Política

A proposta de 'polícia' econômica de Bolsonaro

Entrada na cena política dos juízes marcou a fase de rebelião do Estado contra o governo petista, confronto que iniciou pratica e simbolicamente a ruptura entre dois Estados brasileiros, que sempre coexistiram, apesar de se revezarem no predomínio de um sobre o outro

11/10/2018 12:31

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Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
Cada dia que passa Bolsonaro e seus adeptos demonstram praticamente qual alternativa econômica representam ao país. Aliás, a primazia pela prática nesse grupo chega ao nível de agir sem necessidade de qualquer discurso. A ação pela ação, a ação sem discurso, só pode se realizar como pura violência. Já que não há convencimento sem discurso, não há algo que possa ser livremente debatido e acatado e, portanto, há uma submersão da política, já que ela não pode mais envolver a todos e a todos afetar na responsabilidade do debate e da participação. Por isso que essa eleição não é mais apenas um fato somente político, mas também um fato policial. A violência na política produz silêncio no ambiente público e gera um tipo de consenso por medo, pois não estamos mais sob os olhos julgadores do público apenas, como estamos também sob ameaça. Uma ameaça que excedeu a tradicional mira nos militantes dos Partidos dos Trabalhadores, para pairar sobre todos aqueles que pensam diferente de Bolsonaro e seus adeptos. Ameaça generalizada, intimidação a priori, sempre à espreita, vigilância o dia todo, são o núcleo do que se tornou hoje terror.

Os discursos, é claro, sempre movem afetos e paixões, ou pelo menos sempre que se tornam historicamente efetivos. Mas a novidade fascista de que falamos, é retirar quase totalmente os meios discursivos, reduzindo-os a simples canalizações diretas de sentimentos intensos, como o ódio. Quanto a isso, essa novidade já é velha e faz um século. O ditado popular diz que contra fatos, não há argumentos. A ação fascista se usufrui desse apelo popular aos dados, distorcendo-o numa aversão à crítica cultural dos intelectuais. É desse modo que a crítica ao conservadorismo da sociedade feita a partir das universidades brasileiras foi transformada, pelo senso comum e pelos grandes jornais, em um simples caso de cegueira ideológica, de fanatismo professoral. Não é de hoje que se critica a capacidade de enxergar os fatos como eles verdadeiramente são. Foi Jesus de Nazaré quem moveu, contra seus adversários, uma importante distinção contra o encanto muito difundido sobre a certeza dos fatos. Na explicação da Parábola do Semeador (Mateus 13, 9-17), Jesus se insurge contra os que não acreditam nos seus discursos. Ele explica que a capacidade de ver e ouvir dependeria de estados da alma ou do interior conforme a profecia de Isaías (“Porque o coração deste povo se tornou insensível”), e, assim, nem ele conseguiria lhes demonstrar a verdade de seus feitos. Distante dois mil anos de nós, essa reflexão nazarena ainda ilumina nosso presente ao nos perguntarmos qual fato Bolsonaro e seus adeptos não têm olhos de ver nem ouvidos de ouvir? Isto é, de qual fato se escondem? Qual fato recalcam?

Podem estar recalcando o significado histórico da invencibilidade eleitoral à presidente do Partido dos Trabalhadores neste século. Mais do que isso, podem estar esquecendo a razão mais profunda que de fato levou o PT a essas vitórias e, especialmente, o por quê da direita brasileira ter fracassado sucessivamente diante do projeto petista. É esse recalque que está na base da associação direta entre PT e facção criminosa. Obviamente esse recalque e essa associação não nasceram com Bolsonaro, mas foram desde o início central na estratégia da direita brasileira diante da derrota. Com o fracasso eleitoral do PSDB, surgiria outro partido, não-institucional, o então chamado Partido da “Justiça” ou Partido “Togado”, dado o movimento coordenado e consenso organizativo do judiciário brasileiro, mesmo que às vezes tacitamente formado.

