Política

1968: Três assassinatos, nenhum subversivo

 

30/05/2018 16:03

Acervo da Biblioteca Nacional

Créditos da foto: Acervo da Biblioteca Nacional

 
EDSON LUÍS

A morte

No dia 28 de março de 1968, Edson Luís (17 anos)  – estudante secundarista, de classe baixa, trabalhador, recém chegado ao Rio de Janeiro, que não carrega, portanto, adjetivos como "líder subversivo", "comunista" ou "agitador", tão caros às buscas militares – é assassinado pela Polícia Militar dentro do restaurante universitário onde aconteciam as reuniões dos estudantes da FUEC, Frente Unida dos Estudantes do Calabouço, conhecidos por sua combatividade ao reivindicar melhorias nas instalações do RU e diminuição do preço das refeições.  Nas palavras de Zuenir Ventura:

O episódio do Calabouço (...) ficou na História como um marco. Pode-se dizer que tudo começou ali - se é que se pode determinar o começo ou o fim de algum processo histórico. De qualquer maneira, foi o primeiro incidente que sensibilizou a opinião pública para a luta estudantil. Como cinicamente lembrava a direita, "era o cadáver que faltava".[1]

Em depoimento prestado na Polícia Militar, o capitão Aloísio Azevedo Raposo, comandante da tropa de choque que mata Edson Luís, defende a versão de que os estudantes eram os culpados por terem sido os provocadores da violência. O general Jayme Portella, Chefe da Casa Militar em 1968, mais de dez anos depois, relata o evento, endossando a tese da PM:

Nesse final de março, a agitação estudantil na Guanabara teve um impulso muito sério com a morte, num incidente com a Polícia, de um empregado no restaurante do Calabouço dos estudantes. Tinha havido uma agitação no restaurante provocada por elementos comunistas, infiltrados entre os estudantes, resultando num conflito entre eles. A polícia foi chamada pela administração do restaurante para debelar o conflito e restabelecer a ordem. Mas a patrulha policial foi recebida a pedradas e a tiros e teve que reagir e, no incidente, foi morto um rapaz, Edson Luiz, que trabalhava no restaurante e à noite estudava. Foi a centelha para que eclodisse uma agitação de grandes proporções na área estudantil.[2]

A grande imprensa, ao noticiar o episódio da morte de Edson Luís, caracterizando-o como um conflito entre os estudantes e a polícia, está, em linhas gerais, transferindo a discussão para os “culpados” pela utilização da violência. É significativo o título de uma matéria da revista Veja, com caráter retrospectivo, publicada no dia 11 de setembro de 1968: “A Culpa da Violência - Quem jogou a primeira pedra, os moços ou a polícia? Os dois lados admitem a violência”.[3]

Em editorial publicado na mesma data, o Correio da Manhã assume explicitamente a defesa dos estudantes, repudiando a violência policial:

Estudantes reuniram-se, ontem, no Calabouço, para protestar contra as precárias condições de higiene do seu restaurante. Protesto justo e correto. (...) Apesar da legitimidade do protesto estudantil, a Polícia Militar decidiu intervir. E o fez à bala. (...) Não agiu a Polícia Militar como Força Pública. Agiu como bando de assassinos. Diante desta evidência cessa toda discussão sobre se os estudantes tinham ou não razão - e tinham. E cessam os debates porque fomos colocados ante uma cena de selvageria que só pela sua própria brutalidade se explica.[4]

O velório

A polêmica gira em torno da possibilidade de que uma vez levado o corpo para o Instituto Médico Legal, não o receberão de volta. Os argumentos daqueles que estão presentes no velório, e que defendem a entrega do corpo às autoridades, são baseados na necessidade de comprovação do assassinato e da autópsia para que possa ser enterrado. Já aqueles que discordam da entrega do corpo, e que acabam saindo vitoriosos, dizem que o assassinato é evidente por si mesmo, criticando seus opositores – dentre eles os deputados – que, na ânsia pela legalidade, subestimam a própria ilegalidade do assassinato de Edson Luís. Busca-se, assim, desmistificar a legalidade já rompida no momento do crime, impedindo a retirada do corpo da Assembleia. Entregá-lo às autoridades, deste ponto de vista, significa perder a “prova” da morte “ilegal”. A “batalha” pelo corpo de Edson parece até mesmo antecipar, impedindo, a prática da ditadura, que se tornará tão comum, de dar sumiço aos corpos de suas vítimas.

