Política

A mensagem de Alberto Fernández a Lula no encontro do Grupo de Puebla: ''cumpri minha palavra com você''

Diante de dirigentes políticos de toda a América Latina, o presidente eleito da Argentina definiu sua agenda de integração e luta contra a desigualdade. O clima do encontro foi de alegria com V de "volta Perón" e o L de "Lula livre"

10/11/2019 11:15

(Joaquín Salguero)

Créditos da foto: (Joaquín Salguero)

 
A letra V e a letra L reproduzidas com os dedos de todos os participantes, foram os gestos que marcaram o tom do encontro do Grupo de Puebla, que se reuniu neste fim de semana em Buenos Aires. O ex-chefe de gabinete brasileiro, Aloizio Mercadante provocou lágrimas nos presentes, representantes políticos de toda a América Latina, quando desenhou no ar as duas letras com as suas mãos e disse "Perón voltou e Lula está livre". O V e o L resumem a vitória de Alberto Fernández na Argentina, e também o regresso de Lula às ruas no Brasil, como ele mesmo prometeu, em um vídeo publicado na semana passada. "Quando o vi na prisão, Lula me deu uma ordem, somente uma", disse Alberto. "Você tem que ganhar, e eu prometi que o faria", lembrou o presidente, que completou mandando um recado ao amigo brasileiro "cumpri minha promessa com você".

O eixo Argentina-Brasil como coluna vertebral da América do Sul foi o grande tema da abertura da cúpula do Grupo de Puebla, integrada pelos líderes latino-americanos, entre eles o próprio Fernández, e coordenada pelo chileno Marco Enríquez-Ominami.

Com Hebe de Bonafini (líder histórica das Mães da Praça de Maio) na primeira fila, o presidente eleito contou que quando foi visitar a Lula na cadeia, alguns perguntaram se essa visita era conveniente eleitoralmente. "Nunca devemos especular nem duvidar em ser solidários com quem está sofrendo injustamente", respondeu, ao lado do ex-chanceler de Lula, Celso Amorim, que também estava ali presente.

Pouco antes de sua intervenção, a plateia assistiu um vídeo gravado pelo próprio Lula, com uma saudação aos participantes. Com uma cara feliz e uma camiseta de cor clara, ele disse que não importava mais se Pelé era melhor que o Maradona ou vice-versa, e felicitou "Alberto e Cristina, também grande companheira com quem vivi extraordinários momentos". A mensagem seguiu deste modo: "estou livre e com muita vontade de lutar. Meu objetivo na vida é construir uma grande América Latina. Estou disposto a viajar pela América Latina, onde Fernández pode ser um exemplo". Afirmou que "a elite latino-americana é muito conservadora e não aceita a ascensão social dos pobres", e ressaltou os avanços alcançados no período em que governaram simultaneamente ele, Néstor Kirchner, Cristina Kirchner, Dilma Rousseff, Fernando Lugo, Tabaré Vázquez, Pepe Mujica, Evo Morales, Rafael Correa y Hugo Chávez".

Em seu breve discurso, um Alberto Fernández que parecia mais descansado – em comparação com o da campanha eleitoral, estava mais sorridente, sentindo-se cômodo no paletó escuro e camisa clara sem gravata – fundamentou a existência do Grupo de Puebla destacando a sintonia de ideias e na combinação de boas relações pessoais e políticas. "Aprendi com a experiência que a melhor política surge dos melhores vínculos pessoais", declarou.

Alberto também disse que se atrasou para a reunião por causa de uma conversa de uma hora com o presidente francês Emmanuel Macron. "Um diálogo espetacular", definiu. "Falamos de Lula, sobre a Venezuela, sobre o Chile e os problemas do continente. Senti que ele me entendeu. Disse, por exemplo, que a Bolívia vive um problema porque uma classe dominante não se resignou em perder o poder, novamente, para um presidente boliviano que se parece aos bolivianos".

Agenda

Fernández não parecia mais um candidato em campanha (e efetivamente já não é, desde 27 de outubro), e suas palavras pareciam marcar a agenda futura do Estado argentino:

– Ele fortaleceu o relacionamento com o México, país que acaba de visitar, e ao qual pretende dar um lugar de destaque. "Andrés Manuel López Obrador é o primeiro presidente mexicano em muitas décadas a voltar seus olhos para a América Latina", afirmou.

– Fez um comentário recheado de esperança: "há quatro anos atrás, ficamos muito anestesiados enquanto víamos as instituições sendo desmanteladas, e isso agora está mudando rapidamente".

– Sem mencionar a palavra técnica "lawfare", a respeito do uso do aparato judicial para perseguição política, ele disse que "o modus operandi da Justiça brasileira não é muito diferente do que acontece na Justiça argentina, ou do Equador, que aprisionou o vice-presidente Jorge Glass".

– Restabeleceu o valor da democracia como ponto de partida. "Nós aqui somos filhos da democracia. Nós respeitamos os pensamentos um do outro. Assim, construiremos a sociedade igualitária".

