Política

A ira de Deus: Brasil, pastores e política

 

27/02/2019 17:03

 

 

O segundo turno eleitoral no Brasil tem como protagonistas os pastores de grupos neopentecostais. Na última quarta-feira (17/10), os dois candidatos, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, tiveram atividades de campanha com grupos religiosos integrados a redes evangélicas de diferentes origens. Fé e política se mesclam na campanha eleitoral com níveis crescentes de disputa, no marco de um clima neoliberal que exclui de toda espiritualidade e laço social aqueles que mais precisam de esperança.

Amplos setores sociais, sobretudo os mais vulneráveis, tendem a se refugiar em rituais e em suas respectivas redes emocionais, que outorgam uma salvaguarda diante da irracionalidade, da violência e das carências cotidianas oferecidas pelos modelos econômicos imperantes.

A restauração conservadora na América Latina se insinua como uma reação exasperada contra a inclusão de amplos setores populares e das concomitantes mudanças nas relações sociais que estas mutações geram. Os setores hegemônicos, acostumados a desfrutar de privilégios históricos, se sentiram desafiados nas duas últimas décadas, por iniciativas políticas impulsadas por organizações progressistas que empoderaram numerosos grupos subalternos.

Nesse contexto, a direita do subcontinente mais desigual do mundo (América Latina) decidiu ajustar e coordenar todo o seu armamento cultural e simbólico para evitar a continuidade de alterações que consideram antinaturais: para esses setores reacionários, a inequidade deve ser garantida como expressão da ordem e única garantia do crescimento econômico. Para cumprir com esse objetivo, todas as contribuições são válidas. Inclusive aquelas que provêm das confissões religiosas.

A profusão de pastores e igrejas na América Latina mostra a clara diferença entre os modelos pentecostais, nascidos no começo do Século XX, e as versões neopentecostais, surgidas em meados do mesmo século. Este último grupo reivindica a chamada “teologia da prosperidade individual” a qualquer custo, alabando a desigualdade e endeusando o dinheiro. Pelo contrário, para os pentecostais tradicionais, não há prosperidade possível no egoísmo, nem na ostentação, exercício que consideram a síntese de uma comunidade envilecida. Seus modelos organizacionais também diferem: no caso dos pastores que apoiam Bolsonaro, que são majoritariamente integrantes do movimento neopentecostal, seus fiéis estão estruturados em um mecanismo piramidal. Assim, cada líder carismático controla um território, através de seus subalternos, que prestam contas (literalmente) aos seus superiores.

O ex-capitão do Exército mantém um forte vínculo com a Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da Rede Record, ambas dirigidas pelo bispo Edir Macedo, que faz campanha para o candidato militar. Outro dos pastores vinculados a essa rede de apoio a Bolsonaro é o também deputado Marco Feliciano – que é recordado por várias polêmicas, como quando realizou uma missa, em 2017, explicando que as três balas recebidas por John Lennon por parte do seu assassino, Mark Chapman, traziam escritas no casco os nomes da santíssima trindade: o pai, o filho e o espírito santo.

(Vídeo de Marco Feliciano onde ele explica o que considera as causas teológicas do assassinato de John Lennon)

As políticas de inclusão social implementadas por Lula da Silva no Brasil, ou pelos Kirchner na Argentina, ou por Rafael Correa no Equador, pelo chavismo na Venezuela, por Michelle Bachelet no Chile, por Evo Morales na Bolívia, ou pela Frente Ampla no Uruguai, todas elas alimentaram os demônios exasperados das elites autoritárias e conservadoras. Empresários-presidentes como Mauricio Macri, Sebastián Piñera e Iván Duque observam como Jair Bolsonaro converge com eles, com a particularidade do exacerbado discurso militarista ditatorial (dos Anos 60 e 70 do século passado), oferecido como solução à crise neoliberal produzida pela hegemonia financeira, da qual os únicos beneficiários são os conglomerados multinacionais.

O anarcocapitalismo, baseado na desregulação do mercado de trabalho, nas aberturas externas assimétricas e na priorização do investimento estrangeiro sobre a economia local, gera profundos níveis de desestruturação social. A incerteza cotidiana (acompanhada pela volatilidade dos mercados) garante lucros enormes àqueles que podem estar blindados através do acesso às divisas.

A contracapa disso são os constantes estados de desesperação que isso causa aos trabalhadores, que sofrem com a precarização do trabalho, a ameaça de desemprego, a flexibilidade e a falta de opções. Em meio a essa dramática situação, aparece o fantasma da violência urbana. Nessa situação, um dos mecanismos de defesa coletiva ao qual apelam os setores mais castigados é a participação em redes de contenção emocional, dispostas a proporcionar uma clara esperança compartilhada.

No Brasil, as igrejas neopentecostais ganharam adeptos nas últimas décadas graças a dois fatores convergentes. O primeiro: a progressiva redução e desaparição das comunidades eclesiásticas de base, vinculadas à Igreja Católica, outrora instaladas nos bairros populares das grandes urbes, que defendiam a teologia da liberação. Estes agrupamentos haviam se multiplicado na América Latina como continuidade do trabalho de padres operários europeus e do apoio recebido pela Conferência Episcopal Latino-Americana, realizada em Medellín, em agosto de 1968.

Nesse encontro, os sacerdotes e seus fiéis foram chamados a realizar uma opção a favor dos pobres da terra. A outra motivação da ocupação territorial dos grupos neopentecostais se explica pelo vazio deixado pelo Estado e pelas redes de ativismo social, que mostram grande dificuldade (ou incapacidade) de mobilizar os setores populacionais mais vulneráveis, que convivem com as redes mafiosas que também são cúmplices de organismos de segurança.

Esta realidade obriga os setores progressistas a ações justapostas: impedir o rótulo homogeneizador que amontoa todo o pentecostalismo numa mesma esfera indiferenciada, e recapacitar acerca do rol da espiritualidade (religiosa ou não) como um suporte de construção de esperanças, passível de ser utilizado na disputa política. Seria ingênuo deixar a fé nas mãos daqueles que fazem dela um negócio a serviço dos poderosos.

Jorge Elbaum é sociólogo, doutor em Ciências Econômicas e analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli


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