Política

A Europa e os náufragos da esperança (I)

Acontece uma assombrosa tragédia nas águas do Mediterrâneo, mas para a Europa um turista é um estrangeiro especial e um refugiado é um indesejável.

20/05/2015 00:00

Wikipedia

Créditos da foto: Wikipedia

Agora em maio, e depois de 17 anos, voltei a Lisboa. A cidade mudou muito, e para melhor. A luz é a mesma de sempre, belíssima nesta época do ano. Mas a paisagem humana é outra: os homens já não são taciturnos, as moças são mais belas. Lisboa é uma cidade arejada, que se modernizou sem exageros, sem perder a serena melancolia de sempre, só que agora mesclada com cores juvenis. Por onde andei em Portugal, tropecei com estrangeiros. Lisboa, Porto, Braga, eles estão em todo lado, e são multidão.
 
Aliás, esse insólito fluxo de turistas – o número de estrangeiros visitando Portugal mais que dobrou em menos de cinco anos – é essencial para ajudar a agüentar o duro preço da crise, imposto pelas medidas da União Européia.  Em 2014, cerca de 16 milhões de estrangeiros deixaram 28 milhões de euros por dia no país. Dez bilhões de euros, o suficiente para cobrir 80% do déficit da balança comercial de bens do país.
 
Estrangeiros também são especialmente bem-vindos na vizinha Espanha, um dos campeões mundiais de turismo. Em 2014, 65 milhões de estrangeiros deixaram uns 63 bilhões de euros. O número de turistas superou, com folga, a população do país, que ronda a casa dos 45 milhões de habitantes. Aliás, esses visitantes são responsáveis por mais de 10% do PIB espanhol.   
 
Na Europa, só a França recebe mais estrangeiros que a Espanha: 84 milhões em 2014, que asseguraram ao país o título de campeão mundial de turismo.
 
A Itália é outro país que não pode se queixar: 45 milhões de visitantes estrangeiros no ano passado. Também lá, o turismo responde por 10% do PIB, além de propiciar empregos diretos e indiretos a dois milhões de italianos. É o quinto país mais visitado do mundo.
 
Há outros países, é claro, que adoram receber estrangeiros, como a Alemanha e a Inglaterra, que ocupam a sétima e a oitava posição entre os campeões mundiais de turismo.
 
Somados os estrangeiros que em 2014 visitaram essa meia dúzia de países, deixando bilhões e bilhões de euros, chega-se a uma população maior que a do Brasil.
 
Existe, porém, outro tipo de estrangeiro, que vem ocupando espaço cada vez maior nas iniciativas dos governos europeus: os que se lançam, desesperados, às águas do Mediterrâneo, fugindo da fome, da miséria, da violência, do desespero. Fugindo da guerra, fugindo da morte.
 
E aí, a história muda. É gente que vem da Síria em guerra, da Líbia esfacelada, de países em turbilhão. A maioria chega e pede asilo. Mas também se contam aos milhares os que entram clandestinos e clandestinos ficam, na esperança não de uma vida melhor, mas de uma vida.
 
Há os que não conseguem jamais pisar terras européias: naufragam no Mediterrâneo em embarcações precárias, atopetadas de gente. Suas esperanças ficam enterradas, para sempre, nas águas.
 
Só nos primeiros meses de 2015 mais de dois mil morreram na travessia. Suas mortes foram tantas, que a União Européia resolveu tomar medidas urgentes. Afinal, não é nada agradável ver isso acontecer na frente das mesmas praias que daqui a pouco, no verão europeu, receberão aqueles outros estrangeiros, os tão bem-vindos turistas.  
 
Atônitos diante da chegada crescente desses estrangeiros desclassificados – não querem turismo, querem fugir do horror e da morte – os governos europeus resolveram tomarmedidas urgentes.
 
Num primeiro momento, foi feita uma divisão, estabelecendo as cotas de asilados que cada país integrante da União Européia deverá receber. E começou a confusão.
 
A Inglaterra, por exemplo, oitavo país a mais receber turistas em todo o mundo, disparou, veloz: não receberá um único asilado. Outros países foram logo dizendo que já fazem muito esforço para acolher refugiados, e que novas cotas terão de ser cuidadosamente estudadas.
 
Acontece uma assombrosa tragédia nas águas do Mediterrâneo, com dezenas de milhares de pessoas arriscando o que lhes resta de vida em busca de alguma esperança, atopetando embarcações precárias, e os países europeus discutem porcentagens.
 
Há, enquanto isso, outro foco de perversidade: os refugiados, os desesperados, abandonam o litoral africano e entregam seus destinos nas mãos de quadrilhas de contrabandistas de gente. Os preços cobrados pelos bucaneiros da esperança variam de acordo com o grau de desespero de quem quer fugir do inferno. Custa caro fazer a viagem que tanto poderá levar para a terra da promissão como para o fundo eterno das águas.
 
A primeira medida concreta adotada pelos humanistas da União Européia foi dirigida precisamente contra os donos dessas embarcações. Na segunda-feira, 18 de maio, foi aprovada a criação, com urgência, de uma operação naval para combater o que se chamou de ‘tráfico de pessoas’ pelo Mediterrâneo. Alemanha, França, Itália, Espanha e o solene Reino Unido se comprometeram a enviar navios de guerra.
 
O primeiro passo da operação será estruturar um serviço de inteligência para detectar as rotas e os responsáveis pelo tal ‘tráfico de pessoas’ no norte da África. O segundo, inspecionar as embarcações. O terceiro: destruir todas elas.
 
Parece que não se pensou no óbvio: quanto menos embarcações houver, mais pessoas lotarão as que sobrarem. Se agora as que navegam já estão atopetadas, é fácil calcular como estarão as que conseguirem escapar da tal operação naval.
 
Mas essa questão – a dos desesperados –, fica para outra discussão, a das tais cotas.
 
O importante agora é correr contra o tempo: afinal, vem aí o verão europeu. É quando engrossam de maneira formidável os contingentes daquele outro tipo de estrangeiro, o ansiosamente esperado: o dos turistas.
 
Para esta Europa de hoje, um turista é um estrangeiro especial. Já um refugiado é um estrangeiro indesejável.
 





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