Política

A culpa é do porteiro?

Ministério Público atua com rapidez para tentar ilibar o presidente Jair Bolsonaro de qualquer vínculo com o caso Marielle. ''O porteiro mentiu'', afirmam as procuradoras. Mas nada garante que as gravações não tenham sido adulteradas

03/11/2019 13:25

Entrada do condomínio onde moram o presidente Jair Bolsonaro e também Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle Franco (Reprodução)

Créditos da foto: Entrada do condomínio onde moram o presidente Jair Bolsonaro e também Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle Franco (Reprodução)

 

O Ministério Público do Rio de Janeiro, que investiga o assassinato de Marielle Franco, apressou-se a afastar a possibilidade de envolvimento do presidente Jair Bolsonaro ou de um seu familiar no crime. Pouco mais de 24 horas depois de uma reportagem da rede Globo ter mostrado como o nome do presidente aflorou nas investigações, as três procuradoras responsáveis pelo caso deram uma conferência de imprensa descartando esse vínculo.

A reportagem da Globo afirmara que poucas horas antes do assassinato de Marielle, o homem que serviu de motorista, Élcio Queiroz, dissera ao porteiro do condomínio onde mora Ronnie Lessa, acusado de ter feito os disparos que mataram Marielle e o seu motorista Anderson Gomes, que ia à casa de Jair Bolsonaro, que reside no mesmo condomínio; pelo telefone interno, o porteiro terá pedido autorização para a entrada, e recebeu-a de alguém que identificou, pela voz, como o “seu Jair”; ao verificar que o visitante, porém, não se dirigia à casa de Bolsonaro, telefonou de novo, e ouviu “seu Jair” dizer que sabia onde ia o visitante.

No livro de registo das entradas e saídas, o porteiro anotara o destino do visitante como sendo a casa 58, de Bolsonaro, e não a 66, de Ronnie Lessa. A reportagem assinalava a contradição do depoimento do porteiro com o facto de que naquele dia Bolsonaro estava em Brasília, tendo registada a participação em duas votações na Câmara dos Deputados.

As procuradoras afirmaram, porém, que a análise dos registos em áudio das comunicações entre a portaria e as residências demonstrou que quem autorizou a entrada de Élcio Queiroz no condomínio foi o próprio Ronnie Lessa, desmentindo os dois depoimentos dados pelo porteiro. “O porteiro mentiu”, concluíram as procuradoras, corroborando a intervenção destemperada do presidente numa live através da Internet emitida da Arábia Saudita, onde se encontrava em visita oficial.

Lessa e Queiroz estão presos, acusados de serem a dupla que cometeu o crime: Élcio conduziu o carro e Ronnie disparou os tiros fatais.

O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, veio também em socorro do presidente, afirmando que o caso era um “factóide” e que já fora arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Perguntado quando ocorrera o arquivamento, respondeu: “Provavelmente hoje”, isto é, naquela quarta 30 de outubro. Recorde-se que Augusto Aras foi nomeado por Bolsonaro fora da lista tríplice formada pelos procuradores, de onde habitualmente é escolhido o nome do Procurador-Geral da República.

Cada vez mais estranho

Caso encerrado? Longe disso. Vejamos:

A perícia das comunicações entre a portaria do condomínio e as residências no dia do assassinato de Marielle foi feita com base nos arquivos de áudio fornecidos pelo próprio condomínio. Não foi acautelada a possibilidade de esses registos terem sido previamente alterados. Não seria difícil tê-lo feito, já que o próprio Carlos Bolsonaro, filho do presidente, que também mora no mesmo condomínio, exibiu uma lista das comunicações daquele dia em que não aparece nenhum contacto com a residência 58, mostrando assim que teve acesso aos ditos registos. Teria sido bastante fácil, por isso, alterar e adulterar os registos.

Mas os peritos da polícia carioca não fizeram a sua análise nos equipamentos da portaria, limitando-se a trabalhar sobre as gravações fornecidas.

Mais: de acordo com uma reportagem do Estado de S, Paulo, a perícia às gravações só foi feita um dia após a divulgação do caso pela Globo, e ficou pronta em cerca de 2h25. “A análise das conversas entre um funcionário da portaria e moradores da casa 65/66 foi solicitada oficialmente às 13h05m11s desta quarta-feira, 30. Por volta das 15h30, após a perícia, o Ministério Público (MP) afirmou que o porteiro mentiu”, diz a reportagem. Ora a polícia já tinha as gravações desde o dia 14 de outubro. Por que a análise não foi feita antes?