A entrada na cena política dos juízes marcou a fase de rebelião do Estado contra o governo petista, confronto que iniciou pratica e simbolicamente a ruptura entre dois Estados brasileiros, que sempre coexistiram, apesar de se revezarem no predomínio de um sobre o outro. De um lado, o projeto aristocrático da República Velha de constituir Estado somente no litoral e para o litoral, é o Estado das capitais, é o Estado contra qualquer questão social, hegemonizado por castas da burocracia civil e militar. Do outro lado, o projeto social dos modernistas, encarnado por Getúlio, é o Estado da interiorização que reconhece as partes da população marginalizadas e se destina a inclui-las na cidadania. Depois da revolução de 30 e até mesmo sob os governos militares, um polo nunca chegou a excluir o outro, mas sempre funcionaram por rearranjos da polarização, conforme relações de força contextuais. Getúlio estendeu direitos trabalhistas a todos nas cidades, mas excluiu os camponeses, conservando a base material de sustentação dos latifundiários no Nordeste. Estava formado um novo bloco hegemonizado pelos trabalhadores do Sudeste, com apoio das classes proprietárias do Nordeste, que, no entanto, não excluía o projeto antissocial da República Velha, adaptando-o à liderança de da nova classe operária, concentrada pela industrialização das décadas de 10 e 20. A radicalização do projeto inclusivo criou uma instabilidade política em torno da proposta por reformas estruturais. Essa radicalização totalmente democrática e legalista foi interrompida pelos militares, que apesar da repressão, não desfizeram a aliança regional. Terminaram a industrialização do país, pelo alto, ao custo do nordestino, forçado a migrar sob ameaça da fome. Como resposta ao Estado inclusivo, universalizou a educação básica.

Na redemocratização da década de 80, houve a formação de um bloco entre classes, partidos e regiões para a retomada do Estado democrático. Mas reparem, de maneira geral, é o mesmo bloco desde Getúlio, liderança moral dos trabalhadores do Sudeste com anuência das classes proprietárias do Nordeste. Com uma diferença fundamental, a intensidade no termo “democratizador”. Foi esse bloco da redemocratização que produziu a Constituição de 1988 e deu direitos políticos integrais ao pobre, ao permitir o analfabeto votar pela primeira vez no Brasil, o que tornou a eleição de 1989 o nosso primeiro sufrágio universal. Esse bloco era a base, e não somente a nossa constituição, do projeto político que transformava, via participação popular o Estado brasileiro rumo à inclusão. O PSDB se tornou dirigente do bloco a década de 90, moderando o “democratizador” do bloco, através da linha da inclusão lenta, gradual e segura, isto é, dosando a inclusão no Estado brasileiro.

Os resultados lhe foram desfavoráveis e sua direção foi fortemente contestada. O imaginário na política é realmente algo poderoso. O ideal do bloco “democratizador” era o Estado escandinavo e o PT se adequava mais fielmente a esse objetivo dos trabalhadores do Sudeste por sua intensidade e pureza. O PT se torna dirigente antes de se tornar dominante. Se torna dirigente porque se torna a alternativa aceleradora do espírito da redemocratização. Dominante significa apenas que assumiu a presidência, o governo do executivo federal. O governo do primeiro mandato do Governo Lula foi de um ineditismo tão radical que até hoje nos é difícil de compreender o seu significado. Pela primeira vez na história de nossa república, um governo rompeu com o bloco que o mantinha. Não propriamente com o bloco, mas com a liderança sobre o bloco primeiro, e depois com o bloco. Acontece que o “democratizador” realizado concretamente afetava a aliança regional Sudeste-Nordeste que se mantinha por mais de sete décadas. Foi por uma leitura dupla que o PT fez esse movimento ousado, de uma parte, deu ao “democratizador” um rumo regionalizado, e por outra parte, compreendeu que a execução desse projeto não poderia ser sustentado pelos trabalhadores do Sudeste, muito menos pelas classes proprietárias do Nordeste. Surgiu a ideia de se aproximar do pobre nordestino, aquela base social da migração pela fome, e representá-la, constituindo-a como sustentação política. O ideário radical foi abandonada e o PT acabou traindo o bloco de alianças que o havia fundado. Essa é a verdade histórica do discurso de traição do PT, operado especialmente pelos trabalhadores do Sudeste. A consequência drástica desse deslocamento de base social foi a intensificação do consenso regional em torno da oposição ao governo petista. Tal intensificação retira qualquer barreira à estratégia da oposição.