A autópsia feita na Assembleia Legislativa, para onde os estudantes levam o corpo do secundarista, confirma a brutalidade da violência policial: a morte foi causada por ferimento contuso a bala de revólver calibre 33, que penetrou pelo peito indo alojar-se no dorso da espinha. A PM estava armada e atirou inescrupulosa e descabidamente, como ficou provado pela perícia que constatou diversas perfurações a um metro e meio do chão.

O enterro

O enterro de Edson Luís foi a maior mobilização popular após o golpe de 1964, pois concentra mais de cinquenta mil pessoas em função da revolta contra o primeiro assassinato explícito da ditadura. Durante o cortejo, dá-se também um ato de repúdio ao imperialismo: em frente à antiga UNE foi queimada uma bandeira americana; no entanto, o jornal O Globo noticiou que havia sido queimada uma bandeira nacional, podendo esse fato ser considerado um símbolo dos interesses do regime militar.

 Conforme acontece a despedida de Edson Luís, aumenta a adesão popular ao enterro, oferecendo, até o final, provas substanciais da disposição política da população de participar daquele ato, apesar das estratégias autoritárias voltadas para que se abafasse a movimentação, como bem descreve “O Metropolitano”:

E a população continuava aderindo. No meio da Praia de Botafogo a noite já tomava conta do Rio. Apesar disso, as luzes continuavam apagadas. Era mais uma jogada sórdida e mesquinha, das muitas do mesmo quilate levadas a efeito pelas autoridades. No afã de impedir que o povo lesse os cartazes ou presenciasse o repúdio de uma parcela da população do Estado, o governo usou de todos os recursos, inclusive o de deixar a cidade às escuras. Mas, nada disso adiantou. Das janelas jornais eram jogados e em baixo, acesos. Outras pessoas, com lanternas iluminavam o caminho do cortejo. A adesão total do povo ficou aí patente. Mais de 20 mil pessoas, com jornais ou velas acesas, clareavam o caminho por onde se passava. Perto do Cemitério o silêncio passou a predominar. Murmurando o hino nacional e a Valsa do Adeus, os manifestantes chegaram no São João Batista. Em nenhum momento o significado político do ato que se realizava foi esquecido. Quando o caixão de Edson Luís desceu para sempre, ouviu-se um juramento: “neste luto, começa a luta”.[5]

Evidencia-se, assim, que houve uma resposta a um símbolo da manutenção de um sistema violento que encarna, naquele momento, as injustiças sociais. Portanto, para os estudantes, o extraordinário comparecimento da população no enterro de Edson Luís, além de expressar a revolta contra o seu assassinato, significa a repulsa às contradições do injusto sistema vigente.

A violência que mata um estudante, não sendo nem ao menos uma liderança subversiva que possa estar comprometendo a "tranquilidade nacional", transforma-se em um forte motivo para a adesão inclusive de setores das classes dominantes - “que podem ter seus filhos mortos” - ao repúdio à ação da PM.

A repercussão da morte de Edson Luís ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro. As manifestações estudantis confirmam, na prática, a opção pelo enfrentamento diante das investidas policiais. A violência emerge, assim, como aspecto distintivo dos protestos de rua, em 1968, tendo como marco o episódio da morte de Edson Luís.

Os dias seguintes

Os estudantes, apesar da determinação federal contrária, voltam às ruas no dia 1º de abril – aniversário do golpe de 64 –, atitude que serve de pretexto ao governo para justificar a repressão. Deste ponto de vista, a violência da PM e a intervenção das Forças Armadas são atos de “legítima defesa”, frente à ilegalidade desta passeata e às violências materiais praticadas por “agitadores profissionais” infiltrados no ME. Nota-se, mais uma vez, a tentativa das autoridades governamentais de atribuir caráter violento ao movimento estudantil.

