Política

''Vacinamos 31 milhões de brasileiros. Isso é uma obra do governo Bolsonaro''

Embaixador Serra tenta, em vão, defender Bolsonaro em duas entrevistas a um canal de TV francês

15/04/2021 13:00

(Reprodução/BFM TV.)

Créditos da foto: (Reprodução/BFM TV.)

 
“Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”. Essa frase célebre, pronunciada inadvertidamente pelo também embaixador Rubens Ricupero, parece representar bem propriamente a estratégia usada, em duas entrevistas para o canal francês BFMTV (aqui e aqui, em francês) pelo embaixador brasileiro em Paris, Luís Fernando Serra. Pondere-se, não obstante, que naquele momento talvez até existisse alguma coisa boa para o ministro comunicar.

Nos idos do ano eleitoral de 1994, Ricupero, no cargo de ministro da Fazenda, conversava com o jornalista, nos minutos que antecediam a entrada no ar da entrevista, sem saber que as parabólicas já conseguiam captar o diálogo. Ele usou a frase acima para insinuar que tudo faria para apoiar a candidatura de Fernando Henrique Cardoso à presidência, tido como pai do Plano Real, inclusive esconder eventuais dados ruins da população. Teve de demitir-se dias depois e o caso exemplar ficou conhecido como o “Escândalo da Parabólica”.

A bem da verdade, o pecado do embaixador ministro da Fazenda torna-se quase irrelevante, infantil, frente às declarações do embaixador Serra. Por qualquer medida que se tome, o Brasil vive uma catástrofe de enormes proporções que o embaixador Serra tenta minimizar com o intuito precípuo de reduzir a responsabilidade do presidente. Vamos aos fatos.

1 “Vacinamos 31 milhões de brasileiros. Isso é uma obra do governo Bolsonaro”

O embaixador complementa que foram aplicadas 42 milhões de doses. Essa afirmação do embaixador considera que: o número de vacinados é alto e a população está sendo vacinada por obra do governo de Bolsonaro.

Se considerarmos a tabela de acompanhamento da vacinação no mundo pelo jornal The New York Times, de 14/04/2021, nos deparamos com o dado que foram aplicadas 31 milhões de doses no Brasil e não 42 milhões como afirmou o ministro. O próprio Vacinômetro do Ministério da Saúde confirmava 31,4 milhões de doses, na noite de 14/4.

No mesmo levantamento do New York Times, encontramos o Brasil na 54o posição na escala de “doses por 100 habitantes”, com 3,4% de sua população vacinada. Usar o número absoluto em lugar do número relativo ao tamanho da população é uma estratégia de mostrar um quadro deplorável como somente ruim. Estamos muito atrasados na vacinação e quanto maior o atraso maior o número de mortes que poderiam se evitadas.

Do mesmo modo, ao afirmar que a vacinação se deve ao governo Bolsonaro, o embaixador omite que o governo federal desprezou a possibilidade de negociar com as empresas farmacêuticas no momento propício e impôs um sem número de dificuldades, até mesmo diplomáticas, aos governos estaduais e locais e aos dois institutos que participaram ativamente do desenvolvimento das duas vacinas disponíveis no momento no Brasil.

(Ver a esse propósito a matéria “Governo Bolsonaro e a estratégia de propagação do vírus”, por Tatiana Carlotti. Entrevistada pelo biólogo Atila Iamarino, a professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, esmiúça a estratégia institucional de propagação do vírus adotada pelo atual desgoverno federal.)

2 “O Brasil é o 19o em número de mortos por milhão de habitantes”

O embaixador Serra declarou que o Brasil é o segundo em número absoluto de mortes e o 19o em mortos relativamente ao tamanho da população. E fez questão de enfatizar que, em termo relativos, há países na Europa que têm um quadro pior. Os sites da OMS e da Universidade Johns Hopkins confirmam o Brasil como o segundo país em número absoluto de mortes, como afirmou o ministro. O site statista.com mostra, entretanto, o Brasil como 14o com pior número de mortes por milhão de habitantes. Em todo caso, como o número relativo é menos ruim que o número absoluto, enfatize-se o relativo.

Acontece, ademais, que o Brasil é atualmente o país com maior número de mortes por dia, e estamos subindo no ranking de países com mais mortes, tanto em termos absolutos como relativos. Talvez o que melhor demonstre a eficácia ou ineficácia no combate à pandemia seja que o país tem 2.74% da população mundial e tem, até o momento, 12% das mortes.

3 “E é culpa de Bolsonaro? É culpa do presidente Bolsonaro?”

Um trecho do diálogo com o segundo jornalista evidencia o objetivo maior do embaixador: defender as ações do presidente Bolsonaro em relação à pandemia. E, claro, culpou a esquerda. Aliás incluiu o governo do PSDB na dita esquerda. Serra só não falou dos cortes no orçamento da Saúde após o golpe contra a ex-presidente Dilma.

Disse o jornalista:

- Deixemos de lado os números por um instante. As imagens são de hospitais lotados. Corpos que são enterrados em condição surreal. Vemos dezenas de pessoas sendo enterradas em valas comuns. Essas são as imagens e são terríveis.

Responde o embaixador Luís Fernando Serra:

- E é culpa de Bolsonaro? É culpa do presidente Bolsonaro? Nós sempre nos esquecemos que a esquerda ficou no poder 24 anos.

O jornalista retruca:

- Não foi isso que eu disse. Não falei do presidente Bolsonaro.

O embaixador completa:

- Está por trás de todo seu pensamento. Está por trás.

4 “As pessoas querem viver, trabalhar. Há um preço a pagar? Sim.”

Questionado sobre as medidas atualmente em vigor, Serra diz que por decisão do STF são os governadores os responsáveis. Ele não diz que o STF foi acionado porque Bolsonaro entrou com ação no STF contra medidas restritivas impostas por prefeitos e governadores.

Disse o embaixador: “as medidas de confinamento, ‘desconfinamento’ e ‘reconfinamento’, por uma decisão do STF, são majoritariamente tomadas pelos governadores dos estados brasileiros, nós somos 27 estados no Brasil e o governador decide sobre o confinamento”.

O jornalista pergunta sobre “bares e restaurantes que estão abertos em certos estados, no Rio por exemplo”.

A resposta passa longe de mencionar a interrupção do auxílio emergencial em janeiro:

“Evidentemente. Evidentemente. É isso que as pessoas querem. As pessoas querem viver, trabalhar. Há um preço a pagar? Sim. Ha um preço a pagar, mas perguntemos se as pessoas querem ficar em casa. As pessoas querem trabalhar. Eu disse ontem que o Brasil não tem a cobertura social que encontramos na Europa. Então, a maior parte das pessoas vivem do dia a dia, se houvesse uma cobertura social como existe na França, evidentemente, seria mais fácil de ficar em casa.”

O embaixador conclui:

“Vejo que você não está contente com minha resposta.”





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