Política

Adversários no Rio, PT e PFL dão as mãos em Niterói

16/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – Pode até ser coincidência, mas os adversários do PT e do PFL no Rio de Janeiro, que parecem não acreditar em coincidências em período eleitoral, já estão gritando para acusar a marmelada. Na mesma semana em que o governo Lula agraciou a Prefeitura do Rio com o desbloqueio de R$ 219,8 milhões dos depósitos judiciais do município, o PFL do prefeito Cesar Maia anunciou seu apoio ao PT em Niterói, aumentando consideravelmente as chances de reeleição do prefeito petista Godofredo Pinto na segunda cidade politicamente mais importante do Estado.

O benefício que a liberação de uma verba que representa 70% do total de depósitos judiciais retidos do Rio trará a candidatura à reeleição de Cesar Maia é inegável. Quando obteve a confirmação, na quarta-feira (14/7), de que o dinheiro já estava disponível, o prefeito afirmou que a Prefeitura irá utilizá-lo em obras de infra-estrutura. Para desespero dos adversários, só faltou acrescentar que essas obras são muito bem vindas em plena campanha eleitoral: "Essa verba vai ajudar o Rio a cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal", disse Cesar.

A liberação dos R$ 219,8 milhões, no entanto, não foi tão fácil como se possa supor. Figura central no episódio, o deputado federal Rodrigo Maia (PFL-RJ), filho de Cesar, protagonizou durante dez dias um duelo com o governo federal e com o Banco do Brasil, que retinha os depósitos judiciais do Rio e se recusava a liberá-los da maneira como queria a Prefeitura. Com o apoio da bancada pefelista na Câmara, Rodrigo ameaçou impedir a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) se o BB não concordasse com a liberação de pelo menos 70% dos 314 milhões em depósitos retidos do Rio. O presidente do banco, Cássio Casseb, havia declarado inicialmente que só liberaria 40% do total, o que representaria R$ 125 milhões. Diante da pressão do PFL e após um pedido expresso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o BB acabou por voltar atrás e liberou o montante desejado por Cesar Maia.

A decisão do governo federal de beneficiar o Rio abre o precedente para que outras prefeituras na mesma situação também exijam uma liberação generosa de seus depósitos judiciais retidos no BB. Segundo informações de Brasília, deputados ligados à prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, farão chegar ao governo na próxima semana um pleito semelhante ao feito por Cesar, solicitando a liberação de R$ 560 milhões para obras de infra-estrutura na capital paulista. As prefeituras de Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador, todas comandadas pelo PT ou pelo PFL, também estariam estudando fazer o mesmo pedido ao governo. Se Lula atender a todos os pedidos, garantirá para as prefeituras um adicional de caixa de mais de R$ 3 bilhões as vésperas das eleições municipais.

Estranha aliança na terra de Araribóia
O problema para os adversários do PFL e do PT no Rio é que o acordo entre os dois partidos parece não ter se limitado à liberação da verba retida em contrapartida à facilitação da votação da LDO. Ciente da força apresentada por Cesar nas pesquisas de intenção de voto e das poucas chances de vitória de seu candidato, o deputado federal Jorge Bittar, nas eleições da capital, o PT buscou o apoio do PFL em municípios importantes do interior onde tem concretas chances de vitória. Primeiro, o partido costurou o apoio do PFL ao deputado federal Lindbergh Farias em Nova Iguaçu. Agora, num lance politicamente ainda mais ousado, consegue o apoio para Godofredo Pinto em Niterói.

Até a semana passada, o PFL apoiava em Niterói o candidato do PL, Sergio Zveiter, mas desde que este decidiu retirar sua candidatura para ser vice na chapa de Moreira Franco (PMDB), o partido de Cesar já avisava que romperia o acordo. Secretário de Justiça no governo de Anthony Garotinho, Zveiter havia rompido com o ex-governador há dois anos, mas resolveu fazer as pazes às vésperas das eleições. A decisão de Zveiter, político que tem densidade eleitoral em Niterói e aumenta as chances de vitória de Moreira, foi respondida na mesma moeda pelo prefeito Godofredo Pinto com a conquista do apoio do PFL.

A aliança entre petistas e pefelistas em Niterói foi fechada durante uma reunião com a presença de Godofredo, Rodrigo Maia e Lindbergh Farias, além de Marcelo Sereno, ex-assessor do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que foi destacado pela direção nacional do PT para atuar nas eleições do Rio de Janeiro. O argumento usado para a aliança foi o mesmo de Nova Iguaçu: o combate ao grupo político de Garotinho, inimigo comum do PT e do PFL no Estado: "É uma frente para não deixar Niterói cair nas mãos de um grupo político que vem fazendo muito mal a outros municípios do Rio", afirmou Rodrigo.

Com tanta movimentação, quem teve que cortar um dobrado para não perder o passo no bailado político foi o prefeito Godofredo: "Ter o apoio de Cesar e do PFL é uma honra e aceito este apoio de bom grado. Mas isso não significa que eu vá apoiar Cesar no Rio, pois eu tenho um partido e meu partido tem no Rio o candidato Jorge Bittar", disse. Com a cintura mais dura para esta dança, Bittar prefere não comentar "as alianças de Niterói", limitando a se dizer que lá, assim como em Nova Iguaçu, é o PFL que apóia o PT e não o contrário.

Bittar teria sido convidado para vice
No dia em que foi levar seu abraço a Godofredo, no entanto, Cesar desencavou uma história que irritou Bittar e a direção estadual do PT. Ao justificar para os jornalistas a afirmativa de que o namoro entre os dois partidos no Rio já vem de longe, o prefeito usou como exemplo as conversas que o PFL teria mantido no início deste ano com Bittar e que culminaram com o convite ao deputado petista para ser vice em sua chapa: "Na época, conversei com o presidente Lula e ele achou a proposta interessante. No fim, o próprio Bittar acabou preferindo manter sua candidatura, mas estamos negociando o apoio do PT se tiver segundo turno", disse.

Cesar contou que o intermediário das negociações com o PT foi o secretário municipal de Urbanismo, Alfredo Sirkis, que é dirigente do PV e tem bom trânsito entre os petistas. As conversas com Bittar teriam convergido para uma plataforma comum que incluiria itens sobre a segurança pública e o endividamento da cidade, entre outros. Sirkis confirma a historia de Cesar. "Conversamos, mas o Bittar me disse que preferia manter a candidatura, pois acreditava nas suas chances de vitória e nunca vira o PT tão unido em torno dele", disse o secretário.

Demonstrando irritação quando indagado sobre o assunto, Bittar nega que tenha sequer iniciado qualquer negociação com vistas a ser vice na chapa do PFL: "Isso não teria cabimento, pois somos nós que vamos para o segundo turno contra o prefeito. Essa história de negociação é mais um factóide, mais uma mentira que Cesar tenta contar para a população do Rio de Janeiro", disse.


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