Na missa de sétimo dia de Edson Luís, a fúria policial, respaldada pela ocupação da Guanabara pelas Forças Armadas, recai sobre toda a população indiscriminadamente. Sendo, então, a violência exercida apenas pela polícia, cai por terra qualquer argumentação no sentido de uma reação ao “ataque” dos estudantes.Percebe-se, então, como as decisões governamentais, neste momento, têm como forte referência as “agitações estudantis”. Embora o estado de sítio não venha, como pede a linha dura, a cassação da Frente Ampla é finalmente selada. A vinculação das atividades da Frente com as manifestações estudantis pelos militares, aparece, assim, como justificativa governamental para as suas ações repressivas. A solidariedade demonstrada pela Frente Ampla ao movimento estudantil, embora contribua decisivamente para a sua interdição por ordem do governo, continuará sendo rejeitada pela União Nacional dos Estudantes (UNE).[6]

JOSÉ GUIMARÃES

Os antecedentes

Em agosto de 1968, a comissão encarregada de apurar as responsabilidades pela morte de Edson Luís de Lima Souto chega à conclusão de que a Polícia Militar foi a autora dos disparos que o vitimaram. Neste mesmo mês, morre o estudante Manoel Rodrigues Ferreira, baleado na “sexta-feira sangrenta” pela PM no Rio de Janeiro, no dia 21 de junho. No dia 29 de agosto, um estudante é atingido com um tiro na cabeça pela polícia que invade a Universidade de Brasília, tornando-se “um testemunho mudo” da repressão à juventude brasileira.

Os últimos episódios estudantis do primeiro semestre refletem diretamente na dinâmica dos acontecimentos políticos a partir do início de agosto. A “sexta-feira sangrenta” assiste a verdadeiras “cenas de guerra” onde fica difícil identificar agressores e agredidos. Em contraponto, notamos na “passeata dos cem mil”, no dia 26 de junho, também no Rio de Janeiro, a necessidade de controle da violência tanto por parte dos estudantes, ao pedir que toda provocação da polícia seja evitada, quanto pela própria PM, ao ausentar-se da manifestação.

A partir de então o ME voltará às escolas para “acumular forças”, contrariando aqueles que defendem a continuidade do confronto com a repressão nas ruas. Tanto assim que no mês de julho várias faculdades são ocupadas pelos estudantes. É exemplar o caso da Faculdade de Filosofia da USP, que, tendo funcionado como “QG” da movimentação estudantil durante todas as férias, recusa-se a reiniciar as aulas em agosto por considerar a “universidade arcaica incompatível com a realidade brasileira”. Há um refluxo nas manifestações de rua e a volta às lutas reivindicatórias, centradas principalmente na preparação do 30º Congresso da UNE

A proporção atingida pela violência nos episódios estudantis de junho, levam o CSN, Conselho de Segurança Nacional, a se reunir em meados do mês seguinte. O relatório sobre as atividades do “movimento subversivo no Brasil”, apresentado pelo general Jayme Portella, define a postura a ser adotada pelo governo diante de qualquer agitação: a intervenção das Forças Armadas e a contundente disposição do governo para, a partir de então, reprimir as manifestações de rua. Embora não tenha sido ainda concretizada a ameaça de decretação do estado de sítio, em meados de agosto as Forças Armadas ocupam novamente a Guanabara.

