Política

A crise do coronavírus pode levar a um novo modo econômico de pensar

O colapso de 1929 incitou uma transformação. Ideias como uma renda básica universal sugerem que o Covid-19 possa fazer o mesmo

24/03/2020 12:01

O que mudou a economia não foi a I Guerra Mundial, e sim Wall Street, mais de uma década depois (Icon Communications/Getty Images)

Créditos da foto: O que mudou a economia não foi a I Guerra Mundial, e sim Wall Street, mais de uma década depois (Icon Communications/Getty Images)

 
Rishi Sunak diz que as medidas anunciadas por ele para apoiar a economia não têm precedentes em tempos de paz, e ele está certo. Nunca antes o Estado britânico concordou em pagar os salários das pessoas que estão em risco de perder seus empregos. Nunca antes o governo ordenou o fechamento dos pubs.

O chanceler não é o único a ver a luta contra a pandemia do coronavírus como semelhante a uma operação militar. Boris Johnson vê o momento como o verão de 1940, ele mesmo sendo Churchill.

Lembrar da 2ª Guerra Mundial é inevitável, tendo em vista o quanto a Grã-Bretanha é influenciada por um evento que terminou há 75 anos atrás, mas há algumas diferenças importantes.

A principal é que entre 1939 e 1945 a economia estava a todo vapor. Foi necessária uma batalha contra Hitler para, finalmente, erradicar a alta taxa de desemprego dos anos 20 e 30. A Grã-Bretanha tinha pleno emprego e teria uma crescente inflação não fossem o racionamento e o controle de preços.

Contraste isso com os dias de hoje. Possuímos, ainda, somente estimativas do provável baque do COVID-19 na economia, mas elas vão de muito ruim à catastróficas. A consultoria Capital Economics estimou uma queda de 15% na produção no segundo trimestre de 2020 e disse que pode chegar a 20%.

Ao invés de a produção estar aumentando, está sendo reduzida. Existem alguns setores em que a atividade está crescendo – produção alimentícia e assistência médica – mas esses aumentos serão atingidos pela falta de produção nos outros setores. Cerca de um terço dos trabalhadores do Reino Unido são de empregados dos setores mais afetados pela pandemia: restaurantes, varejo, bars, pubs, boates, hotéis, cinemas, teatros, academias, esportes – e todos estão fechados, possivelmente ficarão por meses. Não estamos em 1940, com as fábricas trabalhando sem parar. É mais como um bombardeio que ataca as pessoas, mas deixa os prédios intocados.

Diferentemente de 1940, não é apenas uma questão de esperar até que os estadunidenses se envolvam. Os EUA nunca correram o perigo de uma invasão e foram capazes de colocar sua enorme economia em uma guerra.

Mas os EUA não são imunes ao coronavírus. Ao contrário, vão sofrer severamente. Isso em parte porque Donald Trump estava em negação quanto aos riscos, em parte porque o sistema público de saúde é muito pobre e em parte porque a rede de segurança social é fraca. Tendo em vista seu tamanho e seu lugar no coração do sistema financeiro global, os EUA ainda terão um papel importante em qualquer recuperação, mas o número de empregos perdidos enquanto grandes partes da economia entram em hibernação será colossal. O país está, atualmente, onde estava em 1930, quando filas de doações se alongavam depois da quebra da bolsa, ao invés de estar em 1940 com um estado mais robusto.

Esses paralelos com a 2ª Guerra Mundial precisam ampliar suas perspectivas. Um modo de observar os eventos de hoje é ver os 15 anos antes da crise financeira de 2007-08 como o equivalente aos anos que levaram à 1ª Guerra Mundial. Apesar de ter parecido um período próspero e pacífico – o chamado longo verão eduardiano – as coisas não era tão benignas quanto pareciam. O equilíbrio global do poder estava mudando, e havia inquietação política e um conflito de classe crescente. Os primeiros poucos anos do século 21, marcados por crescimento movido por dívidas e anarquia do mercado financeiro, eram ilusórios da mesma forma.

A crise financeira destruiu o clima de complacência assim como o surto da guerra fez em 1914. Vencer a batalha em ambos os casos provou ser mais difícil do que o esperado, e em ambos os casos houve uma tentativa, quando a vitória havia sido declarada, de voltar ao “negócios de sempre”: orçamentos equilibrados e uma volta ao padrão de ouro nos anos 20; orçamentos equilibrados, crescimento movido à dívidas e especulação financeira em 2010.

Mas voltar o relógio se provou algo impossível. O descontentamento político e a raiva cresceram enquanto as economias pelejavam. A confiança no processo democrático se desgastou. Havia pouca cooperação internacional.

Então, cerca de uma década e meia depois em ambos os casos, houve um segundo choque: o colapso da bolha financeira em 1929; a epidemia de COVID-19 em 2020. Se a história é guia, é o segundo choque que torna a mudança fundamental possível.

Quatro grandes coisas aconteceram nos anos 30 e 40. Primeiramente, a velha economia foi abandonada. Os países saíram do padrão de ouro e os estados começaram a fomentar o crescimento, embora timidamente na maioria dos casos. A teoria geral de Maynard Keynes inspirou uma geração inteira de economistas e legisladores.

Em segundo lugar, houve uma tentativa de injetar capital nas economias através de poder fortalecido por meio dos sindicatos, taxações progressivas e a expansão do estado de bem estar social.

Em terceiro lugar, o trabalho começou cedo nessa agenda progressista. Na Grã-Bretanha, o relatório Beveridge, o Ato Educacional Butler e o papel branco na política empregatícia, todos emergiram enquanto a 2ª Guerra acontecia.

Finalmente, houve tentativas de construir uma nova arquitetura internacional por meio da criação da ONU, do FMI e do Banco Mundial, que foi criado com a intenção de evitar a fragmentação política dos anos 30.

O quão perto estamos de uma repetição disso tudo? Considere, um modelo que falhou não somente uma vez, mas duas, foi descartado. Os governos estão reconhecendo que têm que apoiar seus cidadãos nisso tudo. Novas ideias como renda básica universal estão sendo defendidas, e sem cooperação multilateral não haverá vitória contra o COVID-19. Sunak está certo. Isso é diferente, talvez mais imprescindível do que ele pensa.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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