Política

A questão da democracia, da Justiça Social e dos golpes para além do debate entre economia e direito e do paradigma tradicional da esquerda masculinista - parte 1

A ousadia do Congresso, e demais instituições, ao aprovarem e sustentarem um impeachment sem as devidas provas enxovalhou toda a nação brasileira

20/06/2017 14:07

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Era dia 31 de agosto quando o Senado aprovou por 61 votos, contra 20 resistentes, o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ao fundo, nas matérias divulgadas pela grande mídia, se ouvia o hino nacional, como se estivéssemos vivendo um momento glorioso de retomada revigorante da democracia e da soberania popular. Os salvadores da Pátria teriam finalmente trazido “justiça”, exterminando os supostos mantenedores, quiçá criadores, da corrupção e crise econômica brasileira. Essa era a mensagem principal transmitida dia e noite pela Rede Globo de televisão, e outras tantas mídias. O que espanta muitos de nós e as principais democracias do mundo é a óbvia compreensão de que estamos vivendo justamente o oposto de tudo isso. Nossa jovem democracia nem tão bem completa trinta anos e já é novamente golpeada.
 
Além dessa mensagem temos um subtexto fortíssimo de que uma mulher no alto comando da política não poderia lidar com tamanha complexidade. E quando digo isso não me atenho a qualquer avaliação positiva ou negativa sobre nossa presidenta, mas ao fato de que esse subtexto presente em todo processo dialogou e dialoga com um dos componentes mais fortes em nossa cultura: a misoginia. Com Lula fizeram isso a partir da tentativa de subalternização de sua condição de pouca escolaridade, de nordestino, militante de esquerda e oriundo de camadas populares. Todos esses marcadores são fortemente mobilizáveis no imaginário social e a mídia é extremamente competente ao lidar com ele, ainda que subliminarmente, a todo momento. E no centro dessas narrativas estavam um partido e um projeto político que precisava ser varrido da política brasileira. É que cair o queixo como elementos de nossa autodescrição como brasileiros tiveram peso na manipulação da nação: desde o discurso especialista reducionista economicista e culturalista – como explica Jessé de Souza – ao essencialismo masculinista de direita. Eles ditavam o conteúdo mínimo explicativo: esquerda e mulher = corrupção e incompetência.
 
Não entrarei no mérito de que a crise econômica teria sido criada pelo governo eleito, porque ainda que seja possível concordar e questionar as últimas escolhas políticas da presidenta, sabe-se que a crise econômica é mundial e afetou até menos o Brasil do que outros países, justamente devido a alguns compromissos da gestão brasileira. Tal fato é constatável por qualquer pesquisa séria.
 
A ousadia do Congresso, e demais instituições, ao aprovarem e sustentarem um impeachment sem as devidas provas de “crime de responsabilidade contra a Lei de Diretrizes Orçamentárias”, enxovalhou toda a nação brasileira, fez a maior parte do país se comportar abaixo do nível tolerável de ingenuidade que se espera de adultos e, não menos importante, deixou a esquerda quase impotente, mesmo com todas as encantadoras e vibrantes mobilizações de protestos realizadas. Nesse cenário tenebroso que mais parece filme de terror ou repetição adaptada de 1964, talvez seja importante questionarmos outros componentes relevantes. São muitos, mas aqui pretendo chamar a atenção para um em especial: o masculinismo de esquerda e sua relação com a capacidade de formulação e mobilização a um só tempo. O tratamento político que as esquerdas tradicionais fazem do conceito de classe social, dissociada da exploração e opressão de gênero, de raça/etnia e de sexualidade, é insustentável e ineficaz para pensar a divisão internacional do trabalho e mesmo as opressões interconectadas sem as quais o capitalismo o contemporâneo não sobreviveria. Não se trata de uma questão de detalhes teóricos simplesmente. Sua natureza é política e filosófica, tanto do ponto de vista teórico como social.
 
Confrontar tal tratamento exige confrontar uma tradição patriarcal e racista, que é anterior ao capitalismo, mas sobretudo, confrontar o capitalismo patriarcal contemporâneo. Há cegueira para o fato de que a classe trabalhadora é composta de mulheres e homens e de que esses, por sua vez, possuem marcadores sociais de raça diferenciados. A divisão binária da humanidade entre dois sexos-gêneros[1] é a base da divisão internacional do trabalho e se estamos tentando nos dirigir à população e aos militantes com se essa categoria não implicasse e exige ampliação do paradigma teórico. E o que isso tem a ver com a pouca adesão da sociedade na resistência ao golpe? Tudo, senão vejamos.
 
