Política

A ambiguidade das praças francesas

Faz muito mais sentido buscar as origens da violência fundamentalista nas formas coloniais adotadas pelo Ocidente do que em uma passagem ou outra do Corão.

12/01/2015 00:00

Valentina Calà / Flickr

Créditos da foto: Valentina Calà / Flickr

Na imprensa italiana, as únicas palavras equilibradas nessa torrente de declarações de horror e angústia italiana pelo assassinato dos cartunistas e do diretor da Charli Hebdo foram escritas por Massimo Cacciari, reorientando a questão para sua dimensão temporal e política. Não faltou ambiguidade à grande emoção e aos protestos que chegaram rapidamente, e de modo espontâneo, às praças francesas. Foi possível manifestar legitimamente, e quase acolhendo o convite do presidente Hollande, o rechaço ao fundamentalismo e a defesa da República, bem como o “não” aos problemas decorrentes da grande imigração muçulmana na Europa – facilitada, na França, pela famigerada colonização francesa no norte da África e no Oriente Médio.

Durante muitas décadas, nós nos esquecemos de que foi um acordo entre um alto funcionário inglês, Sykes, e outro francês, Picot, que originou o desenho repartindo o império otomano entre França e Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha conseguiu posteriormente se impor e, ainda mais recentemente, prevaleceram as políticas dos Estados Unidos. Mas as recentes decisões tomadas por Hollande de intervir no Nordeste Africano e na África Central restauraram, sem querer, a imagem de uma glória colonial que alenta Marine Le Pen. igualmente, as palavras do presidente Hollande logo após o atentado, pedindo a todo o país unidade contra o terrorismo, pareceram legitimar a petição da Frente Nacional para participar da grande manifestação oficial antifundamentalista do último domingo (11), o que suscitou certo embaraço, tendo em vista o impulso com que Marine Le Pen anunciou sua participação. Não se pode, de fato, levar adiante duas políticas opostas – acariciar velhas e injustificáveis tendências coloniais e defender os valores republicamos –, tal como fez o governo socialista em sua intenção de empregar um elemento para distrair o descontentamento popular com temas relacionados a direitos dos trabalhadores e política econômica.

O lema “Je suis Charlie” manifestava de modo eficaz o apoio a uma revista que não é nem de enorme difusão, e que em geral não faz gentilezas à Frente Nacional. Pode-se discutir sobre um tema já vulgarizado na Itália, tal como a imunidade política da sátira, hoje aparentemente defendida por todos. As famosas charges dinamarquesas contra Mohammed deu à Charlie Hebdo uma maior difusão ao acentuar um ateísmo até muito esperado, mas que não há de se identificar com o desprezo aos crentes: “Merda a todas as religiões”, havia escrito e publicado na capa da revista. À incapacidade da esquerda de levar argumentos laicos ao centro da opinião pública, e de responder à demanda que hoje têm especialmente alguns monoteístas e o budismo, ainda que sejam bastante diferentes, correspondeu a indulgência em formas fáceis de caricatura, que seguramente ofenderam milhões de muçulmanos na Europa. Basta pensar como essas charges seriam acolhidas se fossem aplicadas nominalmente a Jesus Cristo. Não acredito que seja útil relegar aos caricaturistas uma tarefa que, por sua natureza, querendo rir de todas as formas de fé, não podem exercer: é como arremessar um fósforo a uma lata de gasolina. É justa a debilidade da esquerda depois de 1989 produzida por este forte renascimento das religiões.

Em relação à religião muçulmana, como não se perguntar por que seu fundamentalismo – que parecia ter sido excluído pela organização não piramidal de suas igrejas – se acabou nessa forma mortífera, particularmente hoje. Mohammed existe desde o século VII e, desde então, a atitude do império otomano, por exemplo, em relação aos judeus, foi muito mais tolerante e tendendo à assimilação de que a Igreja Católica, que impulsionou as cruzadas, foi coberta com maldições e impropérios, mas sem que levassem a qualquer Jihad, e o famoso “feroz Saladino” era um interessante pacifista. O extremismo de matar a todos os infiéis ao profeta pertence aos nossos dias, e faz muito mais sentido buscar suas origens nas formas coloniais e não-coloniais adotadas pelo Ocidente do que em uma passagem ou outra do Corão.

Um fenômeno não menos importante tem a ver com a fascinação exercida pelas formas extremas de milícia, que chegam inclusive a considerar a própria morte como “martírio”, sobre jovens ocidentais que chegam à Síria ou a outros lugares para os quais se alistam nas fileiras de mestres do fundamentalismo. O tão proclamado final das ideologias parece ter deixado de pé apenas o absolutismo de algumas minorias muçulmanas, como precisamente a Jihad e, de modo particular, o recente Daesh, isto é, o Estado Islâmico representado pelo chamado Califado de Al Baghdadi.

Entre nós, já se manifesta a vontade de condenar quem parece se inspirar nisso, um erro do qual fará falta se precaver. Em resumo, a fascinação do islamismo radical corresponde à estupidez com que a cultura predominante no Ocidente parece tratar a necessidade de um “sentido” que não se reduz ao dinheiro, e que os aspectos ideológicos da globalização tentaram obscurecer. Grande problema de nosso tempo e que é inútil exorcizar.
 

Rossana Rossanda é membro do Conselho Editorial – SinPermiso



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