Política

A grande alternativa política

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos diz que os movimentos sociais estão tomando a frente dos partidos de esquerda na luta por um mundo melhor

03/07/2001 00:00

Boaventura de Sousa Santos (Bruno Gonçalves)

Créditos da foto: Boaventura de Sousa Santos (Bruno Gonçalves)

 

Rio de Janeiro - O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos é um intelectual militante. Daqueles que enchem platéias de universidades pelo mundo e são requisitados para entrevistas de página inteira em jornais de grande circulação. Não foi diferente quando esteve no Rio de Janeiro, em meados de maio, para receber um Prêmio Jabuti pelo livro “A crítica da razão indolente”, na categoria Ciências Humanas e Educação. Atendendo ao convite de seu colega Emir Sader, Boaventura proferiu palestra na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e viu mais uma vez um auditório disputado até os corredores por estudantes e docentes dos mais variados cursos.

O destaque que lhe é destinado não tem nada de gratuito. Em tempos de avanço dos focos de resistência à globalização neoliberal, o professor da Universidade de Coimbra oferece a seu público um discurso extremamente original, descarregado dos dogmas tradicionais da esquerda e orientado para a atuação dos movimentos populares, segundo ele, “a grande alternativa política que temos hoje”. Para os brasileiros, que vêem a Esplanada dos Ministérios em Brasília ser mensalmente tomada por grupos que contestam os descaminhos do atual governo, idéias como as desenvolvidas por Boaventura não poderiam soar menos interessantes.

“A esquerda está em crise. Na Europa, o modelo soviético foi destruído e o socialismo democrático descaracterizou-se, possibilitando o avanço das reformas neoliberais. (Tony) Blair (na Inglaterra) e (Gerald) Schroeder (na Alemanha) utilizam políticas que são próprias da direita, entre eles não há uma estratégia alternativa. Como os partidos de esquerda não apresentam nada diferente e apenas cumprem a agenda de reformas neoliberais, a população acaba preferindo aqueles que possuem diretamente o capital, como o (Silvio) Berlusconi (na Itália). O que há de mais forte hoje, portanto, é a atuação dos movimentos sociais, que muitas vezes nem se designam como esquerdas, mas estão em diversas partes do mundo tentando desenvolver lógicas que não a neoliberal, muitas vezes de resistência. As pessoas ficam com fome, sem trabalho, sem moradia por causa da globalização neoliberal, e resistem a ela. É uma energia que não tem uma formulação política no nível de partido, mas no de manifesto”.

Por Zapata

Entre os movimentos que mais encantam Boaventura está o Zapatismo. Em um de seus mais conhecidos artigos, o sociólogo trata a chegada da marcha zapatista à Cidade do México, em 11 de março, como um símbolo político do terceiro milênio. Para ele, os índios de Chiapas têm conseguido, como nenhum outro movimento, criar estratégias capazes de abrir novos rumos na batalha contra o neoliberalismo e a opressão. E sustenta isso através de três constatações:

1) O sujeito da transformação social no zapatismo não é apenas o explorado, mas os oprimidos, já que a exploração dos trabalhadores é apenas uma das formas de opressão a mulheres, minorias étnicas, desempregados, imigrantes, homossexuais, crianças etc.

2) Os zapatistas empunham não apenas a bandeira da igualdade social, mas também a da diferença - “A igualdade entendida como “mesmidade” acaba excluindo o que é diferente”.

3) A troca da luta pela conquista do poder pela busca de “um mundo novo”, afinal “de que vale conquistar o poder do Estado se a sociedade não for transformada”.

Como exemplo desse novo ideal de luta política apresentado pelo zapatismo, o professor afirma que os discursos dos zapatistas na Cidade do México couberam não ao Subcomandante Marcos, líder mais famoso do movimento, mas à Comandante Ester. “Foi o momento em que ficou selada a união entre os movimentos indígena e de libertação da mulher”. Esse efeito, segundo Boaventura previamente planejado pelos zapatista, serviu para convergir a ação de dois grupos nem sempre em harmonia. Falando sobre outros casos, o sociólogo destaca que “o movimento operário, por exemplo, foi muitas vezes hostil ao das mulheres ou ao ecológico”. É nesse momento, acredita, que é preciso encontrar uma causa prioritária para ambos, a fim de juntar forças, o que aconteceu com excelência no zapatismo.