Outro dado importante é que Jair Bolsonaro já sabia, pelo menos desde o dia 9 de outubro, que o seu nome aparecera nas investigações do caso Marielle. Foi o próprio Bolsonaro que o admitiu, afirmando ter recebido a informação do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a quem acusou de ter passado a informação para a Globo. Witzel negou, mas ambos foram vistos por um jornalista da Folha de S. Paulo conversando de forma aparentemente exaltada, devido às gesticulações, no Clube do Exército em Brasília, nesse mesmo dia 9.

Depois disso, as reuniões sucederam-se. No dia 16 de outubro, Bolsonaro recebeu o presidente do STF, Dias Toffoli, no Palácio do Planalto. No dia seguinte, Toffoli recebeu representantges do Ministério Público do Rio, que o informaram de que o nome de Bolsonaro aparecera nas investigações do caso Marielle.

No dia 19, Bolsonaro recebeu o Procurador-Geral da República e conversou com o seu advogado, antes de partir na sua viagem oficial.

Diante desta cronologia, parece claro que a indignação de Bolsonaro na live da Arábia Saudita já fora estudada há um bom tempo. E que não teve nada de espontâneo.

O possível envolvimento de Bolsonaro no assassinato de Marielle não está, assim, definitivamente afastado. Na verdade, o mistério adensa-se ainda mais.

Muitas perguntas sem resposta

O El Pais edição do Brasil lista uma série de perguntas e respostas pertinentes e que ainda não obtiveram resposta. Por exemplo: por que o porteiro teria mentido, em dois depoimentos sucessivos? Segundo investigação desse jornal online, o porteiro que depôs trabalhava no condomínio há muitos anos. Sabendo ele que se tratava de um caso tão grave, que poderia pôr em risco a própria vida, porque iria mentir, sabendo que seria desmentido pelos áudios? Segundo o mesmo jornal, o porteiro está de férias e ainda não regressou ao trabalho.

Outro facto veio ainda pôr em maiores dúvidas a investigação do caso Marielle Franco. O The Intercept Brasil apurou que uma das três procuradoras do MP do Rio, Carmen Eliza Bastos de Carvalho, foi apoiante de Bolsonaro nas eleições, posando de t-shirt do candidato e afirmando depois da sua vitória, num post em rede social: “estamos libertos do cativeiro esquerdopata". Na posse do novo presidente escreveu que há anos não se sentia tão emocionada. Outra foto mostra-a abraçada ao deputado estadual Rodrigo Amorim, do PSL, um dos responsáveis por rasgar uma placa com o nome de Marielle Franco, colocada como homenagem após a sua morte.

Dois dias depois, houve manifestações em S. Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e Porto Alegre pedindo o esclarecimento do caso, nomeadamente a identificação e punição do mandante do crime. No dia 5, novas manifestações estão convocadas “Contra o desgoverno de Bolsonaro; por justiça para Marielle Franco; por democracia e direitos; pela cassação de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)”, diz a convocação.

Filho do presidente defende o AI-5

O pedido de cassação (perda do mandato parlamentar) de Eduardo Bolsonaro tem a ver com a defesa que o deputado fez do Ato Institucional nº5, o AI-5, que marcou, em dezembro de 1968, o endurecimento da ditadura militar instaurada em 1964, tendo como consequência a perda de mandatos de parlamentares de oposição ao regime, a suspensão de quaisquer garantias constitucionais, como o habeas corpus, o encerramento do Congresso Nacional e dos legislativos estaduais.

A entrevista dada pelo “filho 03” a um canal do Youtube causou indignação e repúdio não só da esquerda, mas também do presidente do Congresso, Rodrigo Maia, do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de dois juízes do STF, de instituições como a Ordem dos Advogados, da Associação Brasileira de Imprensa, ou da Amnistia Internacional.

A pressão foi tão grande que o próprio presidente foi forçado a intervir: “A gente lamenta essa notícia, em parte distorcida, mas meu filho está pronto para se desculpar, tendo em vista ter sido mal interpretado", disse Jair Bolsonaro.

Foi a senha para a retratação do filho: “Eu peço desculpas a quem, por ventura, tenha entendido que eu estou estudando o retorno do AI-5 ou a quem achou que o governo estudava alguma medida nesse sentido”.

*Publicado originalmente em Esquerda.net

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