Política

A economia e a política da social-democracia: uma reconsideração

Para sermos capazes de lidar com essas consequências [da permanência mais longa do vírus ou da chegada de um novo mutante], nossa resposta à crise, agora, não deve nos prender a um estado permanente de austeridade, maior desigualdade e maior vulnerabilidade a futuras calamidades na saúde. Mais do que nunca, 'novas-antigas' soluções social-democratas são necessárias

22/05/2020 18:57

 

 
O dilema inevitável enfrentado pela social-democracia

A social-democracia, a força política que deu forma à Europa Ocidental, pós-1945, mais do que qualquer outro movimento político, está em declínio terminal - ou assim parece. Nos últimos anos, num país europeu após o outro, o apoio aos partidos social-democratas entrou em colapso. Na França, Grécia e Holanda os social-democratas detêm menos de 10% dos assentos no parlamento. Na Alemanha e na Itália, os partidos social-democratas estão nos mais baixos níveis históricos. A última vitória eleitoral do Partido Trabalhista britânico remonta a 2005 - meia geração atrás. O resultado foi um notável e constante declínio na relevância política e na influência dos partidos social-democratas da Europa. O declínio de longo prazo do apoio eleitoral à social-democracia reflete um fracasso desses partidos, na Europa, em encontrar um equilíbrio convincente e eficaz entre a 'relevância prática de curto prazo' e o 'reformismo igualitário progressista' (Bhaduri 1993). Este artigo argumenta que essa falha se origina em um pensamento macroeconômico defeituoso.

A relevância prática de curto prazo exige que a social-democracia aceite, pelo menos em parte, as próprias condições socioeconômicas e políticas do "capitalismo realmente existente", que ela pretende mudar a longo prazo. Como os social-democratas optaram por trabalhar dentro das regras do capitalismo, tiveram que abandonar seu objetivo radical de transformação sistêmica e se comprometerem a manter a propriedade privada nos meios de produção. Afinal, a classe capitalista tem o poder de bloquear qualquer transformação igualitária dos direitos de propriedade e do sistema econômico, através da redução drástica do investimento privado, o que, por sua vez, reduz a demanda e o emprego no curto prazo e tem impactos negativos, também, no crescimento no longo prazo. Portanto, trabalhar dentro do sistema capitalista cria um dilema inevitável para a social-democracia: suas políticas devem ao mesmo tempo fortalecer o poder produtivo do capital e neutralizar o poder (político) dos capitalistas. Por meio do Estado, os social-democratas tiveram que garantir a eficiência do capitalismo e o crescimento de suas capacidades produtivas, ao mesmo tempo em que mitigavam efeitos distributivos adversos.

Fase I (de 1950 a 1975): capitalismo cooperativo, parcialmente capacitado pela demanda "liderada pelos salários"

A revolução keynesiana na macroeconomia levou a uma reorientação drástica do pensamento social-democrata europeu: longe da revolucionária 'nacionalização dos meios de produção' para a 'nacionalização do consumo', como afirmou o economista sueco Bertil Ohlin (1938). O reformismo foi abandonado - e o capitalismo aceito - com a condição de ser regulado e disciplinado pelo Estado, sem a necessidade de socializar os meios de produção. Os social-democratas desenvolveram uma ideologia madura do "estado de bem-estar social", como meio de nacionalizar o consumo e promover a expansão econômica impulsionada pelo consumo de massa. Assim, durante as décadas de 1950 e 1960, a administração keynesiana da demanda ajudou a sustentar um regime de pleno emprego, que apresentava alto crescimento dos salários reais, redução da semana de trabalho e formação de estados de bem-estar. O que é crítico é que o crescimento salarial alto, a redução da semana de trabalho e a expansão do estado de bem-estar não prejudicaram a lucratividade das empresas. Pelo contrário, a "idade de ouro do capitalismo cooperativo" conseguiu evitar uma diminuição dos lucros, devido a quatro fatores que mais do que compensam o impacto negativo, na taxa de lucro, dos salários mais altos.

