Política

A sombra do 'Deep State' no Brasil de hoje

 

11/06/2019 22:45

 

 
*Este artigo foi publicado originalmente em 22 de outubro de 2018

Para aqueles que acompanham criticamente a política externa dos EUA e a geopolítica em geral, a ascensão de Jair Bolsonaro no Brasil dificilmente pareceria desprovida de interesse e - ainda mais importante - de influência do “Deep State” (Estado profundo) americano. Até agora, alguns links indiretos foram apontados, obviamente pela mídia independente, entre Bolsonaro e as táticas de propaganda e guerra psicológica relacionadas à CIA e outras agências ligadas ao Executivo dos EUA, geralmente ligadas a Wall Street e a interesses comerciais. Vamos tentar adicionar contextos e vínculos novos e mais diretos.

O candidato de extrema-direita que venceu o primeiro turno das eleições no Brasil há algumas semanas - com uma vantagem impressionante -, ainda que representado muitas vezes como um “outsider” na política, é deputado federal há décadas, representante de uma elite militar reacionária e, mais recentemente, de uma população pentecostal conservadora guiada por líderes carismáticos com enorme influência entre as classes média e baixa brasileiras. Eles simplesmente dizem ao rebanho em quem votar.

Bolsonaro vem conclamando golpes, assassinatos políticos e repressão violenta contra minorias e os pobres há quase 30 anos. Ele não é um outsider, mas a mídia joga o jogo, tratando-o como se fosse “inimigo” da corrupção e do crime, quando na verdade a implementação de suas propostas significaria a legalização da violência de Estado e de outras formas nefastas de crime. Nenhuma delas nova ou "anti-establishment", muito pelo contrário. Seus seguidores sentem-se fortalecidos desde o primeiro turno, e vêm aumentando vertiginosamente em frequência os ataques a oponentes e minorias, muitas vezes com conseqüências fatais, como a morte, no dia da eleição, do professor de capoeira Moa de Katendê, importante figura da cultura afro-brasileira, esfaqueado por ser a favor do candidato do PT, Fernando Haddad. A comunidade LGTB também tem sido alvo frequente de ataques.

Mesmo quando Bolsonaro, um militar da reserva, tenta parecer mais civilizado para ganhar mais votos do centro político, alguns de seus principais seguidores se mostram racistas amantes de armas e prontos para formar milícias paramilitares e atacar as favelas ao modo de Rodrigo Duterte, das Filipinas.

Como Glenn Greenwald observou, logo após o primeiro turno das eleições,

“… É praticamente impossível dimensionar o nível de ameaça imposto à democracia e aos direitos humanos no quinto país mais populoso do mundo pelo resultado da eleição de ontem à noite”.

Um dos correligionários mais votados de Bolsonaro, Rodrigo Amorim, foi fotografado quebrando uma placa de homenagem a Marielle Franco, ativista negra pelos direitos humanos assassinada no início deste ano e cuja morte não foi solucionada, o que é muito comum na América Latina em relação a ativistas de todos os tipos. Além da foto com sua grande conquista, os valentões do colégio que se tornaram políticos ainda escreveram: "Preparem-se, esquerdopatas, no que depender de nós, seus dias estão contados". Como Greenwald observou, o político acabou apagando a ameaça.

A mídia conservadora de direita - entre outros atores tradicionais de que trataremos abaixo - tem responsabilidade num futuro - já em curso, aliás - derramamento de sangue. A questão seria: qual o tamanho desta responsabilidade?

A revista The Economist - entre outros "suspeitos de sempre" da máquina de propaganda ocidental -, afirmou que os militares agiriam como uma "força moderadora" em um eventual governo de Bolsonaro. Um excelente artigo da revista Jacobin mostra que é exatamente o contrário ao analisar algumas das façanhas e assassinatos dos conselheiros militares de Bolsonaro no Haiti.

O Conselho das Américas: a mão invisível

Bolsonaro viajou para Nova York e outras importantes cidades dos EUA no segundo semestre de 2017. Lá, encontrou-se com líderes empresariais e outros poderosos no Conselho das Américas (Council of Americas - COA). Esta instituição não-governamental está ligada ao Council on Foreign Relations, onde líderes corporativos, banqueiros, todos os tipos de oligarcas e agentes de inteligência de primeira linha - o ex-diretor da CIA Allen Dulles foi diretor do Conselho por muitos anos antes de entrar para a agência - bem como jornalistas e diversos especialistas da "classe dominante" se reúnem para decidir, de maneira não democrática, para onde o mundo deve ir de forma a manter intactos o status quo e a hegemonia corporativa.