– Ele lembrou que Dilma havia mencionado anteriormente os números de concentração de renda, e disse que "no Chile, 1% da população possui 30% da renda".

– Se mostrou disposto a colaborar com o Chile. "Quero ajudar o Chile a recuperar a paz, mas não tenho a solução. Acho que vou falar com o presidente (Sebastián) Piñera novamente, com quem já tive uma conversa muito boa".

– Ressaltou a importância do relacionamento entre os dois grandes países da América do Sul. "Com Lula livre, já são outros os ventos que sopram no Brasil. A união entre Brasil e Argentina é indissolúvel. É o eixo da unidade da América do Sul. É 70% do produto sul-americano".

– Destacou a desigualdade como um grande problema a ser resolvido. "Ninguém que se diz progressista, socialista, peronista ou comunista pode viver pacificamente com a desigualdade. Raúl Alfonsín (ex-presidente argentino de posição socialdemocrata, rival histórico do peronismo) disse que nunca devemos deixar de lado a ética da solidariedade".

Perón

La mesa de abertura esteve integrada pelo chileno Marco Enríquez-Ominami, que foi o mestre de cerimônias, além de Dilma Rousseff, Alberto Fernández, Ernesto Samper e Aloizio Mercadante.

Foi Mercadante quem estabeleceu uma ponte entre o passado e o presente, e entre as questões urgentes a serem resolvidas e a construção política.

Com relação ao que acontece no Brasil, ele disse que iniciou sua carreira política durante a ditadura – Mercadante nasceu em 1954 e o Brasil teve um regime militar entre 1964 e 1985 –, e observou que "hoje, meus filhos e netos estão vivendo algo semelhante". O preceito é que "quem vence tem o poder e quem perde vai para a oposição", mas no Brasil, os perdedores vão para a cadeia. Portanto, "o mais importante é retomar a soberania do voto", como ele ressalta que aconteceu na Argentina, e que foi "um sopro de esperança democrática".

Ele descreveu um país em que "13 milhões de brasileiros vivem com menos de dois dólares por dia", e outros milhões não têm renda. Ele afirmou que, durante o governo de Lula, "nós enfrentamos o peso da dívida pública, combatemos a fome, lançamos o plano Bolsa Família e aumentamos o salário mínimo". Mercadante se mostrou orgulhoso de que o governo do qual ele fez parte "colocou a questão da pobreza acima de tudo, mas nunca tivemos força no parlamento para fazer os ricos pagarem os impostos na quantidade que deveriam".

O ex-senador e ex-chefe de gabinete de Dilma foi quem instalou pela primeira vez, nos últimos meses, uma questão fundamental: a da convivência entre a solidariedade da Argentina para com o Brasil e a luta para que o Mercosul não desapareça.

"No Brasil, existem pessoas que querem que o país abandone o Mercosul", alertou ele, em referência às declarações do super ministro da Economia, o ultraliberal Paulo Guedes. "Eles não levam em conta que houve duas guerras na Europa, e foi isso que criou a base da integração europeia". Mercadante acrescentou: "temos diferenças irreconciliáveis %u20B%u20Bcom Bolsonaro, que defendeu o torturador de Dilma, e agora tenta acabar com a integração entre o Brasil e a Argentina".

Chorando, Mercadante disse que está ao lado de Lula há 45 anos. "Ele fazendo política é como Gardel cantando, com talento, intuição e compromisso com as pessoas. Os verdadeiros companheiros não estão na vitória, mas no momento em que a pessoa mora em um cubículo de 15 metros quadrados, como Lula na prisão de Curitiba. Alberto começou sua campanha dizendo `Lula livre´. No dia da vitória eleitoral aqui na Argentina, a militância peronista gritou o mesmo. Não vamos esquecer que, antigamente, os peronistas gritavam `volta Perón´. Agora Perón voltou e Lula está livre".

Desigualdade

O ex-presidente colombiano Ernesto Samper, que fez o discurso de abertura do ato, distinguiu entre dois tipos de integração, a meramente comercial e a regional. Ele deu como exemplo a Unasul, da qual foi secretário executivo durante anos: "lá nós não discutíamos ideologia, embora cada presidente tivesse a sua, mas sim sobre problemas específicos, como conectividade e integração física".

Dilma Rousseff, a presidente reeleita em 2014 e derrubada por um golpe de Estado em 2016, fez uma intervenção onde lembrou do bloqueio a Cuba, que foi rejeitado novamente na ONU, apesar do apoio à medida por parte do governo de Jair Bolsonaro. Ela disse que "para o Grupo de Puebla, a questão da desigualdade está em primeiro plano, ainda mais em um país como o Brasil, onde 56% da renda nacional fica nas mãos de 10% da população".

Ela disse estar "feliz porque Lula saiu da prisão, e agora pode caminhar pelo Brasil, e liderar a construção do retorno à democracia e à paz". Também refletiu sobre a Argentina: "a vitória eleitoral de Alberto Fernández reverte a onda conservadora que nos atacou".

*Publicado originalmente em Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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