Quando a esquerda secundariza os marcadores sociais de gênero, raça e sexualidade em relação ao conceito de classe social – tratando esse último como se fosse uma categoria neutra sem considerar devidamente a presença constitutiva de pessoas sobre as quais pesam os referidos marcadores sociais – o resultado é uma noção de classe social que obscurece tais opressões e se torna, portanto, impotente para lidar com o capitalismo patriarcal da contemporaneidade. E no uso de tal conceito coloca-se em andamento uma análise de conjuntura e uma metodologia política que tem mostrado pouco alcance para driblar o conservadorismo e o capitalismo. A aplicabilidade dos questionamentos teóricos feministas e sua força de mobilização ao associar gênero, raça e classe como formas exploração e opressão torna-se irrefutável se pensarmos no diálogo que essa contribuição mantém com os movimentos sociais contemporâneos. É importante dizer que essa contribuição é mútua e que nenhum outro movimento ou abordagem teórica, que não o feminismo, tem mostrado empiricamente o poder de conectar teoria e prática, academia e movimentos sociais. E esse poder se deve justamente ao seu potencial e compromisso de interseccionar classe, gênero e raça. Teorias que deixam de lado partes dos fenômenos que pretendem explicar estão fadadas ao abandono ou a pouca potência aglutinadora. Não por acaso, ao contrário disso, os diversos movimentos feministas fizeram o que as esquerdas não conseguiam fazer a muito tempo e com tão pouco recurso envolvido: no último 8 de Março aglutinou nas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo, cerca de vinte mil pessoas em caminhada fervorosa, harmoniosa e pacífica contra as violências que afetam mulheres. 
 
Marx é um dos teóricos indispensáveis para descortinarmos a natureza e objetivo exploratório do Capitalismo, porém, para dar conta da disputa ideológica e da divisão internacional do trabalho, na qual estamos subordinadas/os, é preciso ampliar o paradigma teórico da esquerda rumo a um materialismo histórico feministas, como vem mostrando algumas teóricas. É preciso que a esquerda expurgue seu masculinismo hegemônico. Já nos basta o fato de que a direita o nutre taticamente. As lutas sociais e os programas políticos, mais do que as políticas públicas, estão carentes de dessa ampliação teórica. Elas precisam chegar às análises de conjuntura e aos discursos políticos. Por isso, meu diálogo aqui é com meus pares: intelectuais orgânicos, militantes de base e militantes dirigentes das esquerdas. Na impossibilidade de aprofundar este tema aqui, minha contribuição neste momento é conclamar aqueles e aquelas que pensam e trabalham com um conceito de classe social dissociado dos conceitos de gênero, etnia/raça e sexualidade a uma ampliação de suas análises.
 
Estamos vivendo, desde as manobras para a aprovação do impeachment, um processo de ruptura democrática muito sério e comprometedor que abriu as portas para a retomada da entrega de nossa soberania nacional. Essa situação exige de nós muito mais do que as devidas e urgentes – diga-se de passagem – contestações sobre as medidas e contrareformas apresentadas por esse governo não eleito. Há uma matriz cultural que sustentou esse processo todo e que se não for questionada e devidamente incorporada nas análises, discursos e reflexões não estaremos contribuindo efetivamente para a retirada do país do julgo da neocolonização e da eterna manipulação de nossas indignações. Militantes dirigentes e militantes de base precisam se comprometer no processo de descolonização de suas mentes e corações ao mesmo tempo em que o fazem em seus discursos, análises e programas políticos.  
 
Se a esquerda não considerar tais questões como parte de sua formação política, análises e programas políticos não avançará na disputa ideológica. Deixaremos que as pessoas sigam eternamente representas pelas mesmas ideias que são mobilizadas contra elas e contra o país, sem que saibam disso? Para citar a presidenta eleita, mulher não teórica, mas que amadureceu em consciência de gênero a partir do diálogo com as feministas: “O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência”[2]. No que eu complemento: o golpe é a manutenção dos interesses do capitalismo patriarcal e neocolonialista.
 
Para evita-lo seria preciso, e ainda é, criar na nação brasileira valores políticos democráticos sólidos que levasse ao conhecimento e entendimento do pacto expresso na Constituição de 1988. Por isso a maior parte da população não foi às ruas conosco para exigir o impedimento do impeachment. Estamos em pleno e continuado golpe. Ele pode até ser estancado, mas outros virão se não sedimentarmos as bases culturais da transformação social. Essa é a mais promissora e ovular tarefa política da qual as esquerdas não podem escapar, sem reconhecer com isso, que não cumpriu seu dever de casa e compromisso público com o país: dar a ele bens inalienáveis: valores democráticos, e porque não dizer, socialistas.
 
[1] Não pretendo problematizar neste momento o binarismo de gêneros.
[2] DILMA ROUSSEFF, em seu primeiro pronunciamento após a aprovação do impeachment pelo Senado Federal.
 



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