Apenas um mês depois de visitar o COA em Nova York, Bolsonaro nomeou o neoliberal Paulo Guedes como seu assessor oficial de economia, depois de reconhecer sua total incompetência no assunto. De fato, as “ideias” econômicas do parlamentar brasileiro “evoluíram”: se no passado pediu a execução do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por ter privatizado empresas estatais, hoje, o candidato promete privatizar “tudo”.

Ele é um demagogo pronto a servir ao poder econômico - tanto local como internacional - a fim de obter carta branca para impor a “lei e a ordem” nas ruas, o que parece ser sua principal preocupação e o segredo para a popularidade. Nas mentes simples de Bolsonaro e de seus defensores, o crime e a pobreza devem ser resolvidos à bala. Recusando-se a considerar qualquer contexto maior por trás desses flagelos, defende idéias simplórias como dar liberdade à polícia para “atirar primeiro e perguntar depois”, em um país em que pelo menos 5 mil pessoas morrem por ano em ações por policiais, muitos deles inocentes. Em suma, defende uma guerra total contra os pobres em um continente que conhece bem esta realidade.

As reuniões em Nova York com o COA, bem como a indicação de Guedes, um economista de Chicago que era professor universitário no Chile de Pinochet, começaram a reunir em torno do candidato líderes empresariais e investidores estrangeiros, embora muitos não estivessem mostrando a cara. Seu esfaqueamento em 6 de setembro, no entanto, refletiu-se em uma valorização do Real e em otimismo nos mercados locais, com os empresários percebendo que o ataque aumentaria as chances de Bolsonaro de vencer a disputa. Sua vitória no primeiro turno deu ainda mais esperança ao setor financeiro.

Mas o que e quem exatamente está por trás do Conselho das Américas?

Um canal para propaganda da elite e dinheiro sujo

O longo histórico do COA de intromissão nas democracias latino-americanas, com a conivência do governo americano e junto com as elites políticas e empresariais latino-americanas, faz dele um ator fundamental no cenário político atual do Brasil e para o destino do país, a ser decidido em breve. As viagens do candidato brasileiro de extrema-direita a Nova York passaram quase despercebidas na grande mídia e na maioria dos meios de comunicação independentes, já que ocorreu quando Bolsonaro não era uma ameaça tão real e Lula liderava as pesquisas. Com tão pouca cobertura da viagem em que se reuniu com o Conselho das Américas, não é grande surpresa que ninguém tenha investigado o histórico de façanhas da instituição na América Latina.

Seymour Hersh, o mais importante jornalista investigativo vivo, pesquisou as transações da CIA no Chile nos anos 1960 e 1970 contra o governo socialista de Salvador Allende em seu artigo da revista Atlantic Monthly de 1982 intitulado “O preço do poder”. Como ele habilmente descobriu na época, o governo Kennedy instruiu David Rockefeller a criar o aparentemente independente “Grupo de Negócios para a América Latina”, posteriormente rebatizado de Conselho das Américas. Em seu estatuto, a instituição tinha como objetivo frear a disseminação de governos de esquerda após a revolução cubana, como explica Hersh.

Americas Quarterly (AQ), a publicação do Conselho, como veremos a seguir, continua sendo uma fonte muito influente no discurso da mídia para explicar por que os melhores candidatos políticos para as classes empresariais da América Latina/ e dos EUA são também os melhores candidatos para suas populações empobrecidas.

Às vésperas da vitória eleitoral de Allende no Chile de 1970, comunidades empresariais locais e americanas, ligadas por interesses comuns e pela propriedade de corporações como a International Telephone and Telegraph Corporation (ITT), Anaconda Copper ou Pepsico, iniciaram esforços conjuntos, dirigidos pela CIA e encabeçados então por Richard Helms e diretamente por um assessor muito próximo de Richard Nixon, Henry Kissinger.

Como qualquer pessoa com algum conhecimento destas negociações sabe, as agências de inteligência precisam lavar e enviar para o exterior centenas de milhares ou quase sempre de milhões de dólares ao operar em qualquer lugar do mundo. Nesse caso, o Conselho das Américas serviu como um dos canais para o dinheiro da CIA, usado mais tarde para pagar propaganda na mídia, operações secretas e subornos políticos e militares. Outro canal secreto era a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAID), como Hersh revelou. Um dos chefes chilenos do complô internacional contra Allende foi Agustin Edwards, dono do jornal conservador “El Mercurio” e também membro do conselho. Sua rede recebeu quase 2 milhões de dólares durante os anos em que a CIA e a comunidade empresarial combatiam Allende através de uma propaganda brutal e uma campanha de guerra psicológica dirigida à população chilena. No caos e na desinformação, um golpe militar aconteceria e os culpados seriam os "comunistas".

