Política

A Crise Brasileira, de Carlos Marighella

04/11/2009 00:00

Edileuza Pimenta de Lima (*)

"Sempre que houve avanço, conquista de direitos sociais e progresso, combate ao imperialismo e ao latifúndio, isto se deveu preponderantemente à presença atuante do proletariado".

Essa frase está contida em A Crise Brasileira, obra escrita por Carlos Marighella em 1966 que, além de analisar, à luz da teoria marxista-leninista, a realidade do país naquele momento, evidencia suas divergências em relação às teses que vinham sendo adotadas pelo Partido Comunista Brasileiro.

Essas divergências levariam ao seu rompimento definitivo com o partido no ano seguinte e a sua opção pela luta armada de resistência à ditadura militar. Marighella fundou a Ação Libertadora Nacional, que congregava mais do que comunistas oriundos do PCB, contava também com pessoas de diferentes matrizes ideológicas, objetivando, antes de implantar o socialismo, derrubar a ditadura e instituir um governo antiimperialista, anti-latifundiário, nacional e democrático.

Ao defender a luta armada de libertação nacional, Marighella falava do perigo de os marxistas, seguindo uma estratégia norteada pelo caminho pacífico, "ajudarem a transformar o Brasil num país social democrático, exercendo em nome dos Estados Unidos o papel de freio do movimento de libertação da América Latina" . Ele não poderia ser mais atual, pois, se tivesse sobrevivido à sanha assassina do regime instaurado a partir do golpe civil-militar de 1964, Marighella analisaria o fenômeno recente da guinada à esquerda da América Latina, por meio da ascensão do nacionalismo revolucionário em países como Venezuela e Bolívia, criticando o modelo brasileiro que, apesar de todas as condições objetivas (com destaque para a eleição de um presidente operário) não consegue avançar politicamente em direção ao programa que ele preconizava para o Brasil:

"governo revolucionário do povo, expulsão dos norte-americanos, expropriação do seu capital e dos que com eles colaboram, expropriação do latifúndio, libertação e valorização do homem brasileiro pelo caminho socialista" .

Se em 1967 Marighella aderiu à Organização Latino-Americana de Solidariedade, hoje suas idéias poderiam contemplar aos adeptos da Alternativa Bolivariana para as Américas, pois, segundo enunciou em outro documento, o Chamamento ao Povo Brasileiro, de dezembro de 1968, entre algumas das medidas populares previstas para serem executadas com a vitória da revolução, estaria a seguinte: "tornaremos efetivo o monopólio estatal das finanças, comércio exterior, riquezas minerais, comunicações e serviços fundamentais" , plataforma que vem sendo posta em prática nos países da ALBA a despeito de toda a reação que vem despertando.

Em A Crise Brasileira, Carlos Marighella considerava que "a aliança dos proletários com os camponeses é a pedra de toque da revolução brasileira" e tinha uma preocupação especial com a questão da reforma agrária, tema que está na ordem do dia. Além defender o fim do latifúndio, Marighella sugeria como forma de luta "invadir as terras devolutas e as terras loteadas pelos fazendeiros ou grandes companhias agrícolas" , posição por ele evidenciada em outro documento, Alocução sobre a guerrilha rural, de outubro de 1969, no qual percebe-se que Marighella radicalizou seu programa para o campo após o aborto da tentativa de implantação das reformas de base, passando a defender, por exemplo, que "as plantações dos fazendeiros devem ser queimadas, o gado dos grandes pecuaristas, dos frigoríficos e das invernadas deve ser expropriado e abatido para matar a fome dos camponeses" .

Após 40 anos de sua morte, o pensamento de Carlos Marighella permanece vivo. Há décadas ele dizia que as elites brasileiras já tinham mostrado seu fracasso, e que uma estratégia revolucionária deveria levar em conta a separação entre o partido do proletariado e os partidos da burguesia. É justamente isso o que falta ao país. Marighella sempre soube que "o segredo da vitória é o povo" .

(*) Nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de novembro de 1984. É mestre em História Social pela UFRJ, estuda a Ação Libertadora Nacional e é co-autora da biografia "Virgilio Gomes da Silva: De retirante a guerrilheiro".


Conteúdo Relacionado