Política

A diferença entre conservadores e reacionários: o centro e a direita no Brasil

Diante da polarização direita x esquerda em curso na sociedade brasileira, o centro conservador ressurge, conspira e prepara o retorno à ordem política

07/04/2016 00:00

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Termos equiparados no senso comum contemporâneo, conservadorismo e reacionarismo apresentam, no entanto, trajetórias distintas na história das ideias. A ideologia conservadora, em especial, é detentora de um debate interno muito rico.
 
Dentre muitas dinâmicas, diversos “tipos ideais”, abrangidos pelo termo conservadorismo – possivelmente o mais compatível com as expectativas das elites – seja o do exercício do poder, em particular o de natureza política, como “cimento” da sociedade, instância de controle sem o qual a anarquia se instala, corroendo toda a estrutura da “nação”. Em busca da evolutio dentro da ordem, o conservador pretende a manutenção das regras do sistema político. Isso acima de quaisquer outras considerações. Um método no qual a mudança não se encontra, a priori, excluída, até porque – seguindo a receita aviada pelo grande teórico do conservadorismo no século XVIII, Edmund Burke – “um Estado onde não se pode mudar nada não tem meios de se conservar”. Curiosamente, a frase do político irlandês poderia ter sido pronunciada noutro contexto geográfico, o da Itália do Risorgimento magnificamente recriada por Visconti, em O Leopardo (a partir de um romance de Lampedusa). No filme, o personagem principal, o Príncipe de Salina, profere a célebre sentença: “é preciso que as coisas mudem para que permaneçam como estão”.
 
Conferindo estabilidade – quando não imobilidade – à formação social brasileira nos últimos duzentos anos, a prática e o discurso conservadores capacitaram as elites do país a lidar com os conflitos políticos por meio do esvaziamento do potencial de ruptura das crises, pela indução de soluções de compromisso. Os exemplos falam por si: da Independência à Revolução de 1930, passando pela Abolição da Escravatura, todas as mudanças aconteceram por assim dizer, pelo alto. De mesma maneira, os processos de industrialização e urbanização acelerada das últimas décadas do século XX tornaram-se realidade sem alterações dos perfis de distribuição de renda. Mesmo a eleição e o prosseguimento de governos encabeçados por um partido manifestamente de esquerda só foram possíveis por meio de concessões – e aqui não se discute se justificadas ou não – ajustadas na chamada Carta aos brasileiros. Pelo que se pode pensar, nada obstante as atualizações, o eco das ideias articuladas por Varnhagen e outros precursores, continua ouvido no Brasil de hoje.
 
Comumente associado à esfera da política, o conservadorismo fornece, no entanto, no plano da cultura, a sua melhor chave de compreensão. Ou seja, aparentemente simples, a execução da proposta conservadora demanda o manejo de uma sofisticada rede de produção simbólica, organismo responsável por gerar e reproduzir valores culturais de afirmação do estabelecido, em níveis que se articulam o Estado, a igreja, a escola, a economia, as artes, os esportes, entre outros nexos. Um procedimento no qual não basta produzir o veto às concepções de mundo ditas progressistas, ou ainda o repúdio às expectativas de avanço da sociedade, como na cartilha do reacionarismo. A alternativa metodológica de pensadores como Varnhagen e seus seguidores supõe uma outra atitude: a da arbitragem entre os níveis de mudança e de continuidade a ser administrados nos variados compartimentos da vida pública e privada brasileira, sempre em benefício da manutenção do status quo em vigência a cada momento. Pouco marcado pela busca por coerência, esse tipo de pensamento venceu as barreiras do tempo, especialmente por sua conformidade ante às expectativas dos segmentos situados no topo da pirâmide social.
 
Frequentemente confundidos no Brasil, reacionarismo e conservadorismo têm em comum apenas a oposição à idéia do progresso social. De resto, exibem programa político e base social inteiramente distintos. Em comportamento algo diverso do restante da América Latina, o liberalismo brasileiro tende à reação. Da velha UDN à atual coalizão PSDB-DEM, sempre expressou – com a nitidez possível dentro de um sistema eleitoral hostil ao alinhamento ideológico – os interesses do capital associado (industrial e bancário), da grande empresa rural e das camadas médias urbanas. Com essas características genéticas, os liberais brasileiros, pouca dificuldade encontraram para operar a transição do alinhamento ao “Ocidente Cristão” – durante o período da guerra-fria – ao apoio ao Consenso de Washington.
 
Já o conservadorismo, nos coloca na presença de um estamento patrimonialista, em boa medida composto por elites em decadência, cujo poderio não pode se reproduzir na presença do Estado Mínimo preconizado pelos neoliberais. Para esses estratos, fortemente representados no PMDB, que alinham desde o latifúndio clássico (pré-agronegócio) até os representantes de aparatos clientelistas urbanos, a máquina pública não existe para servir de mera repassadora de interesses privados das parcelas mais dinâmicas do capitalismo. O Estado configura o próprio negócio. A raiz da dominação desses setores radica no controle dos mecanismos formais da democracia representativa cuja sinergia mais perfeita – mas nem de longe a única – transparece no relacionamento entre a produção, em série, das chamadas emendas de orçamento, no Congresso, e as expectativas das grandes empreiteiras. Grupo social em declínio, a velha elite precisa se fazer representar nos governos. Sempre. Entrando e saindo de quaisquer governos.
 
Diante da polarização direita x esquerda em curso na sociedade brasileira, o centro conservador ressurge, conspira e prepara – lançando mão do golpe institucional do impeachment – o retorno à ordem política e social anterior ao advento do PT no poder.
 
Será que, mais uma vez, caberá aos conservadores exercer a sua secular tutela sobre os conflitos políticos no Brasil?
 
Publicado no blog do jornal Algo a Dizer.
 
Marcelo Barbosa é advogado, doutor em Literatura Comparada pela UERJ e diretor-coordenador do Instituto Casa Grande e autor, entre outros, de A Nação se concebe por ciência e arte – três momentos do ensaio de interpretação do Brasil no século XIX





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