No segundo semestre, o epicentro da polêmica se transfere para São Paulo. A duradoura ocupação dos estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, situada na rua Maria Antônia, intensifica a tradicional rivalidade com a universidade Mackenzie, que centralizava a direita paulista, localizada também na rua citada. Com a contribuição dos CCCs, Comandos de Caça aos Comunistas, os elementos repressivos exploraram a rivalidade entre as instituições de ensino, concentrando seus agentes no Mackenzie, o que culminou numa verdadeira batalha contra a Filosofia da USP. Do confronto, resultou-se a morte do secundarista Luís Guimarães. Em protesto, sob a direção de José Dirceu de Oliveira e Silva, então presidente da UEE-SP, os estudantes tomam novamente as ruas, em grandes proporções.

A “luta” da rua Maria Antônia, no dia 02 de outubro, tem início quando os universitários e secundaristas realizam pedágio com o fim de recolher fundos para a realização do XXX Congresso da UNE, sendo agredidos, então, com ovos e pedradas partidos do prédio do Mackenzie. Embora em uma “guerra” não haja como diferenciar “agressores” e “agredidos”, os jornais apontam para o “ataque” dos estudantes da Filo-USP, ressaltando sempre o comando de José Dirceu.

Já os alunos da Filosofia dizem que a iniciativa do conflito parte do “prédio do Mackenzie”, com o intuito de impedir a realização do Congresso. Contrapondo-se à versão da “imprensa”, que divulga os acontecimentos como uma rixa entre estudantes, afirmam que, embora no primeiro dia alguns mackenzistas sejam envolvidos na luta contra a USP, o CCC é o grande responsável pela agressão que, desta vez, é “revidada” pela Filosofia.

Todos os atos violentos praticados pelos alunos da Filo-USP são detalhadamente publicados pelos dois jornais paulistas: a formação de barricadas, a agressão a policiais que saem armados da Mackenzie, aprisionamento e tentativa de “linchamento” de um membro do CCC – portando uma arma –, ataque aos bombeiros que chegam para apagar os incêndios, o “poder de fogo” dos estudantes da Filosofia da USP. Enquanto, por outro lado, narram a destruição desta por ataques de bombas de gás lacrimogêneo, de coquetéis molotov vindos do Mackenzie como “revide” às tentativas de invasão. Mostram, em seguida, que, quando os alunos da Filo-USP tentam “atacar” o prédio adversário por trás, invadindo uma churrascaria, os mackenzistas mudam o alvo e passam a atirar rojões no meio da rua.

A morte

Neste momento, o secundarista José Guimarães é assassinado. A imprensa paulista consultada apenas constata que ele é atingido por um tiro, sem se pronunciar sobre a origem do mesmo. Os estudantes da Filosofia, por sua vez, culpam a polícia “que está no meio dos alunos do Mackenzie”. Diferentemente do crime de Edson Luís, a morte de José Guimarães parece não apenas deixar dúvidas quanto ao seu “assassino” como, na visão de alguns, depõe contra o próprio movimento estudantil.

O laudo da autópsia de José Guimarães, feita no IML, conclui que a autoria do crime é indeterminada. Em seguida do assassinato, os estudantes da USP saem em passeata para denunciar “mais um crime da ditadura”. Fernando Perrone, deputado do MDB em 68, participa desta passeata e, vinte anos depois, ao relatá-la, agrega informações sobre o possível assassino de José Guimarães:

(...) encontrei o velho prédio de Filosofia ocupado por policiais e bombeiros. A fumaça ainda saía pelas janelas. Na rua da Consolação fazia-se um ato de protesto. Aderi à passeata, subindo a rua. Zé Dirceu à frente, exibia a camisa ensanguentada de um secundarista, Luis Guimarães, assassinado por um membro do CCC. Anos depois, o sujeito a quem se atribuiu o tiro fatal (há fotos dele com a arma na mão) foi encontrado morto à tiros, à beira de uma estrada. Queima de arquivos? É importante notar que o grupo do CCC era ajudado e municiado por policiais, segundo inúmeros depoimentos de testemunhas.[7]  

Os estudantes enfatizam a conivência da ditadura militar tanto com a atitude da polícia quanto com organizações paramilitares, como o CCC. Novamente, há a promessa pelas autoridades de que se investigará a quem cabia a culpa; mas se sabe, desde o começo, que esse trabalho não será ferramenta de justiça, tendo em vista que, anteriormente, nada foi feito após a confirmação dos assassinos de Edson Luís.