Primeiro, a demanda agregada foi "liderada pelos salários" (Bhaduri e Marglin 1990), o que significava que salários mais altos levavam a uma demanda maior e, portanto, a uma maior ocupação da capacidade instalada; a maior utilização da capacidade elevou a taxa de lucro das empresas. Segundo, a pressão dos altos salários sobre a taxa de lucro foi reduzida, porque maior demanda e maior ocupação levaram a uma maior produtividade do trabalho por meio da relação Kaldor-Verdoorn. O terceiro fator foi que os altos salários foram apoiados por uma política fiscal destinada a manter a economia (e a ocupação) perto do pleno emprego. O quarto e último fator foi o alto crescimento do comércio mundial, possibilitado pelo sistema de Bretton Woods de taxas de câmbio estáveis, e as restrições impostas à mobilidade de capital transfronteiriço na maioria das economias. A política fiscal orientada para o pleno emprego foi o ingrediente-chave, porque possibilitou (e estabilizou) o alto crescimento da produtividade e, portanto, o alto crescimento dos salários, ajudado pela natureza geral da demanda baseada em salários. Em conjunto, os quatro fatores salvaguardaram taxas de lucro adequadas para as empresas e, portanto, ofereceram uma solução para o dilema que a social-democracia europeia enfrentava.

O compromisso cooperativo se degenerou em resposta à 'estagflação' da década de 1970. A razão para o colapso era mais política do que econômica: décadas de (quase) pleno emprego desencadearam, como Micha%u06C Kalecki (1943) alertou, forças que ameaçavam diretamente a estrutura de autoridade do capitalismo - forças que se manifestavam na crescente pressão salarial, no aumento da militância do trabalhador, na exigência por maior redistribuição e demandas crescentes por uma democratização radical da sociedade, da economia e do local de trabalho. O colapso do sistema de Bretton Woods em 1971 adicionou mais combustível à estagflação, levando a uma maior incerteza para os exportadores, desvalorizações competitivas da taxa de câmbio (desencadeadas pela desvalorização do dólar norte-americano), uma desaceleração do crescimento do comércio mundial, dois choques no preço do petróleo e inflação de custos de importação (Halevi 2019). O crescimento da demanda diminuiu, o que, por sua vez, diminuiu o crescimento da produtividade - e isso elevou ainda mais a participação salarial. A "indisciplina" dos trabalhadores, o colapso da ordem de Bretton Woods e o consequente "aperto nos lucros" levaram os governos a implementar a reforma da política estrutural que visava melhorar o "clima" para o investimento e o financiamento privados.

Fase II (de 1975 ao final da década de 1980): capitalismo cooperativo com demanda "liderada pelo lucro"

O colapso do crescimento liderado pelos salários e a crise da estagflação trouxeram de volta, com energia redobrada, o dilema da social-democracia – com os lucros na liderança do sistema, eles devem ser protegidos da demanda das massas, porque, se os lucros não forem "suficientes", no final das contas, os salários e/ou o emprego deverão declinar. Reviver o investimento privado tornou-se o ponto focal de uma nova onda de conservadorismo, que, defendida pela primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e pelo presidente dos EUA Ronald Reagan, centrou-se na moderação salarial, no controle monetarista da inflação (em vez da política fiscal voltada para o pleno emprego), na desregulamentação dos mercados de trabalho e financeiro, na privatização, na redução de impostos (corporativos), na globalização e (paralelamente) na ampliação militar e na redução dos estados assistenciais “babás” (Halevi 2019).

