Política

''Sem grandes investimentos, continuaremos vulneráveis a pandemias''

Para Mark Lowcock, chefe do escritório da ONU para Assuntos Humanitários, é preciso aprender com as falhas na preparação para a epidemia de Covid-19, a falta de cooperação entre os países e a escassez de recursos nos sistemas públicos de saúde

10/04/2020 17:38

Mark Lowcock, subsecretário-geral de Assuntos Humanitários das Nações Unidas, em setembro de 2018, em Genebra (Fabrice Coffrini/AFP)

Créditos da foto: Mark Lowcock, subsecretário-geral de Assuntos Humanitários das Nações Unidas, em setembro de 2018, em Genebra (Fabrice Coffrini/AFP)

 
Mark Lowcock é subsecretário-geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA) desde 2017. Sua agência coordena os esforços da ONU ao lado de ONGs para combater o Covid-19 nos países mais vulneráveis. A crise sanitária acontece quando a assistência humanitária no mundo já atingiu um nível histórico desde o final da Segunda Guerra Mundial. Hoje, uma em cada 45 pessoas precisa de ajuda no mundo.

O senhor lançou um manifesto, em 25 de março, para arrecadar 2 bilhões de dólares para combater a propagação do Covid-19 em países vulneráveis. Quais as situações mais urgentes que a OCHA enfrenta?

Nosso primeiro desafio é logístico. Todas as medidas e restrições de viagens postas em prática pelos governos podem, mais cedo ou mais tarde, prejudicar nossa assistência humanitária e nosso acesso às comunidades afetadas. Ainda não é o caso, graças aos milhares de trabalhadores humanitários lotados nos países e que continuam a trabalhar, mas é absolutamente vital manter o abastecimento dos países em crise e facilitar a circulação de bens e de trabalhadores humanitários. O fechamento de muitas linhas comerciais também nos forçará a usar os serviços aéreos das Nações Unidas para transporte de pessoal, de profissionais de saúde e de material médico para os locais que mais precisarem.

Nosso segundo desafio está relacionado às características do vírus Covid-19, altamente contagioso, que pode se espalhar rapidamente em ambientes já fragilizados por crises humanitárias, pela falta de higiene e por doenças subjacentes que enfraquecem o sistema imunológico. Tentamos antecipar todas as ações possíveis para retardar sua disseminação, por meio de campanhas de informação junto às populações, instalação de postos de lavagem de mãos e entrega de material médico e de equipamento de proteção. É um verdadeiro desafio quando se trata de pessoas que vivem em lugares fechados, como campos de refugiados, onde será difícil pôr em prática o distanciamento social. Também sabemos que será difícil organizar programas de testagem em larga escala. Sendo realista, podemos imaginar que será longo o impacto do Covid-19 em nossos programas de ajuda.

A situação na província síria de Idlib, considerada a pior catástrofe humanitária do século 21, é particularmente preocupante, com uma dezena de casos já detectados.

Quatro milhões de pessoas vivem nesta região no noroeste da Síria, incluindo um milhão de pessoas deslocadas, que tiveram que deixar suas casas nos últimos três ou quatro meses. Eles estão em acampamentos lotados, expostos aos quatro ventos, com muito pouco acesso a serviços de saúde, higiene e saneamento. No entanto, essa é uma população relativamente jovem, com menor probabilidade talvez de ser atingida pelo vírus, embora exista um problema crescente de desnutrição em crianças. Os desafios são colossais e estamos fazendo o possível para intensificar a entrega de ajuda material através da fronteira com a Turquia.

A instrumentalização é uma constante do governo de Bashar Al-Assad desde o início da guerra, em 2011. O senhor teme a utilização desta ajuda para combater o Covid-19 na Síria?

O governo sírio continua a nos negar acesso a Idlib a partir de Damasco. Nossa única porta de entrada é a Turquia. No nordeste da Síria, o fechamento da passagem de Al-Yaarubiyah [cidade síria na fronteira com o Iraque] expõe ainda mais as pessoas ao coronavírus. Sabemos que os estoques de remédios e anestésicos estão acabando. Continuamos a negociar com os vários atores [sírios e iraquianos] para levar ajuda e material a essas populações, mas, no momento, estamos recebendo apenas respostas negativas. É muito preocupante.

Vocês têm acesso a estoques de materiais essenciais, uma vez que mesmo os países mais ricos enfrentam a escassez destes materiais e os disputam no mercado internacional?

A primeira coisa de que precisamos, claro, é financiamento. Desde o lançamento de nosso apelo por 2 bilhões de dólares, já levantamos 362,5 milhões e esperamos mais. No momento, nenhum país possui o número suficiente de kits de testes, máscaras de proteção, equipamentos ou ventiladores. Foi entregue material aos países mais pobres, mas não será suficiente. Esperamos que haja um grande aumento na produção de todos esses materiais, e que medidas especiais sejam tomadas para manter aberto o fluxo de mercadorias.