A virada radical é iniciada pela casta burocrática civil, aquela mesma que sustentou um dia a República Velha. Ataque desferido no espetáculo midiático do “Mensalão” em 2005, ele resulta inócuo eleitoralmente. No entanto, a entrada em cena dos juízes, com apoio ativo da mídia tradicional, passa a cumprir importante papel na rearticulação da direita brasileira. O primeiro e fundamental passo para vencer o PT era desmoralizá-lo, retirá-lo de sua autoridade moral, de sua aura adquirida durante duas décadas através ação radical anti-poder. Para isso, foi preciso transformar a questão política em polícia. Incriminar e encarcerar o PT por qualquer coisa. Devido à alta organização e consenso no judiciário brasileiro e ao apoio do antigo bloco abandonado pelo PT, o Partido da “Justiça” obteve vitória relativamente fácil nesse ponto.

Mas ainda assim, ao contrário das expectativas, novamente o PT venceu a eleição de 2010 e Dilma toma posse para o terceiro mandato petista. A crise se instala definitivamente na direita brasileira. Se mostrando incapaz de enfrentar o PT à presidência, abre-se uma vacância na representação de uma parte expressiva do eleitorado. O Sudeste precisa criar outro candidato, um novo candidato. Mais do que isso, o Sudeste precisa mostrar sua força para continuar a dirigir a oposição. Ao mesmo tempo, a estratégia de incriminação chega à sua fase mais crítica, o concreto encarceramento de lideranças petistas, embora seja o PT que presida o executivo brasileiro. Em junho de 2013, surgem manifestações inicialmente espontâneas sobre o preço das passagens do transporte público. Assim como na década de 60, a direita se apropriara da bandeira contra a inflação. Essas manifestações ultrapassaram a marca do milhão somente em cidades do Sudeste.

Houve dois resultados mais significativos das manifestações de junho de 2013. A destruição do consenso em torno de uma linguagem política comum, a retórica “democratizadora”, promessa antiga do projeto modernista, uma retórica pública inclusiva. Essa linguagem foi abandonado pelo antigo bloco do poder. Talvez uma vingança contra o abandono do bloco pelo PT e todo o imaginário ligado às vitórias eleitorais do PT. E como isso pode ter ocorrido através de propostas ligadas ao ideário “democratizador”, como saúde e educação de qualidade? A retórica pública de uma fase histórica é o pano de fundo no qual todos se comunicam. Fora dele, não haveria possibilidade da construção de um novo consenso e a construção de uma liderança de novo conteúdo. Esses temas foram escolhidos dentro do leque do que era possível dizer em público sem ameaça do isolamento, e com a radicalização que tornava mais fácil a crítica ao governo, pois justamente eram temas sensíveis a ele. Se compreende, então, por que a maioria nas passeatas não era usuário daqueles mesmos serviços públicos, dos quais cobrava em seus cartazes. Ao mesmo tempo aparecia nas manifestações um raivoso antipetismo. Da imperfeição dos serviços públicos fez-se a denúncia a um governo que se orgulhava de tê-los melhorado ou até mesmo implementado. Isso não explica sozinha a queda da presidente Dilma. O deslocamento neo-desenvolvimentista de Dilma se afastou dos pilares do pacto lulista, que por sua vez, quer dizer, de maneira geral, que Lula prioriza uma representação, a dos mais pobres, em especial na região do Nordeste, o que tem uma série de consequências na política “moderada” praticada por Lula.

A segunda consequência foi a reorganização da direita brasileira, seu renascimento simbólico, especialmente em torno da ação dos juízes na operação Lava-Jato que teve início em 2014, baseado no ódio do PT e no ódio da ação “democratizadora”, e portanto, também, contra o Estado inclusivo. Isso significou a ruptura mais importante da história do país, depois do PT ter abandonado o bloco de alianças entre trabalhadores do Sudeste e latifundiários do Nordeste. A direita brasileira oficializou a ruptura com o Estado inclusivo, com o projeto social de Estado dos modernistas consolidado pelo PT. A questão é que excluído esse lado, só sobra o projeto de Estado da República Velha, um Estado antissocial, que só pode sobreviver policialmente. As propostas de retiradas de direitos e privatizações de Bolsonaro se assemelham a um Estado devastado, após a destruição de uma guerra. E, desse modo, só poderiam se assentar em intimidação policialesca. Típico caso dos fascismos históricos. A alternativa econômica neles se implementava sorrateiramente e à força. Nunca houve no Brasil um projeto tão claro de destruição do Estado social e da cidadania, nem mesmo pelos governos militares. Esse projeto de terra devastada se reveste do terror “bolsonarista” e obteve apoio eufórico do “mercado”. Tal terror não significa nada além do que uma simples liquidação aristocrática do campo popular no Brasil, ressuscitando a República Velha.



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