Como mencionamos resumidamente, associados ao Business Group para a América Latina /COA estavam importantes executivos da Anaconda Copper, responsável por grande parte da indústria de mineração do Chile, a ITT e a Pepsico. Donald Kendall, presidente da Pepsico, foi um amigo muito próximo e colaborador durante a carreira política de Richard Nixon. Kendall nomeou Agustin Edwards, do “El Mercurio”, vice-presidente da Pepsico em 1970, de acordo com a investigação de Hersh de 1982. O enorme lobby inclui mais de 200 corporações transnacionais. A maioria dos membros do COA tem interesses pessoais no Brasil e no resto da América Latina, o que inclui manter uma massa considerável de mão-de-obra barata e garantir a propriedade dos recursos naturais.

Como mais uma prova da agenda “escondida” do COA, um ex-agente da CIA chamado Enno Hobbing, que participou do golpe de 1954 na Guatemala que derrubou Jacobo Arbenz e depois ajudou a CIA no Chile em 1970 como um elo de ligação entre a agência e o conselho, foi nomeado em seguida o principal oficial de operações do COA.

Na mídia, como seria previsível, a publicação da COA, Americas Quarterly, e seu editor executivo, Brian Winter, desfrutam de ampla audiência internacional. Suas opiniões circulam na mídia corporativa da América do Sul e da Europa e são repetidas por dezenas de especialistas em todo o mundo, deixando clara - e vendendo - a visão política da elite empresarial das Américas (sem deixar isso claro, evidentemente). Leitores de todo o mundo não ficam sabendo por Winter do passado do COA nem da natureza de seus interesses no Brasil e em outros países da América Latina.

Rede Globo: produto dos dias mais sombrios do Brasil

“A rede de mídia hegemônica do Brasil, a Rede Globo, foi criada com a assistência e o financiamento da Time-Life Publishing, associada a Rockefeller nos Estados Unidos. Tornou-se um poderoso instrumento de controle social durante a ditadura após seu lançamento, em 1965 ”. (Brasil Wire, 20/03/17)

É justamente isso que falta ao jornalismo corporativo na análise da ascensão de Bolsonaro: o papel da mídia conservadora de direita brasileira em normalizar sua candidatura como alternativa viável e aceitável à corrupção política e à criminalidade nas ruas. Um pouco de memória sobre os primórdios da Rede Globo e seus feitos subsequentes basta para preencher esta lacuna.

Como registrou o documentário “Muito além do Cidadão Kane” (nunca exibido comercialmente no Brasil) do Channel 4 britânico, realizado em 1993, a operação da Globo no Rio de Janeiro teve início nos primeiros anos da ditadura brasileira, com um investimento de seis milhões de dólares feito pela gigante norte-americana Time-Life, de propriedade, na época, do famoso conservador - e colaborador da CIA - Henry Luce. Para uma ideia melhor da magnitude desse investimento para o Brasil nos anos 1960, considere que o investimento inicial para as empresas da rede em outras cidades do Brasil era de cerca de 300 mil dólares.

Um telejornal da Al-Jazeera apresentado pelo jornalista canadense Richard Gizbert em setembro de 2017 foi uma rara exceção no coro de previsíveis omissões na mídia. Depois de sublinhar a regulamentação frouxa de que desfrutam elos gigantes da mídia brasileira, ele acrescenta:

“A Globo e o regime militar que se instalou no poder no Brasil em 1964 tiveram uma relação simbiótica. A Globo apoiou o golpe e apoiou a ditadura militar até 1985”.

A ditadura sorriu de volta para a rede mais influente do país, atingindo um público muito acima de sua competência, e seu dono, Roberto Marinho, com o tempo se tornou o cidadão mais poderoso do Brasil. Ainda hoje, muitos brasileiros da zona rural sem acesso à internet só têm acesso ao mundo exterior através da lente opaca da Globo.