A estagflação parecia provar que, em uma economia aberta guiada pelo lucro, a gestão do pleno emprego e políticas redistributivas radicais não são do interesse material dos assalariados, porque resultam em altos salários e baixa competitividade de custos internacionais e, portanto, baixa lucratividade, investimento lento e estagnação. Alguns social-democratas internalizaram esta lição rapidamente. O Chanceler alemão ocidental Helmut Schmidt (1976), um dos principais social-democratas europeus, articulou esse raciocínio no jornal Le Monde da seguinte forma: "Os lucros das empresas hoje são os investimentos de amanhã, e os investimentos de amanhã são os empregos de depois de amanhã". Outros social-democratas precisaram de mais tempo - François Mitterand, presidente social-democrata da França, eleito sob a promessa de estímulo keynesiano à demanda, capitulou somente em 1981-83, depois que o mercado de títulos e moedas começou a protestar contra seu desanimado  estímulo fiscal.

O argumento de Schmidt persuadiu e se tornou a pedra angular da aprovação social-democrata, pós-década de 1970, do capitalismo. Talvez a expressão mais clara dessa reorientação da social-democracia na União Europeia seja o consenso holandês do "modelo de Polder" sobre restrição estrita dos salários reais. O crescimento dos salários reais holandeses foi mantido abaixo do crescimento da produtividade, o que aumentou a participação dos lucros na renda e reduziu o custo unitário relativo da mão de obra holandesa. O desemprego holandês caiu acentuadamente nas décadas de 1980 e 1990, exatamente quando o desemprego em outros países da UE permaneciam altos ou até aumentaram.

Dessa maneira, os social-democratas holandeses deram o exemplo a ser imitado e, a partir do final dos anos 80, seus camaradas europeus seguiram o exemplo, optando por cooperar para reproduzir o capitalismo e atenuar drasticamente o que restava de suas intenções reformistas iniciais. No entanto, a concessão social-democrata ainda se baseava no entendimento comum de que a demanda agregada era importante para lucros e investimentos. O keynesianismo ainda não estava morto. Os social-democratas poderiam continuar a argumentar em favor da estabilização fiscal, salários mínimos (decentes), negociação coletiva de salários e apoio do Estado de bem-estar aos desempregados, desfavorecidos e idosos, porque podia-se argumentar que essas intervenções 'keynesianas' contribuíam para estabilizar demanda agregada e proteger a taxa de lucro. "Somos todos keynesianos agora", captou o clima nesse período.

Fase III (início dos anos 90 até agora): rendição final ao “não há alternativa”

O compromisso da social-democracia com o capitalismo "liderado pelo lucro" se rompeu no início dos anos 90, sob o impacto de duas forças poderosas. A primeira foi o colapso do comunismo na União Soviética e em grande parte da Europa Oriental. O colapso do comunismo privou a social-democracia europeia de seu alter ego ("doppelgänger") ideológico e não lhe restou nada de distinto para oferecer, exceto sua "linguagem exaurida" (Judt 2010). A segunda força a minar o compromisso dos anos 80, não menos importante que a primeira, foi o fim do keynesianismo. A vitória do conservadorismo de Thatcher-Reagan não poderia ter acontecido, como Tony Judt (2010) argumentou, sem uma revolução intelectual de apoio - que conseguiu derrubar o consenso keynesiano e transformar o "governo" no problema, e não na solução. Essa é a essência da virada neoliberal na formação política da Europa: em vez de confiar no Estado, ou 'Staatsvolk' na terminologia de Wolfgang Streeck (2016), com a tarefa de estabilizar a economia capitalista instável, o novo conservadorismo relegou ao mercado desregulado (financeiro ), ou "Marktvolk" de Streeck, a tarefa de manter a estabilidade da ordem social e política.

Na macroeconomia, a 'revolução intelectual' deu origem ao Novo Consenso Macroeconômico (NCM) na década de 1980. O NCM rejeitou o keynesianismo argumentando que a estagflação de meados da década de 1970 "provou" que a disjuntiva [trade-off] da curva de Phillips, entre inflação e desemprego, só poderia existir no curto prazo, enquanto os atores da economia estivessem errados em relação à inflação (real ou esperada). A longo prazo, depois que os atores aprendem com a experiência e começam a antecipar corretamente a taxa de inflação, o NCM afirma que a Curva de Phillips é vertical, fixa em uma determinada taxa de desemprego - a taxa 'natural' de desemprego, também conhecida como ‘taxa de desemprego não-aceleradora da inflação’ (NAIRU - “Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment”).