Para os militares, a existência de grupos como o CCC ainda é uma necessidade, uma vez que facilitam a execução de alguns serviços sem prejudicar a suposta imagem democrática que as autoridades da ditadura insistem em afirmar, transferindo o ódio pelas ações repressivas que rondava exclusivamente sobre os governantes. Segundo a imprensa, houve participação ativa da Polícia na “briga”, e os membros do CCC comemoraram a vitória tomando chope. Em comentário proferido a jornalistas, o delegado Ítalo Ferrigno, chefe do DOPS, Departamento de Ordem e Política Social, de São Paulo, mostrou tranquilidade ao dizer: “Isso não foi nada, em comparação com o México. Lá morreram uns 25”.[8]

Os jornais paulistas enfatizam, também, ao descrever a passeata logo após a notícia da morte de José Guimarães, os “atos de vandalismo” praticados pelos estudantes, enquanto a ausência de repressão por parte da polícia é enaltecida, fato que contribui ainda mais para ressaltar a “violência dos estudantes”. A população que assiste à prisão dos estudantes e jornalistas, no entanto, revolta-se contra a agressão dos policiais. Durante os conflitos, as mães da “União Contra a Violência”, que têm filhos nas duas Escolas, são recebidas pelo governador Abreu Sodré, pedindo que este suspenda a ocupação policial de toda a área, pois temem que a polícia “piore as coisas”.

Abreu Sodré declara que, de sua parte, todos os esforços para a “conciliação dos estudantes” vêm sendo feitos. Para assegurar o patrimônio da Universidade Mackenzie, envia um “reduzido número” de guardas-civis, força policial sem caráter de choque, solicitado por sua administração. A mesma “proteção”, segundo o governador, é “impedida pelo grupo que está ocupando a Faculdade de Filosofia”. Permite a “mediação das mães” no “conflito entre estudantes” advertindo, contudo, que se houver incompreensão diante deste ato, o governo intervirá com todos os recursos disponíveis para a eliminação do mesmo.  

No final da tarde, o comando da Força Pública recebe ordens para enviar tropas para a ocupação da Faculdade de Filosofia e da Universidade Mackenzie. Enquanto os mackenzistas acolhem-nas com aplausos, os alunos da Filosofia ainda tentam montar uma barricada para impedir a sua ocupação, abandonando-a quando aumenta a proximidade dos policiais. Apesar da presença destes, os alunos do Mackenzie continuam atirando bombas molotov contra o prédio adversário. Não há mais ninguém no prédio da Filosofia. Os soldados impedem a entrada dos jornalistas no prédio do Mackenzie, mas deixam-nos ver o da Filosofia. Enquanto isso, os mackenzistas cantam o Hino Nacional e gritam vivas para o CCC.

O enterro

O enterro de José Guimarães é feito às pressas, a pedido de Abreu Sodré, para evitar a violência. Nova passeata toma as ruas de São Paulo da qual participam estudantes, mães, intelectuais, professores e artistas. Diferentes fontes de informações registram de 4 a 10 mil pessoas em protesto contra a morte de José Guimarães. A polícia reprime violentamente a manifestação utilizando-se de cassetetes, bombas, sabres e cães. Um menino é atingido por uma bomba e o jornalista de O Estado de S. Paulo, ao tentar socorrê-lo, é fortemente agredido por um soldado que, tomando conhecimento de sua identidade, trata-o por “cachorro”. Os estudantes apedrejam o City Bank, tentam impedir o avanço da Força Pública com rojões e foguetes, viram e incendeiam um carro da Polícia Rodoviária. As mães da “União Contra a Violência” participam da manifestação.

