Política

Ameaçado no Rio, Crivella pode agora ser cassado no Senado

31/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – Com divulgação prevista para o início da próxima semana, a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro sobre o pedido de impugnação efetuado pelo Partido Humanista da Solidariedade (PHS) contra a candidatura de Marcelo Crivella a Prefeitura da capital é aguardada com ansiedade pelo senador do PL. Em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, Crivella é acusado de ter omitido na declaração de bens que entregou este ano a Justiça Eleitoral sua participação acionária em emissoras de televisão, além de ter sido convocado a depor na Polícia Federal para explicar irregularidades cometidas na compra da TV Record pela Igreja Universal do Reino de Deus, da qual é pastor. 

O maior drama de Crivella, no entanto, é que, repercutidas pela imprensa diariamente, as denúncias sobre irregularidades que cometeu em suas atividades empresariais extrapolaram a disputa política regional e acabaram por se transformar em uma discussão de cunho nacional que já ameaça até mesmo seu mandato de senador. O Ministério Público Federal encaminhou na última sexta (30) à Corregedoria do Senado uma representação contra Crivella por desrespeito ao artigo 54 da Constituição Federal, que proíbe parlamentares de exercerem, depois de eleitos, cargos em empresas concessionárias de serviços públicos. A lei determina que os infratores sejam punidos com a perda do mandato. 

Documentos obtidos pela Procuradoria da República do Distrito Federal mostram que Crivella, ao contrário do que havia afirmado ao TRE-RJ em sua declaração de patrimônio, ainda é sócio com participação ativa na TV Cabralia, emissora afiliada da Rede Record que transmite para todo o Sul da Bahia. Apesar de o senador garantir que vendeu sua participação na emissora baiana em 1999, sua assinatura como sócio-gerente aparece em um documento datado de 13 de novembro de 2003, quando já exercia mandato no Senado havia quase um ano. Segundo a Procuradoria da República do Distrito Federal, Crivella detém 46% das ações da TV Cabralia, e as cotas em seu poder valem cerca de R$ 270 mil. 

Diante dessas evidências, o procurador Luciano Gomes Rolim deu entrada no MP Federal numa representação por falsidade ideológica contra o senador. No dia 22 de julho, o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, entregou ofício no gabinete de Crivella em Brasília dando um prazo de 30 dias para que ele forneça maiores informações sobre sua participação nas emissoras de televisão. No Senado, a investigação sobre Crivella será conduzida pelo corregedor Romeu Tuma (PFL-SP), que prometeu se debruçar sobre o tema assim que acabar o recesso parlamentar. Após dar seu parecer, Tuma vai encaminhá-lo a Comissão de Ética do Senado, que vai decidir sobre a abertura do processo de cassação. Para o senador Jefferson Peres (PDT-AM), membro da comissão, o caso de Crivella “é muito grave” e, se for confirmada sua participação na TV Cabralia, “deve resultar na perda do mandato”. 

Em sua defesa, Crivella continua afirmando que a culpa de seu nome ainda constar como acionista de emissoras de televisão é da “burocracia do Ministério das Comunicações”, que desde 1999 ainda não teria completado o processo de transferências de suas cotas. O senador garante que “não consegue entender a demora” no caso específico da TV Cabralia, onde teria passado suas cotas para José Célio Lopes e Osvaldo Ceola, também ligados a Igreja Universal: “É preciso fazer uma auditoria no ministério”, sugeriu. Ele reconhece, no entanto, que continua assinando documentos pela emissora baiana: “Como meu nome ainda consta, de vez em quando faço isso. Acho muito chato, mas sou um homem honesto e me vejo obrigado a assinar até que o ministério complete o processo”, disse o senador, que no dia 23 de julho se reuniu com o ministro das Comunicações, Eunicio Oliveira, para solicitar cópias de toda a documentação referente a ele que se encontra em poder do ministério. 

Mas, se Crivella de fato vendeu suas participações nas emissoras, onde foi parar o dinheiro, já que o candidato do PL declarou este ano ao TRE-RJ um patrimônio de apenas R$ 21,8 mil? O senador afirma que doou o dinheiro ganho com as transações: “Eu sempre dôo aquilo que ganho, foi uma decisão que tomei para minha vida. Ganhei milhões como cantor, como escritor e engenheiro e também doei tudo. Eu tinha o direito de adquirir bens para mim e minha família, mas decidi optar pelo direito maior que é o direito de abrir mão do meu próprio direito”, disse. 

Barganha para salvar mandato
Vulnerável em duas frentes, Marcelo Crivella talvez seja obrigado a sacrificar um flanco para poder preservar o outro. Com o habitual e agudo senso de oportunidade, o PTB – na figura de seu presidente, o deputado federal, Roberto Jefferson – procurou o PL para propor uma troca: a base governista não mediria esforços para construir uma maioria que impedisse a cassação de Crivella no Senado e, em troca, o senador retiraria sua candidatura a Prefeitura do Rio e declararia apoio ao candidato do PT, Jorge Bittar, também apoiado pelo PTB. Jefferson pretende discutir o assunto na próxima semana, em encontro com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto. O deputado paulista aceitou a conversa, mas desde que ela ocorra após a decisão do TRE-RJ sobre a impugnação da candidatura do candidato liberal. 

Estrategicamente afastado dessa frente de negociações, o PT parece incentivar os movimentos dos dirigentes do PTB e do PL na busca por uma saída honrosa para Crivella. A desistência do senador interessa ao partido, pois sua direção acredita que ela beneficiaria Bittar. Costa Neto já admitiu publicamente imolar a candidatura de Crivella dizendo que ela “está muito desgastada” mas, justificando sua fama de espírito-de-porco, tem outra opinião sobre os efeitos de uma eventual desistência do pastor: “Sinceramente, se o Crivella sair acho que o Cesar Maia será reeleito no primeiro turno”, disse, numa análise que é compartilhada por muitos analistas políticos.
Apesar dos pesares, Crivella afirma “não admitir em hipótese alguma” a retirada de sua candidatura. Alegando estar mais bem colocado nas pesquisas, ele sugere que Bittar é que venha a apoiá-lo ainda no primeiro turno: “Sou o único em condições de derrotar Cesar e não vejo no horizonte a possibilidade de retirada da minha candidatura”, disse. Pisando em terreno minado dentro de seu próprio partido, o senador acabou arranjando um aliado de peso na figura de José Alencar: “O senador Crivella deve resistir ao tiroteio. Tenho nele uma pessoa séria e de bem, que poderia levar muitos benefícios ao Rio de Janeiro”, disse o vice-presidente da República. 

O apoio já não é o mesmo no PL do Rio. A direção regional do partido decidiu em reunião esta semana que, em caso de impugnação de Crivella, não apresentará outro candidato a Prefeitura, o que abre as portas para a negociação de um futuro apoio a Bittar. Ficou decidido também que o senador deixará o comando regional do partido, que voltará às mãos do deputado federal Bispo Rodrigues. Afastado dos holofotes desde que foram reveladas suas ligações com o ex-presidente da Loterj Waldomiro Diniz, Rodrigues não é exatamente um aliado de Crivella desde que foi expulso da Igreja Universal pelo bispo supremo Edir Macedo, tio do senador. Os próximos dias serão decisivos.



Conteúdo Relacionado