Consequentemente, a política monetária poderia afetar apenas a disjuntiva desemprego-inflação no curto prazo, mas a atividade econômica não poderia se desviar do seu nível "natural", conforme determinado pela taxa natural de desemprego, no longo prazo. Da mesma forma, a política fiscal não pode ter impactos permanentes e de longo prazo sem provocar uma aceleração incontrolável da inflação, o que forçaria o Banco Central a aumentar a taxa de juros. Taxas de juros mais altas, por sua vez, impediriam o investimento do setor privado - e o desemprego voltaria a convergir para a taxa natural de desemprego. Nesta abordagem, existe apenas uma maneira de aumentar estruturalmente o crescimento e reduzir permanentemente o desemprego de maneira não inflacionária, ou seja, impor reformas estruturais no mercado de trabalho, que reduzem a taxa natural de desemprego. Dessa maneira, o NCM criou o mito governamental de que governos e bancos centrais deveriam se abster de intervir ativamente, usando instrumentos de política fiscal e/ou monetária, para amenizar flutuações de curto prazo ou para orientar a economia, mas se concentrar em criar de condições estruturais para mercados (de trabalho) desregulados para moer o equilíbrio "natural" de longo prazo.

O NCM tem uma mensagem política profunda, que constitui uma negação radical da promessa da administração keynesiana da demanda em uma economia liderada por salários: a política macroeconômica enfrenta um conflito de escolha (trade-off) inevitável entre 'crescimento' (ou 'eficiência') e 'igualdade”. O que isso significa na linguagem comum é que qualquer intervenção política para reduzir a desigualdade, por exemplo, por meio da regulamentação do mercado de trabalho e da redistribuição do estado de bem-estar, acarreta um custo de bem-estar, porque aumenta a taxa natural de desemprego e, portanto, deve diminuir o crescimento. E vice-versa, qualquer tentativa de aumentar permanentemente o crescimento econômico significa diminuir a taxa natural de desemprego, desregulamentando o mercado de trabalho e reduzindo o estado de bem-estar social - o que deve aumentar a desigualdade. Andrew Glyn (2006) chamou apropriadamente de "Desagradável trade-off" entre salários mais altos e mais empregos - ou, mais geralmente, entre crescimento econômico e igualitarismo.

A morte do keynesianismo deixou-a [a social-democracia] perdida e sem quaisquer alavancas políticas eficazes para neutralizar o poder dos capitalistas. O vazio ideológico criado pelo colapso do comunismo e o fim do keynesianismo, a virada em favor do NCM, foi preenchido pelo comprometimento pragmático da "Terceira Via", mudança estratégica de marca e remendos tecnológicos. A característica definidora do Novo Trabalhismo [britânico] da variedade "Terceira via" é a completa internalização da ideia de que o "desagradável trade-off" realmente existe. Como resultado, o Novo Partido Trabalhista descartou o ativismo da política fiscal, migrando em favor de uma austeridade fiscal automática [rule-based fiscal austerity], apoiou a independência dos bancos centrais (na verdade, entregando as alavancas da política monetária a tecnocratas não eleitos e não passíveis de responsabilização democrática), completamente submetidos a interesses financeiros 'reacionários' (do 'Marktvolk') ao endossar a meta de inflação do banco central e a desregulamentação dos mercados financeiros e, ao fazê-lo, perdeu todo o senso de propósito compartilhado. A declaração de Peter Mandelson de que "somos todos Thatcheritas" capta perfeitamente o novo humor.

