celebrar a consistência e o sucesso dos emergentes, agora caíram no extremo oposto.
 
Passaram a questionar às vezes, em linguagem panfletária, as suas supostas “fragilidades”, fazendo todo tipo de criticas e previsões negativas sobre as suas economias e o seu potencial de crescimento. É claro que isso acaba afetando, de alguma maneira, os demais veículos de comunicação e condicionando a “percepção” sobre os emergentes.

Como não há motivos concretos para essa súbita hostilidade, só podemos atribuí-la a razões ideológicas ou políticas. Será que é porque nenhum dos emergentes segue a cartilha fracassada do neoliberalismo? Ou porque todos se recusam à desregulamentação total – e suicida – do sistema financeiro?  Ou porque não aceitam como haviam feito os governos subalternos da década de 1990, de privatizar as nossas empresas públicas estratégicas? Será porque insistem em crescer distribuindo? Não sei.

Prefiro acreditar que se trata de uma profunda incompreensão do novo patamar atingido pelos emergentes. Muita gente não entende que as economias emergentes, além de terem conseguido crescer de modo acelerado na última década, também deram um notável salto de qualidade. Tornaram-se mais profissionais e eficientes. E muito mais rigorosas do ponto de vista fiscal e monetário. Por isso mesmo, reduziram drasticamente as suas vulnerabilidades e hoje estão bem mais preparadas para enfrentar as oscilações  do mercado internacional.

Concretamente, como isso se manifesta no caso da economia brasileira?

Luiz Dulci: Uma avaliação objetiva da nossa economia deve partir de dados concretos. Frente aos preconceitos ideológicos e juízos apressados, os números são a melhor resposta.

Em 2003, quando Lula assumiu, nosso PIB era de US$ 550 bilhões; hoje, é de US$ 2,2 trilhões. O país tornou-se a sétima economia do mundo. O comércio externo, por exemplo, saltou de  US$ 118 bilhões para  US$ 480 bilhões anuais. O Brasil passou a ser um dos maiores produtores de automóveis, máquinas agrícolas, alumínio, celulose, aviões; e líder mundial em etanol, açúcar, laranja, soja e café.

Além disso, a inflação foi reduzida de 12,5% em 2003 para 5,9% em 2013, e se mantém há dez anos dentro da meta fixada pelo Banco Central. Conseguimos baixar a divida pública de 60,4% do PIB para 33,8%, uma das menores entre as grandes economias. E o governo Dilma continua fazendo o esforço fiscal necessário para manter a trajetória de redução da divida. Por outro lado, em 2003 nossas reservas não passavam de US$ 37 bilhões, mais da metade emprestada pelo FMI.
 
Hoje, são de US$ 377 bilhões, e o Brasil se tornou inclusive credor do Fundo Monetário.  Dessa forma, o país pode administrar com tranquilidade os efeitos decorrentes de eventuais turbulências externas. Outra prova da sua solidez econômica é o fato de seguir recebendo grande quantidade de investimento estrangeiro direto (IED). Só em 2013, foram US$ 62 bilhões.

Como se sabe, o comércio global está estagnado desde 2008. E a crise internacional obviamente impactou o crédito e o câmbio. Sem dúvida é um bom sinal que o FED dos Estados Unidos esteja retirando os chamados estímulos econômicos, mas é claro que isso também diminui a liquidez global. No entanto, mesmo nessa conjuntura desfavorável, o Brasil cresceu 2,3% no ano passado, acima de todos os países desenvolvidos e de boa parte dos emergentes. E terá um crescimento pelo menos igual em 2014.

E o que é mais importante: enquanto o mundo, segundo a OIT, desde 2008 eliminou 62 milhões de empregos, o Brasil criou 10,5 milhões de novos postos de trabalho. A nossa taxa de desemprego (em torno de 5%) é a menor da história brasileira. Existe indicador mais evidente da saúde de uma economia?

Por que então o Brasil viveu aquela onda de manifestações em junho do ano passado? O que queriam aqueles jovens? As manifestações ainda continuam?

Todos sabem que os governos de Lula e Dilma tiraram 36 milhões de pessoas da miséria e levaram 42 milhões para a classe média. O Brasil fez em doze anos, pacificamente, o que muitos países levaram décadas para fazer, e com revoluções. O país experimentou uma mobilidade social enorme. E quem conquista direitos fundamentais, é natural que queira mais. Por exemplo: O número de estudantes nas universidades passou de 3,6 para 7 milhões; e outros 6 milhões de jovens tiveram pela primeira vez acesso à qualificação profissional. Agora – e com toda razão, aliás– esses jovens querem melhor qualidade de ensino. O Brasil tem um sistema universal de saúde pública, que foi uma grande conquista. Mas é preciso torná-lo mais ágil e eficiente.  Milhões de pessoas, inclusive das classes populares, puderam comprar o seu primeiro automóvel (a produção anual passou de 1,6 para quase 4 milhões de veículos).  É claro que isso traz desafios importantes para a mobilidade urbana e o transporte coletivo. Ou seja: as principais bandeiras daquelas manifestações diziam respeito à melhoria dos serviços públicos, principalmente transporte e saúde. Bandeiras com as quais todos nós nos identificamos.

A presidenta Dilma deu pronta  resposta ao clamor das ruas, dialogando com os movimentos e propondo ousados pactos nacionais para resolver os problemas apontados.  Os compromissos que ela assumiu começaram imediatamente a ser postos em prática. De lá para cá, o governo federal fez investimentos ainda maiores na saúde, e no transporte, com destaque para o programa «Mais Médicos”, que está tendo grande apoio popular, e para um conjunto de obras de mobilidade urbana (metrôs, monotrilhos, corredores de ônibus etc) já em andamento nas capitais dos estados e outras grandes cidades.

Nem tudo foi resolvido, evidentemente. A solução desses problemas não se dará por um passe de mágica. Vai exigir um esforço intenso e continuado, durante vários anos. Depois de junho do ano passado, contudo, não tivemos mais nenhuma daquelas manifestações massivas. Esporadicamente, acontecem pequenos atos promovidos pelos chamados “black blocs”, adeptos da violência política, que incendeiam agências bancárias e casas comerciais e até já provocaram a morte de um jornalista. São violentos, mas, não passam de algumas centenas em todo o país. Acho que a maioria dos jovens de junho, contrários à violência, canalizou seu desejo de mudança para a negociação democrática com o governo federal, os governos estaduais e as prefeituras.





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