Esperamos, enfim, que os países da Europa e América do Norte, que atualmente enfrentam os maiores problemas, consigam controlar rapidamente a epidemia. Assim, quando tiverem menos necessidade desses materiais médicos, haverá uma proporção maior para os países pobres.

Os planos de emergência da ONU levavam em consideração os riscos de pandemia?

Não, mas esta constatação se aplica a todos os países. Conhecíamos os riscos de pandemias. Em nossas previsões para 2020, também destacamos os riscos epidêmicos, em particular do vírus Ebola – que estamos conseguindo vencer – ou do sarampo. Mas ninguém previu um problema tão excepcional quanto o Covid-19. Nenhum país do mundo havia previsto ou estava suficientemente preparado para uma crise dessa magnitude.

Quais serão as consequências do Covid-19 para o trabalho humanitário?

As implicações serão enormes para todos os países, mas agora é hora de combater a epidemia. Espero que essa pandemia incentive a pesquisa e a ciência e que o desenvolvimento de tratamentos, vacinas e testes seja acelerado. No futuro, será necessário investir muito mais nos sistemas públicos de saúde, tanto nos países ricos quanto nos outros. Sem investimentos significativos, permaneceremos tão vulneráveis às pandemias quanto os sistemas de saúde mais frágeis. Se o mundo quiser se proteger de problemas futuros, também será necessário ajudar os países mais pobres a melhorar seus sistemas de saúde.

Muitos países já enfrentaram epidemias e têm muito a ensinar. Como para o Ebola, é preciso fazer testes em massa, rastrear as cadeias de contato e transmissão e isolar dos doentes. São técnicas que já utilizamos, mesmo que esse vírus seja diferente e sua extensão [planetária] seja única.

Fala-se cada vez mais de uma "diplomacia da saúde" ou uma "rota da seda da saúde" para se referir à importante ajuda dada pela China, especialmente aos países desenvolvidos. O Covid-19 pode alterar a liderança da ajuda humanitária?

Vivemos num pequeno planeta, cada vez mais populoso e com problemas globais. A colaboração é, portanto, um imperativo, não uma opção. Gostaria de ver mais países fazendo mais. A China é uma grande potência econômica e penso que devemos aplaudir o fato de estar ajudando outros países durante esta pandemia. Os países do G20 poderiam fazer mais do que fazem hoje. É preciso que todos façam mais, não apenas por generosidade, mas também por interesse próprio, para vencer essa pandemia.

Como explica a multiplicação de crises humanitárias nos últimos anos?

Há três razões. A primeira é geopolítica: os conflitos são mais numerosos, duram mais e o mundo tem mais dificuldade para lidar com o surgimento de grupos terroristas não estatais. A segunda razão deriva da crise climática. Houve cerca de 300 emergências relacionadas ao clima em 2019, duas vezes mais do que vinte anos atrás. Estou muito preocupado com a invasão de gafanhotos na África Oriental, que põe em risco a cadeia alimentar da região. Finalmente, o terceiro motor de conflitos são as pandemias. Houve uma epidemia de Ebola na República Democrática do Congo que foi difícil controlar, principalmente devido à insegurança e aos conflitos que nos impediram de vacinar crianças e pessoas mais vulneráveis. Desde então, há também o risco de surgimento de novos vírus, como o Covid-19. Por isso, as Nações Unidas pediram um cessar-fogo global, para que os países possam se concentrar no combate ao vírus. Seria bom aproveitar essa oportunidade para acabar com os conflitos e encontrar soluções para a ameaça ainda maior que é essa pandemia. Porque é bastante possível que esse vírus cause muitos outros problemas e conflitos.

Esta crise sanitária acontece num momento em que os trabalhadores humanitários já enfrentam condições cada vez mais perigosas, com hospitais bombardeados na Síria e no Iêmen, trabalhadores assassinados na RDC. Por que os trabalhadores humanitários se tornaram alvos?

Após a Segunda Guerra Mundial, os países se uniram para rejeitar aquelas atrocidades e exigir que fossem aplicadas regras em tempos de guerra. Assim foram criadas as convenções de Genebra. Essa tem sido a norma nos últimos sessenta anos. Nos últimos cinco anos, no entanto, com a expansão de grupos terroristas transfronteiriços, o respeito pelas leis da guerra e pelo direito internacional humanitário foi enfraquecido. Por exemplo, registramos quase 800 ataques a trabalhadores e estabelecimentos de saúde nos primeiros nove meses de 2019. Hoje, trabalhar no setor humanitário significa, cada vez mais, arriscar a vida. O mundo deve ter consciência disso.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Clarisse Meireles



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