No Reino Unido, as políticas econômicas de "Terceira Via" de Tony Blair pretendiam criar um ambiente econômico favorável a negócios e finanças (Osler 2002) - por meio da (semi-) privatização de serviços públicos, dumping social [termo geralmente usado para designar uma competição injusta, instaurada pelos empregadores, pela aplicação de diferentes salários e regras de proteção a diferente categorias de trabalhadores] para atrair investidores estrangeiros, cortes de impostos para os ricos e cortes nos benefícios sociais para os pobres (não merecedores), optando por não participar da Carta Social Europeia, apoio incondicional à globalização financeira, políticas severas de aplicação da lei e da ordem e desregulamentação dos mercados de trabalho e financeiro, fechando os olhos ao aumento desigualdade de renda e riqueza.

Mas não é apenas o Novo Trabalhismo da Grã-Bretanha. Nos anos 90, considerou-se amplamente que a social-democracia europeia precisava de uma reforma modernizadora, a fim de se tornar mais benevolente com o mercado. Como resultado, a social-democracia se tornou uma força conservadora, política e economicamente, na França, Alemanha, Holanda e Itália - e a maioria dos governos adotou a estratégia de culpar a União Europeia e Bruxelas por reformas políticas impopulares, que eles mesmos estavam (secretamente) favorecendo. Reformas da lei trabalhista, como as reformas de Hartz pelo governo Schröder na Alemanha, mas também em outros lugares, criaram uma força de trabalho 'descartável' maior, um exército flexível de reserva de subempregados e, com isso, aumentou a desigualdade (de renda, riqueza e emprego) na Europa.

As consequências econômicas do  Novo Trabalhisno

O compromisso do Novo Trabalhismo conseguiu reduzir o desemprego na Europa, mas espetacularmente não conseguiu melhorar o desempenho macroeconômico geral. O crescimento real do PIB continuou sua estagnação secular - apesar das reformas estruturais introduzidas pelo programa do Novo Trabalhismo. A razão para a desaceleração do crescimento é irônica: como é demonstrado estudo após estudo, a demanda agregada nessas seis economias é fortemente "liderada por salários". Isso significa que a estratégia do Novo Trabalhismo de restrição salarial e reforma estrutural, juntamente com austeridade fiscal estrita baseada em regras (Storm 2019), que visava reduzir a taxa natural de desemprego, aumentar a taxa de lucro e aumentar a ocupação da capacidade instalada, saiu pela culatra. A razão: reduziu a demanda e a ocupação e prejudicou a taxa de lucro e o investimento. Parafraseando Mark Twain, o relato da morte do keynesianismo parece ter sido um exagero.

Mas o dano macroeconômico causado é maior. A desregulamentação do mercado de trabalho e as medidas do lado da oferta que empurraram mais pessoas para o mercado de trabalho foram, como observado acima, bem-sucedidas: o desemprego diminuiu e a participação da força de trabalho aumentou, o que era exatamente a intenção. No entanto, é impossível interpretá-lo como progresso (social e/ou emancipatório) - porque o que reflete, entre as pessoas em geral, é o crescimento de 'arranjos alternativos de trabalho' temporários, geralmente com baixa produtividade e salários baixos, principalmente nos setores de serviços privados - acordos que na Alemanha pós-Schröder costumam ser "mini-empregos", na Itália são contratos por tempo fixo e na Holanda na maioria das vezes significa trabalho temporário por conta própria. E no nível macro, a desaceleração do crescimento econômico e o aumento do crescimento do emprego implicam, quando considerados em conjunto, um declínio no crescimento da produtividade do trabalho.

Essa desaceleração do crescimento da produtividade coloca os estados de bem-estar social sob crescente pressão fiscal. A estagnação da demanda agregada liderada por salários e a crescente insegurança no emprego e na renda, característica do compromisso do Novo Trabalhismo, ajudaram a minar sua legitimidade política. O rápido crescimento dos mercados financeiros desregulados proporcionou aos formuladores de políticas a oportunidade de adiar essa ameaça, permitindo um forte crescimento de empréstimos privados, por famílias e empresas, para manter o show em andamento, sustentando a demanda. Crouch (2009) o chama de 'keynesianismo privatizado' e sua característica definidora é o aumento dramático da dependência que o sistema tem das dívidas domésticas e corporativas para adiar conflitos de distribuição e continuar atendendo às expectativas de bem-estar do eleitorado.