Alunos do Mackenzie contrários ao grupo conhecido por “tropa de choque” também comparecem à passeata organizada pelos estudantes da Filo-USP. Tal posicionamento, na visão dos estudantes da USP, continua “desmentindo” a versão da imprensa de que os episódios da Maria Antônia tenham sido uma "guerrilha de estudantes". Os professores da faculdade de Filosofia da USP divulgam um manifesto, denunciando publicamente que o conflito não é uma luta limitada a grupos de duas escolas, criticando a ação do CCC e da polícia.

Podemos demarcar uma significativa diferença em relação à morte de Edson Luís no primeiro semestre. Em torno de seu assassinato não restam dúvidas quanto à autoria da PM. Expressiva parte da população, carioca, indignada acompanha o seu enterro. O que não ocorre no sepultamento de José Guimarães, que é antecipado e acompanhado apenas por sua família e pela polícia. Na passeata em protesto contra a morte de José Guimarães os estudantes queimam viaturas policiais e depredam o “Citibank”. A violência por eles praticada repercute, então, desfavoravelmente ao movimento estudantil: a adesão de setores da população às suas manifestações não é mais a mesma.

José Guimarães, assim como Edson Luís, não é nenhuma liderança expressiva. Mas enquanto o primeiro é assassinado na hora do almoço em um restaurante universitário, onde inclusive trabalha, José Guimarães morre no momento em que recolhe “pedras” para ajudar os estudantes da Filosofia.

LUIZ PAULO CRUZ NUNES

Os antecedentes

A simultaneidade de acontecimentos estudantis e atos terroristas passa a ser enfatizada por autoridades militares e por órgãos da grande imprensa. No mesmo dia em que mais de mil estudantes são presos, em Ibiúna, é assassinado o capitão do Exército norte-americano Charles Chandler, em São Paulo.

O 30o Congresso da UNE, “clandestino”, é interditado em sua fase inicial no sítio Murundu, pertencente ao município de Ibiúna - cidade muito pequena do interior de São Paulo. Toda a movimentação dos estudantes nas suas proximidades deixa a população alarmada.

Como encontram-se presos estudantes de quase todo o país, O DOPS decide apurar a extensão do movimento para avaliar o “perigo que representa para a segurança nacional”. As autoridades militares responsáveis pelas investigações sobre o 30o Congresso da UNE voltam a ressaltar a orientação externa recebida pelo movimento estudantil e o seu envolvimento com o terrorismo.

Dentre os 720 estudantes presos, encontram-se cerca de 10 jornalistas. Luís Travassos, Vladimir Palmeira e José Dirceu, são encaminhados para o DOPS, onde é proibido o acesso da imprensa. Os três líderes estudantis estão com prisão preventiva decretada pelas auditorias de Guerra de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os demais estudantes ficam no Presídio Tiradentes, cuja população sobe de 500 para 1216 em apenas uma hora. A primeira providência da polícia é revistá-los para averiguar se estão portando armas. Em frente ao presídio, tem início uma mobilização da “União das Mães de São Paulo Contra a Violência” impedidas de manter qualquer contato com os estudantes.

Apesar da prisão dos principais líderes estudantis de todo o país, e por isto mesmo, explodem manifestações em diversos Estados. Em Salvador, Recife, Florianópolis, Belém, Maceió, Natal, Fortaleza, Ribeirão Preto, Campinas, Vitória, Belo Horizonte e Brasília voltam a ocorrer passeatas e comícios-relâmpagos em protesto contra as prisões de Ibiúna.

A “União das Mães de São Paulo Contra a Violência”, em vigília permanente, exerce relevante papel na luta pela libertação dos presos e na providência de alimentos, remédios e roupas, principalmente aos estudantes cujos pais não moram na capital paulista. A recepção dos familiares vindos de todas as partes do Brasil também é organizada pela “União das Mães”. E, unidos, intensificam o protesto contra as prisões de Ibiúna.

