Política

A falácia da terceira via

Com a possibilidade de ir ao segundo turno, Marina terá que se posicionar alinhada ao projeto de centro-direita da oposição ou ao projeto em curso.

23/08/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Num país como o Brasil, resultado de colonização predatória, arbítrio, violação dos direitos humanos básicos, profundas desigualdades sociais e regionais, não há como falar em terceira via, quando se trata de atacar todos os problemas remanescentes dessa herança histórica.

De um lado, temos os mantenedores do resultado acima mencionado, utilizando a política do “laissez-faire” ou neo-liberal. É o que chamamos de direita, embora eles mesmos se recusem esse rótulo. Afinal, não pega bem. Se consideram de centro. Então tá, centro-direita. São atualmente representados e liderados pelo PSDB.

Do outro lado, temos os que querem mudar o rumo da história, na direção de um país socialista, ou seja, que busque igualdade social e regional, garantia dos direitos humanos, democracia plena com participação social e respeito ao ambiente, com o estado atuando firmemente para garantir os projetos que interessam à maioria, contra os interesses privados da minoria. São representados por vários partidos e movimentos sociais de esquerda e liderados pelo PT.

Uma via, então, é a da manutenção e aprofundamento das desigualdades. A outra, é a de mudanças radicais e eliminação das desigualdades. Onde fica a terceira via neste jogo? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra?

Como fundamentação de que é falaciosa essa terceira via, representada por Marina, basta constatar que todos os que hoje estão envolvidos com a sua campanha, inclusive ela mesma, foram do PT ou da base dos governos Lula e Dilma.

O que existe, de fato, é uma candidatura pessoal, que apregoa uma proposta de “terceira via” tentando se vender como dona de três temas: sustentabilidade; relação “republicana” com o Congresso Nacional; e rigidez no combate à corrupção.

Ocorre que pode-se falar tudo do governo Dilma, menos que não tenha atuado firmemente no aspecto “sustentabilidade” e na “rigidez no combate à corrupção”.

Nesse dois itens, será difícil a candidata Marina Silva mostrar que fará mais, pois tudo o que é necessário já está sendo feito e, num próximo artigo, poderei detalhar esse “tudo”. Os programas de rádio e TV de Dilma mostrarão isso com muita fundamentação.

Restou o discurso da relação “republicana” com o Congresso Nacional. Dilma entende que essa relação somente será plena quando o país fizer uma profunda reforma política. O PT inclusive já lançou proposta, que está no site do partido (clique aqui).

Enquanto isso, Marina Silva, em tom messiânico-moralista, diz que governará sem fazer negociações com o Congresso Nacional: ministérios, cargos, emendas, etc.

Discurso falacioso! Isso simplesmente só existe em ditaduras. Mesmo assim, na ditadura militar brasileira, havia negociação e muitas coisas o governo não conseguia impor ao Congresso.

Nos países democráticos, negociação existe o tempo todo. Faz parte do processo. Não é vergonhoso, como tenta vender Marina.

O que hoje não ocorre, e uma radical reforma política poderá prover, é maior representatividade da sociedade no Congresso, especialmente dos debaixo na pirâmide social. É isso e não a existência de uma figura messiânica que fará mudar a relação executivo-legislativo.

Para concluir, entendo que quanto maior for o questionamento às propostas de Marina, tanto no campo social como econômico – e mesmo no ambiental –, mais difícil será para ela mostrar que existe uma terceira via, que tudo o que Dilma está fazendo está errado ou é ineficaz e que fará tudo diferente.

Assim, confrontada, e com a possibilidade de ir ao segundo turno, Marina terá que se posicionar alinhada à primeira via, de centro-direita, ou à segunda via, de esquerda.

A tendência hoje é o alinhamento à primeira alternativa, na medida em que ela tem dado seguidas demonstrações de satisfação pelo apoio da elite econômica e da grande imprensa, que representam o projeto da centro-direita e da direita declarada.



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