O fracassado compromisso do Novo Trabalhismo também causou danos políticos. Primeiro, grandes partes do núcleo eleitoral da social-democracia desertaram para o movimento de esquerda mais extremo ou para os partidos populistas de extrema-direita. Há uma crescente polarização na política - com crescimento na extrema esquerda e um, ainda maior, na extrema direita. Na Itália, França e Reino Unido, essa polarização já desestabilizou seriamente o sistema político estabelecido – com efeitos (até agora) desconhecidos. A Alemanha, a Holanda e a Suécia viram, não apenas um crescente populismo de direita, mas também uma mudança considerável, do centro político e um "discurso político aceito", para a direita. Governar está se tornando cada vez mais difícil sob essas condições polarizadas. A outra forma de dano ocorre de maneiras mais sutis: as desigualdades crescentes (renda e riqueza) tornaram as divisões de classe e status mais poderosas, reduziram consideravelmente a mobilidade social (ascendente) e fortaleceram a segregação residencial e segregação na educação (Wilkinson e Pickett 2019) . Por outro lado, em sociedades mais iguais, os cidadãos confiam uns nos outros, há uma maior disposição de ajuda mútua, e as atitudes gerais em relação ao estado de bem-estar social e tributação são mais positivas. Adam Smith (1776/1976, p. 88) colocou assim: "Nenhuma sociedade pode certamente ser florescente e feliz, da qual a maior parte dos membros é pobre e infeliz". À medida que a desigualdade aumenta, tudo isso acontece ao contrário. Visto dessa maneira, o recente colapso no apoio à social-democracia é uma ferida, em grande medida, autoinfligida - e um ato sem precedentes de autodestruição.

O que é para ser feito?

Que tipo de estrutura político-econômica a esquerda pode propor para explicar seus objetivos e justificar suas metas? Para começar, os social-democratas devem descartar o pensamento, agora desacreditado, do NCM e tirar a lição certa de Keynes, a saber: que o capitalismo é inerentemente instável e precisa ser 'sabiamente gerenciado' para se tornar mais eficiente. Os mercados acabaram sendo "maus mestres" e agora precisam ser transformados em "bons servos". Precisamos de organização social e política para impor estabilidade em mercados indisciplinados, inclusive através da imposição de controles de capital transfronteiriços (quando e onde necessário). Os social-democratas também precisam entender que não faz sentido deixar que os mercados financeiros determinem a capacidade fiscal do Estado - essa é uma decisão fundamentalmente política que envolve a correspondência entre os níveis de tributação da sociedade, suas ambições sociais (de gastos) e a decisão do modo de  financiar um déficit público (caso ocorra). Não se trata de um apelo a Estados Grandes, nem a um financiamento monetário máximo, mas de uma democracia deliberativa significativa na qual os cidadãos têm voz na política, quando e onde é mais importante. É um apelo firme contra a despolitização da política fiscal e monetária, bem como contra a influência corrupta do dinheiro político na democracia - o que deveria, de todo modo, ter sido óbvio para os social-democratas.

