Política

A voz de seu mestre? Jair Bolsonaro publica vídeo de si mesmo assistindo discurso de Trump

O presidente do Brasil foi acusado de bajulação na transmissão ao vivo no Facebook de 73 minutos, mas alguns veem método em sua obsequiosidade

11/02/2020 10:40

O presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, gesticula durante um vídeo de si mesmo assistindo Donald Trump durante seu divagante discurso pós-impeachment (Handout)

Créditos da foto: O presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, gesticula durante um vídeo de si mesmo assistindo Donald Trump durante seu divagante discurso pós-impeachment (Handout)

 

Há muito ele se denomina um Trump tropical - um valentão, ácido crítico dos socialistas e que luta contra a ‘carnificina brasileira’.

Mas nas últimas semanas, o presidente de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, elevou sua fixação pelo líder dos EUA a novos patamares, transmitindo-se ao vivo no Facebook enquanto observava seu ídolo político em ação.

A última aparição desse tipo ocorreu na quinta-feira, quando Trump comemorou sua absolvição pelo Senado no julgamento de impeachment com um discurso vulgar e mordaz à nação.

A mais de 4.000 milhas ao sul, no coração do seu próprio pântano político do Brasil, Bolsonaro se sentou para assistir - filmando-se vendo o discurso de Trump durante uma hora e oferecendo um comentário ocasional para a câmera, saudando seu herói norte-americano ou repreendendo inimigos na política e na imprensa.

"Nós não somos os únicos que temos aqueles que nos apunhalam pelas costas na política", Bolsonaro criticou a decisão de Mitt Romney de votar contra Trump no julgamento de impeachment. "Eles encontraram um rato republicano também."

Os críticos ridicularizaram as transmissões ‘Trumpianas’ de Bolsonaro - a última das quais durou 73 minutos - como um desperdício obsequioso de tempo presidencial.

“É lamentável”, reclamou Lobão, um astro do rock brasileiro, que votou em Bolsonaro em 2018, mas desde então se tornou um de seus críticos mais severos.

Lobão disse estar perplexo com a "incontinência amorosa" de Bolsonaro em relação a Trump. Como pode, indaga-se o músico, o presidente do Brasil expressar "choramingando, tal adoração subserviente" a um líder americano e ao mesmo tempo ser um nacionalista de linha dura?

O senador de esquerda Humberto Costa alertou que os brasileiros pagarão um preço alto pelo fanatismo de Bolsonaro. "Não basta ser um capacho. É preciso mostrar-se um capacho ”, tuitou Costa.

Mas Brian Winter, editor-chefe do Americas Quarterly, viu método no que muitos chamam de reverência.

“Na verdade, acho que são mensagens políticas sérias e eficazes. Ouvir Trump envia uma forte mensagem simbólica à base de Bolsonaro de que ele também está afastando o país do socialismo.

“Muitos brasileiros olham para isso e veem adulação e traição à soberania nacional. Mas pelo menos um terço do país analisa e entende o que ele quer dizer e está muito feliz com isso ”, acrescentou Winter.

“Na mente dos seguidores de Bolsonaro, os EUA significam capitalismo, prosperidade e segurança pública - a capacidade de ter uma arma, uma economia em crescimento. Eu acho que é realmente eficaz com a base dele. "

Na transmissão de quinta-feira, Bolsonaro repreendeu aqueles que o acusam de puxa-saquismo (brown-nosing).

“Alguns ,criticam: 'Bolsonaro tá aí bajulando o Trump'. Idiota, quando bajulavam aqui o Maduro, Hugo Chávez e Fidel Castro você não falava nada, não é?”

"Não estou preocupado com isso", acrescentou o populista de direita. "Se as pessoas querem criticar, é o direito delas. Mas façam críticas construtivas e ponderadas. Não tentem derrubar o presidente dos EUA e eu. "

Os críticos não são apenas da esquerda do Brasil.

Winter disse que muitas figuras militares seniores estão desconfortáveis com a corte que Bolsonaro faz a Trump.

“Sei que as forças armadas não gostam desse simbolismo porque são leais ao Brasil primeiro e a Bolsonaro depois. Conversei com muitos generais que odeiam o fato de ele ir lá fora saudar a bandeira americana. "

Mas Winter suspeitava que as transmissões ao vivo - que muitos acreditam serem da ideia do filho político de Bolsonaro, Eduardo, representante de Steve Bannon na América do Sul - continuariam e que Trump as aprovaria.

“Eu sei … de pessoas no governo, que Trump adora ter um acólito em qualquer parte do mundo - mas especialmente em um país grande e relevante como o Brasil. Isso agrada seu ego - e sabemos o quanto isso é importante.”

*Publicado originalmente no 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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