Política

A lógica do maluco (Lima Barreto, Careta, 08/10/1921)*

Triste país que Lima Barreto e eu também Barreto continuamos a viver. Que a ruptura da loucura se faça na sana destruição que 'feito faca, corte a carne de vocês', como diria outro inconformado com os destinos do Brasil, nosso Belchior

05/05/2019 11:45

 

 
Ao republicar Lima Barreto, nosso fantástico cronista do início do Século XX, parece que estamos estabelecendo um “de já-vu” funesto, mas que nos coloca na essência criativa deste nosso criador fantástico “mulato-negro”, como ele se identificava.

Nestes dias de imbecilidade exposta e de mediocridade estabelecida, ler Lima e pensar na lógica do maluco fascista imponderado nos cinco cantos deste país é uma necessidade. Esta crônica poderia ser escrita agora em algum manicômio que “tratasse” nosso imponderável transloucado “Capitão do Mato” feito códice da Res-pública.

Triste país que Lima Barreto e eu também Barreto continuamos a viver. Que a ruptura da loucura se faça na sana destruição que “feito faca, corte a carne de vocês”, como diria outro inconformado com os destinos do Brasil, nosso Belchior. Lima nesta crônica antecipa como um louco de sete palmas pode assumir a presidência de um país de duzentos milhões de almas.

Segue Lima:

“Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em trazê-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.

Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Faia parte da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espirito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou â vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre cousas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vagas, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, às pressas...

A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.

O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas subitamente, com leituras dos “Comentários à Constituição”, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.

Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou aos poucos; mas tiveram a imprudência de lhe dar, de novo, os tais “Comentários” e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do Senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa cousa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.

O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:

- Então, o que há, doutor?

O doente era como todo brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – cousa que não era nem da defunta Guarda Nacional, sepultada, como tantas outras cousas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:

-Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao falar ao diretor.

- para quê? Para que você quer falar ao doutor Juliano?

- É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele. Naturalmente, há de se interessar por mim.

- Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.

- Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Por isso, preciso licença do doutor Juliano.

- Mas, um caro, não adianta nada o passo que você vai dar.

- Como?

- Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?

- Posso, pois não. Está na Constituição: “Os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros. “ Eu não sou brasileiro? Logo....

- Mas, você....

- Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe, doutor: mulher, menor, louco, ou interdito, em direito tem grandes semelhanças.

Tanto insistiu que obteve o consentimento, para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:

- Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável jurídico.”

*Lima Barreto: Toda Crônica. São Paulo: Agir, 2004. A lógica do maluco (p. 450-51)

José Raimundo BARRETO Trindade  é professor e cronista da UFPA




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