Segundo, os social-democratas devem rejeitar a ideologia do "desagradável trade-off" pelo que é: uma fantasia conservadora. Nas economias europeias, salários mais altos e redistribuição progressiva de renda melhoram de fato o desempenho da macroeconomia e beneficia trabalhadores e empresas, especialmente quando suportados pelo gerenciamento agregado de demanda. Os social-democratas devem defender, tanto aumentos justos nos salários reais, quanto um compromisso credível na formulação de políticas macroeconômicas para o pleno emprego (em vez da inflação baixa) - demandas que não entram em conflito com o crescimento da produtividade e a lucratividade (se adequadamente gerenciadas). Da mesma forma, os estados de bem-estar e as instituições protetoras do mercado de trabalho não devem ser considerados um custo e um dreno, mas constituem estruturas eficientes que, por ajudar as nações a compartilhar os custos e benefícios da globalização e do progresso tecnológico, tornam as empresas mais flexíveis e aumentam sua competitividade internacional. O exposto acima não é, de forma alguma, um apelo disfarçado defensivo pelo retorno a um passado idealizado (por exemplo, a 'era de ouro'), mas, em vez disso, é um diagnóstico baseado em evidências de onde estamos e como chegamos aqui, e um reconhecimento de que existem alternativas ao Thatcherismo. O capitalismo precisa ser gerenciado, e se os cidadãos não o fizerem (por meio do processo político), as superestrelas empresariais, grandes bancos, grandes empresas de tecnologia e bilionários farão isso por nós.

No entanto, qualquer social-democracia reinventada, que justifique esse nome, deve começar impondo disciplina aos bancos e aos mercados financeiros - e pela domesticação, transformá-los de poderosos senhores supremos (que atualmente são) em servidores úteis ao interesse social. Isso, por sua vez, exige uma contrarrevolução no pensamento econômico, que derruba o NCM em favor de abordagens mais realistas (menos utópicas) e mais humanas. O NCM deve ser visto pelo que é: o pensamento pré-keynesiano do século XIX, uma paródia do pesadelo de um contador, nas palavras de John Maynard Keynes (1933).

A recessão global causada pelo bloqueio da COVID-19 está tornando simplesmente mais urgente  tal contrarrevolução no pensamento econômico. O atual pânico do "keynesianismo de emergência", que está derrubando décadas de austeridade implacável na Grã-Bretanha, França, Alemanha e em outros lugares, não chega nem perto do que é necessário. Sim, os governos pagarão “pela guerra contra a COVID-19” assumindo muito mais dívidas, mas assim que a crise terminar, um maior endividamento público se tornará socialmente injusto e economicamente ineficiente. Afinal, a resposta pavloviana dos políticos e da maioria dos economistas, com a lavagem cerebral causada pela teoria macroeconômica moderna (NCM), é um retorno à austeridade fiscal com energia ainda maior, sob o argumento de que as dívidas devem ser pagas, trazendo outra década perdida de cortes de gastos implacáveis (em investimento público) e escassez estrutural e salários reduzidos exatamente nesses serviços, como assistência médica, apoio social e educação, que agora são considerados "essenciais" durante a emergência de saúde.

Uma alternativa simples e eficaz, keynesiana e social-democrata, para financiar pacotes de resgate público sem precedentes, seria a adoção de impostos muito mais altos sobre riqueza, renda e finanças (rentistas). Dessa forma, os ombros mais fortes suportarão o fardo maior sem corroer e prejudicar o crescimento econômico e a saúde pública no futuro. O impacto a longo prazo da recessão provocada pela COVID-19 será cronicamente doloroso, se não aplicarmos as lições corretas aprendidas em crises anteriores. Embora o vírus possa desaparecer, ajudado pelo grande distanciamento social e pelo bloqueio da economia global, devemos permanecer alertas para as consequências de sua permanência mais longa ou para a chegada de um novo mutante. Para sermos capazes de lidar com essas consequências [da permanência mais longa do vírus ou da chegada de um novo mutante], nossa resposta à crise agora não deve nos prender a um estado permanente de austeridade, maior desigualdade e maior vulnerabilidade a futuras calamidades na saúde. Mais do que nunca, ‘novas-antigas’ soluções social-democratas são necessárias.

Referências

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Servaas Storm é um economista e autor holandês que trabalha em macroeconomia, progresso tecnológico, distribuição de renda e crescimento econômico, finanças, desenvolvimento e mudanças estruturais e mudanças climáticas.

*Publicado originalmente em 'Institute for New Economic Thinking' | Tradução de César Locatelli

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