No Rio, a “União Brasileira de Mães” redige um manifesto com os seguintes dizeres:

“Os jovens estavam reunidos pacificamente, e isto não é crime. É um direito que a carta da ONU, na defesa dos direitos humanos, lhes assegura. Se tratavam da UNE, é um direito que a Suprema Justiça Brasileira lhes garantiu ao reconhecer que não é crime lutar pela volta da entidade”.[9]

É inegável, no entanto, a importância das manifestações ocorridas nacionalmente contra a prisão dos estudantes, quer por parte do ME, pais ou professores, para agilizar a libertação dos mesmos. Abreu Sodré diz que os detidos no Congresso de Ibiúna que já estão qualificados e não têm prisão preventiva serão soltos para não “aumentar mais a aflição de muitas famílias”.

A morte

No Rio de Janeiro, a passeata contra as prisões das lideranças estudantis é dispersada pela polícia. Não ocorrem prisões e um soldado é atingido por uma pedrada no rosto. Em seguida, começam os preparativos para o “Dia Estadual do Protesto”, que trará novas cenas de violência com a morte de mais um estudante - Luiz Paulo Cruz Nunes.

Dentre as atribuições do ME após a queda do 30o Congresso da UNE consta “identificar e dar tratamento aos movimentos extremistas, MAC e CCC, em suas infiltrações dentro das escolas”.

Os estudantes iniciam seu protesto com a realização de duas passeatas e várias assembleias internas. Após isso, deslocam-se para a porta do Hospital das Clínicas, onde inauguram a estátua “liberdade-68”. Sendo atacados a tiros por agentes do DOPS, refugiam-se no interior do hospital que funciona junto da faculdade de Ciências Médicas que é, então, totalmente cercado e invadido pelos policiais, assassinando Luiz Paulo.

No dia seguinte os estudantes, em passeata contra o assassinato de mais um colega, tomam as ruas do centro do Rio. O general Luís França de Oliveira - secretário de Segurança - ao declarar que não há como saber quem é o responsável pela morte de Luiz Paulo Cruz Nunes, diz também ter provas da orientação externa recebida pelo ME. Agentes do DOPS voltam a invadir o hospital das Clínicas, ameaçando com revólveres médicos e enfermeiros, embora esta informação seja também desmentida pelo secretário de Segurança.

O enterro

O enterro de Luiz Paulo é antecipado a pedido de sua família. Sua missa de sétimo dia é adiada. Um manifesto redigido por intelectuais, professores, estudantes, mães e artistas reflete a revolta contra este fato:

A missa rezaria pelos mortos. Mas não basta rezar pelos mortos. É preciso vingá-los. A melhor forma no momento é buscar um nível de organização mais profundo, para que possam ser travadas as lutas próprias de todos os setores. Há a ameaça de golpe. O sistema cada vez mais isolado tende a enrijecer-se: não suporta nem a missa pelos mortos. É importante continuar lutando e não se recolher passivamente diante desta ameaça. Só uma organização sólida poderá garantir-nos que a luta continue com cada vez mais gente, até que um dia se extirpem as causas da exploração e repressão ao povo brasileiro”.[10]

O policiamento ostensivo impede os protestos estudantis no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. As manifestações de rua não terão mais lugar em 68. Há o canto da vitória de um governo que acredita que, a partir de Ibiúna, o movimento estudantil está politicamente liquidado e que os estudantes voltarão para as suas atividades “normais”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos acompanhar esta dinâmica retomando a análise dos três assassinatos de estudantes praticados pela polícia. Edson Luís morre no interior de um restaurante universitário na hora do almoço. José Guimarães não era também um líder, mas estava “recolhendo pedras” para uma “guerra entre estudantes”. Assim também Luiz Paulo, não tendo nenhum destaque no interior do ME, morre dentro de um hospital, onde estudava, durante um protesto. Apenas o primeiro assassinato contou com manifestações bastante expressivas de diversos setores da população. Se o fato de José Guimarães ter sido morto em uma “guerra de estudantes” contribui para explicar a ausência da população, o mesmo argumento não cabe para a morte de Luiz Paulo, assassinado pela polícia, apesar da tentativa do secretário de Segurança da Guanabara de colocar sob suspeita todos os presentes na manifestação, onde havia “elementos estranhos” portando armas. O aumento da repressão num contexto polarizado pelos extremismos de direita e de esquerda, onde os estudantes são identificados com os “subversivos” e “ terroristas” que assaltam bancos para a “guerrilha” e matam militares esclarecem melhor as exíguas repercussões deste último assassinato. 

