Política

A um passo de uma Primeira Internacional Progressista: a proposta do Grupo Puebla de enfrentar o neoliberalismo em tempos de pandemia

Líderes de esquerda realizaram uma cúpula virtual para discutir estratégias conjuntas para mitigar o impacto econômico e social negativo que o coronavírus deixará

20/05/2020 18:46

Cúpula virtual do Grupo Puebla, em 15 de maio de 2020 (Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: Cúpula virtual do Grupo Puebla, em 15 de maio de 2020 (Reprodução/Twitter)

 
O Grupo Puebla, organização criada por líderes da América Latina e da Espanha, convocou um evento no qual se discutiu a consolidação da Primeira Internacional Progressista, para chegar a acordo sobre desafios, políticas e estratégias em um mundo que enfrentará mudanças substanciais em relação à pandemia do coronavírus.

Essa é uma das principais propostas da declaração final da cúpula virtual que o Grupo de Puebla realizou neste final de semana, com a participação de figuras como o presidente da Argentina, Alberto Fernández, e do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da também ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff, e outros ex-mandatários como Pepe Mujica (Uruguai), Evo Morales (Bolívia), Ernesto Samper (Colômbia), José Luis Rodríguez Zapatero (Espanha), Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador), além de dezenas de líderes e personalidades, como o economista estadunidense e Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.

“A União é a mudança. Paz, economia e pandemia” é o nome do documento que encerrou a quinta reunião que a organização realizou desde que foi fundada, no ano passado, na cidade de Puebla, no México. Também é a segunda em sua modalidade virtual, devido ao fechamento de fronteiras e quarentenas que se impuseram na maioria dos países da região.

Durante a cúpula, houve um destaque para a iniciativa que dezenas de personalidades de esquerda, de vários países e esferas, lançaram na semana passada, para mobilizar as forças progressistas, capacitar ativistas e coletivos, e desenvolver propostas longe das políticas neoliberais, cujo fracasso, eles consideram, ficou ainda mais evidenciado pela pandemia.

Entre eles estão o filósofo americano Noam Chomsky, a jornalista e escritora canadense Naomi Klein, o economista grego Yanis Varoufakis, o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim, o ator mexicano Gael García Bernal e o ativista indiano Arundhati Roy. Sua carta de apresentação foi o portal da International Progressive, através do qual eles convidam “a elaborar uma visão compartilhada sobre um mundo diferente”.

A nova proposta foi comemorada pelo Grupo de Puebla, que pede a inclusão e consolidação de estratégias para combater a direita. “O progressismo que nos identifica como Grupo de Puebla, e deve ser articulado com o recente esforço de um grupo de intelectuais e figuras reconhecidas à esquerda para estabelecer a Primeira Internacional Progressista. Na medida em que unimos esforços, uma articulação de forças progressistas em diferentes latitudes, isso nos fortalecerá e nos dará uma perspectiva maior em relação aos nossos desafios futuros, a partir das enormes assimetrias que marcam nossas sociedades” afirmam, em seu comunicado.

Dessa forma, os líderes reformulam a Internacional Socialista, o movimento das organizações socialistas, social-democratas e operárias nascido na Europa na segunda metade do Século XIX, e que, desde então, enfrenta vários estágios de participação, influência, reorganização e reagrupamento.

“Reconhecemos que a união é o caminho. O progressismo latino-americano não pode se dar ao luxo de se desagregar. Isso apenas favorece a direita. Nossos povos merecem o máximo de esforços em favor da unidade. Para construir um mundo mais justo, a primeira coisa que devemos fazer é unir as forças do progressismo”, continua o comunicado.

Para ter uma maior presença no debate internacional, o Grupo de Puebla também solicitou à ONU (Organização das Nações Unidas) a realização de uma reunião extraordinária de sua Assembleia Geral para discutir a gestão da pandemia, sempre com base nas premissas da equidade social e proteção dos mais vulneráveis.

Mudanças em meio à incerteza

O documento final da cúpula reconhece que o cenário que paira sobre a região é pessimista, uma vez que a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) estima que a queda econômica para este ano será de 5,3%, enquanto o desemprego crescerá 4,5% e a pobreza aumentará 4,5%, o que deixará 270 milhões de pessoas na pobreza e cerca de 80 milhões na miséria.

Diante desse panorama desanimador, o Grupo de Puebla propõe a implementação de instrumentos de política social e econômica dos quais a região se distanciou nos últimos anos, devido à nova hegemonia dos modelos neoliberais, que defendem que a distribuição de bens básicos deve ser feita pelo mercado, minimizando o protagonismo do Estado. O mesmo Estado que, agora, passa a ter sua importância reavaliada diante da crise da saúde.

“Lembramos que a covid-19 tornou evidente a necessidade de estruturar políticas públicas verdadeiras, para o reconhecimento do direito ao mínimo vital por meio de programas bem-sucedidos no passado recente, de governos progressistas e novos, como a garantia de uma renda básica inicialmente extraordinária, para garantir com dignidade as condições de confinamento decretadas em quase todos os países da América Latina”, aponta o documento, ao retomar uma proposta que se firmou nos últimos meses, em todo o mundo.

Em relação à dívida externa, e com a Argentina em risco de inadimplência, nesta semana, o Grupo de Puebla propôs a reestruturação aos países devedores, e, na medida do possível, moratórias que permitam aos Estados canalizar esforços para abordar a questão da emergência sanitária, e redefinir prioridades sociais que foram negligenciadas.

De acordo com as premissas progressistas, a organização reiterou a necessidade de entender a saúde como um bem público global, porque, como já foi feito até agora, são os grupos mais vulneráveis que acabam pagando os custos da crise. “Não há dilema entre saúde e economia, pois não é possível pensar em uma reativação de consumo, da poupança e do investimento com a ameaça latente da pandemia”, concluiu o comunicado.

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*Publicado originalmente em 'RT News' | Tradução de Victor Farinelli


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