"Ao contrário dos partidos políticos, a ação desses grupos não tem aquela obsessão pela tomada do poder, mas sim a idéia de que é preciso ir no endo da sociedade, a fim de transformá-la, porque o trauma das esquerdas nacionais é que, como elas não executam essa transformação, chegam ao poder e fazem a mesma coisa que a direita. Isso frustra. A globalização contra-hegemônica e alternativa ao modelo neoliberal é uma ação a partir de baixo, a partir dos movimentos populares. O que nós não podemos nos dar ao luxo em nossa luta é restringi-la a uma mobilização apenas local, ou nacional, ou global. E o Zapatismo simboliza muito bem a interação entre o local e o global. Ele surge como um movimento regional em Chiapas, para depois se globalizar através das agências de notícias na internet.”

Sobre o MST

O efeito de um movimento como o Zapatismo não fica restrito ao México, afirma Boaventura, e "traz novas ênfases que podem contribuir com outros movimentos. Por exemplo, talvez com ao mais famoso deles no Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

"São dois movimentos bem diferentes em sua forma de atuação. O MST tem uma forma de centralismo democrático mais tradicional, e o zapatismo me parece que tem uma forma de intervenção participativa que, no meu entender, chega bem às populações de sua área de influência. Além disso, os zapatistas desenvolveram um estilo novo, com uma linguagem nova, que não são as linguagens cifradas da esquerda do século 20 que alguns dirigentes do MST ainda usam. Os zapatistas falam em uma linguagem aberta, virada para questões éticas, não tão ligadas à questão da revolução, mas mais à rebeldia, às questões do respeito e da dignidade. São ênfases novas que estão contribuindo com outros movimentos."

E o Fórum Social Mundial?

Presente no primeiro Fórum Social Mundial, realizado no início do ano em Porto Alegre, Boaventura já confirmou presença no Fórum de 2002, também marcado para a capital gaúcha. Desta vez, porém, sua presença deverá ser mais marcante: ainda inspirado pelo Zapatismo, o sociólogo já apresentou aos organizadores do eventos seis pontos que, em sua opinião, deveriam ser obrigatoriamente debatidos. São eles:

1) A luta deve ser contra a globalização neoliberal, e não contra a globalização.

2) Pela democracia participativa.

3) Debater alternativas de sistemas de produção, como cooperativas e microcrédito.

4) A defesa da biodiversidade.

5) A internacionalização da luta dos trabalhadores.

6) Produção de contra-informação, como contraponto ao noticiário produzido por grandes corporações.

A relação com o Brasil

Longe de ser encanto recente, o pensamento de Boaventura de Sousa Santos voltou seu foco para os excluídos e oprimidos ainda na décade de 70, quando o então advogado português foi fazer o doutoramento na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Foi nessa época, também, que acentuou amizade com colegas brasileiros e começou um intenso estudo de alguns dos maiores dramas do Brasil.

"Quando eu estava fazendo meu doutoramento nos Estados Unidos, quis trabalhar numa área da sociologia do direito. Surgiu então a possibilidade de trabalhar na América Latina em uma pesquisa empírica. Eu preferi vir para o Brasil porque meus dois avôs tinham sido imigrantes no Rio de Janeiro e eu, quando menino, tinha ouvido histórias fantásticas sobre a cidade. Vim para estudar como funcionavam internamente as favelas e queria estabelecer uma alternativa àquilo que os antropólogos e sociólogos norte-americanos faziam, ao darem ou uma visão muito romântica das favelas ou, pelo contrário, dizer que elas eram uns infernos. Decidi vir para uma delas. Escolhi a do Jacarezinho, na zona norte do Rio, que era a favela com recorte operário que eu procurava. A partir daí fiz minha tese de doutoramento."

O professor português voltou para a Europa, mas o contato com os colegas brasileiros se perpetuou. "Nos anos 70, através da Universidade de Coimbra, apoiamos e até demos emprego a alguns dos brasileiros exilados que estavam na Europa, como o Darcy Ribeiro e o Márcio Moreira Alves, depois veio Miguel Arraes também. Em 1987 estive como professor visitante no Instituto de Estudos Avançados (da USP) em São Paulo e a certa altura, já na década de 90, comecei a ir a Porto Alegre para fazer a pesquisa sobre orçamento participativo que mantenho até hoje. Agora ganhei o prêmio Jabuti e isso cria laços." Ainda bem.

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