Política

A grande dúvida sobre Moro

 

09/07/2019 12:16

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
Surpreendendo a todos, Sergio Moro, atual ministro de Justiça e Segurança do governo ultradireitista de Jair Bolsonaro, pediu uma “licença não remunerada” de seu cargo entre os dias 15 e 19 de julho.

Entre segunda e sexta, ele estará tratando de “assuntos pessoais”.

Na verdade, ele só anunciou isso agora. Quando o negociou com seu chefe é algo que talvez não saibamos.

Há exatamente um ano, o então juiz Moro, transformado em carrasco inquisitorial de Lula da Silva, estava em pleno desfrutar de suas férias quando manobrou de forma ilegal para impedir que se cumprisse a determinação de um magistrado de instância superior de libertar o ex-presidente.

Para cúmulo, contou com a cumplicidade da Procuradoria Geral da República (PGR) e do igualmente cúmplice Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto pressionava a Polícia Federal, encarregada de prender Lula, para desobedecer uma decisão judicial.

A grande dúvida agora é sobre que movimento estranho Moro fará nessas novas e inesperadas férias. Que, a propósito, coincidem com a série revelações do jornalista estadunidense Glenn Greenwald sobre os truques e jogadas ilegais armados por Moro para alcançar seus dois objetivos: impedir que Lula fosse candidato e eleger Bolsonaro.

Em colaboração com meios que, em outros tempos, não só foram críticos a Lula, mas que também contribuíram para o golpe institucional que, em 2016 destituiu a então presidenta Dilma Rousseff, forçando o fim dos governos do PT, e que sempre glorificaram Operação Lava Jato, fazendo de Moro uma espécie de herói nacional, o site de Greenwald, The Intercept, vem mostrando os vazamentos no ritmo de uma ou duas vezes por semana, com informações demolidora sobre a grande farsa judicial liderada pelo então juiz.

Ao se aliar com uma emissora de rádio conservadora (Bandeirantes), uma revista semanal de direita (Veja) e um diário ambíguo (Folha de São Paulo), Greenwald fez uma jogada de mestre: no fim das contas, esses são meios que fazer parte da imprensa hegemônica golpista, e podem ser classificados de qualquer coisa menos de serem simpáticos a Lula, ao PT (Partido dos Trabalhadores) e à esquerda.

Os efeitos sobre Moro são duríssimos, principalmente nos meios jurídicos. Hoje mesmo, Nelson Jobim, que foi integrantes do STF por nove anos, chegando a ser seu presidente em um período, reconheceu que Moro cometeu inúmeras ilegalidades, e também acusou a máxima corte do país de ser omissa e cúmplice.

Assim que se soube da licença do ministro, começaram a correr os rumores mais incríveis. Há poucos dias, surgiram indicações de que a Polícia Federal estaria a ponto de lançar ações contra os supostos responsáveis por vazar as conversas entre Moro e os promotores para Greenwald.

Seriam iniciativas destinadas a impedir que novas revelações cheguem ao público, e a encontrar responsáveis por destroçar a imagem do ex-juiz.

Um dos rumores indica que Moro optou por se afastar do país quando tais ações ocorram.

Outro, que iria novamente a Washington, para se reunir com órgãos de inteligência e de polícia estadunidenses.

E, claro, há quem especule que ele não voltará a se sentar na cadeira de ministro.

Mas esses padecem de excesso de otimismo: a ambição de Moro desconhece limites éticos e morais.

Até pode ser que alguém problema pessoal sério tenha levado o ministro a pedir esses cinco dias de licença.

O problema é que, a esta altura, a palavra de Sérgio Moro vale exatamente o mesmo que uma nota de três reais.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

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