Em 1984, quando a ditadura já estava em declínio, a Globo mentiu a seus telespectadores e tentou transformar uma manifestação reunindo centenas de milhares de pessoas nas ruas pedindo democracia e eleições diretas em uma celebração do aniversário de São Paulo. Entre muitas outras façanhas dos propagandistas brasileiros, quando Lula debateu com o direitista - e favorito da mídia - Fernando Collor de Mello, ainda no início de sua vida política, uma versão fortemente editada do debate feita pela Globo diminuiu drasticamente as chances de Lula nas urnas. O alcance colossal da rede não encontra rivais no maior país da América do Sul e o 5º mais populoso do mundo.

Embora a Globo e seus muitos jornais, estações de rádio e TV concorram com veículos em vários meios, como observa Gizbert, da Al-Jazeera:

“Todos estes veículos pertencem a famílias ou indivíduos ricos. A pluralidade de propriedade de mídias não consegue fornecer uma pluralidade de visões. Os proprietários de mídia no Brasil são, sem exceção, brancos e conservadores. Eles competem pelo público, mas o fazem, basicamente, compartilhando o mesmo ponto de vista político e social”.

Isso num país onde mais de metade dos cidadãos são negros ou têm raízes africanas. Como no resto da América Latina, onde a propriedade da mídia segue as mesmas regras e a tendência à concentração é forte, o resultado é a invisibilidade ou sub-representação da voz e do interesse de muitos brasileiros na mídia.

Finalmente, e tendo em vista o vínculo histórico da Rede Globo com o também conservador grupo Time-Life, é interessante a leitura do recente artigo de opinião sobre Bolsonaro publicado pela revista Time, assinado por Ian Bremmer:

“… E mesmo que Bolsonaro vença, o Brasil não é uma república de bananas. Apesar de suas disfunções e problemas sociais, é um país com fortes instituições políticas. (…) As instituições brasileiras, diferentemente de muitos outros países onde a corrupção nunca foi combatida, dispõem de meios para responsabilizar os poderosos e para combater os excessos do governo. Se ele vencer, isso também se aplicará a Jair Bolsonaro”.

Isso, infelizmente, não tem nenhum respaldo na realidade, como a operação Lava Jato mostrou. No passado, por outro lado, os militares responsáveis por assassinatos em massa não foram processados, juntando-se ao resto do hemisfério, onde as juntas militares apoiadas e treinadas por Washington sofreram pequena ou nenhuma condenação pelos crimes de tortura e assassinato de pessoas inocentes e de combatentes nos anos 1960 até os anos 1970 e 1980. Só na Guatemala foram massacrados cerca de 200 mil indígenas.

Outras vozes também analisaram o tema recentemente, como Vincent Bevins, da New York Review of Book, que explica: “Os apologistas do regime militar brasileiro alegam que os assassinatos de estado são contados 'em centenas' apenas, mas esses números se referem a casos urbanos documentados e ignoram completamente os milhares de indígenas que teriam sido massacrados quando o regime militar se lançou no desenvolvimento da Amazônia”.

Conclusão

O dia 28 de outubro pode marcar um ponto de ruptura na democracia brasileira. Seria extremamente perigoso colocar no poder o núcleo conservador e militarizado do eleitorado de Bolsonaro, como recentes ataques vêm demonstrando. A mídia tradicional e o jornalismo corporativo em geral minimizam o perigo que espreita o país, ignorando da mesma forma sua própria responsabilidade na ascensão do líder da extrema direita. As corporações midiáticas do Brasil e de outros países têm enormes interesses no resultado, tendo igualmente participado das farsas que levaram à destituição de Dilma Rousseff e à prisão de Lula, sempre transformando em desejável qualquer alternativa ao Partido dos Trabalhadores.

Enquanto isso, dirigem toda a atenção aos políticos corruptos e à criminalidade de rua, evitando o debate sobre um sistema e um establishment (como um todo) corruptos. Ignoram, sobretudo, as razões econômicas e estruturais das dramáticas desigualdades materiais que assolam o Brasil hoje, alimentando, assim, a divisão social e o ódio. O jogo da mídia corporativa nestes dias de ódio e populismo parece ser justamente esconder a capacidade de destruição de seu modelo econômico preferido.

Como ocorreu muitas vezes no passado recente da América Latina, as classes empresariais recorrem de novo ao fascismo, com a promessa de liberalização para a minoria rica, e de repressão em massa para a maioria pobre, tendo na mídia corporativa seu braço de propaganda.

*Publicado originalmente em globalresearch.ca | Tradução de Clarisse Meireles

Conteúdo Relacionado