A repressão, que no primeiro semestre aglutina a população contra o governo, agora, se não conta com o apoio da mesma, não recebe mais a sua contestação. A expressiva mobilização das mães tanto no Rio quanto em São Paulo contribui para acelerar a libertação dos estudantes presos em Ibiúna. Mas como um movimento por uma causa específica: seus filhos. O comparecimento da massa às manifestações contra a ditadura vinha esvaindo-se desde a “guerra da Maria Antônia”. Os estudantes “indefesos” passam a ser vistos como “perigosos líderes”, “subversivos”, engrossando o “radicalismo de esquerda”. A insegurança e o clima de pânico gerados pela indefinição da autoria dos atentados terroristas e assaltos a bancos leva a imprensa a veicular que a população está acuada, suspeitando de todos.

A promessa feita pelas autoridades militares é que a repressão será mantida. O inquérito policial do 30º Congresso da UNE, lavrando o flagrante dos estudantes presos em que figuram separadamente, por um lado, os líderes do ME e, por outro, aqueles de menor participação política. Como vimos, os estudantes parecem recuperar o fôlego, voltando às ruas pela libertação de seus presos. Contudo, sem o apoio da população, de parte da imprensa e, com o aumento ostensivo da repressão, o movimento estudantil, enquanto movimento de massas, está fora do processo revolucionário. Aqueles que pretendem prosseguir deverão trilhar outros caminhos.

A opção do ME pelo enfrentamento, no entanto, é consenso em 68. A partir do episódio da morte de Edson Luís notamos que há um entrelaçamento entre a violência proposta pelo movimento estudantil e a que reage aos acontecimentos à medida que o imprevisto irrompe na história. As lideranças estudantis interpretam e modelam suas visões diante do “fato novo”. Leem a inesperada adesão popular contra a repressão policial – que do ponto de vista do movimento estudantil explicita o caráter ditatorial do governo Costa e Silva, representante do capitalismo – como a viabilidade da derrubada do regime. Portanto, é chegada a hora da utilização da violência. As discussões internas quanto às táticas para a sua utilização são trazidas à tona pelas lideranças estudantis.

Demoraram anos para que a liberdade fosse revivida no país, mas as experiências do movimento estudantil serviram de exemplo – ou, ao menos, deveriam servir – para que não se apague a chama do sonho democrático no solo do Brasil.



 
[1] VENTURA, Zuenir. 1968 - O Ano Que Não Terminou: A Aventura de uma Geração. Rio de Janeiro, Círculo do Livro, 1988, p.103.
[2] PORTELLA de MELLO, A Revolução e o governo Costa e Silva, Rio de Janeiro, Guavira, , p.537.
[3] Correio da Manhã, 29/03/68, p.1. ("Polícia militar mata estudante").
[4] Idem, ibidem, p.6. ("Assassinato").
[5] O Metropolitano, órgão oficial da UME, Rio de Janeiro no7, abril de 1968, mimeo, p.6. ("Enterro").
[6] Ver COELHO, Cláudio Novaes Pinto. “A Transformação Social em Questão: as práticas sociais alternativas durante o regime militar”. São Paulo, USP, tese de doutorado, 1990, mimeo, pp.41 e 58
[7] PERRONE, Fernando, Praga - São Paulo - Paris: Relato de Guerras, São Paulo, Busca Vida, 1988, p.126.
[8] Jornal do Brasil, 5/10/68.
[9] Apud Folha de S. Paulo, 05/10/68, p.12. (“Professores, intelectuais e MAF manifestam-se contra a violência”)
[10] Apud Folha de São Paulo, 31/10/68, p.11. (“DOPS vigia Igreja mas missa é adiada”)



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