Política

Amorim: apoio de Ellsberg a Lula guarda semelhanças com a Guerra do Vietnã

Adesão ao manifesto "Eleição sem Lula é fraude" demonstra que Ellsberg vê que há algo muito maior por trás da condenação do ex-presidente

16/01/2018 16:32

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Bem, eu acho que todos sabemos que vivemos um momento crucial agora com esse processo político no Brasil, que é o julgamento que vai ocorrer em segunda instância, no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, dessa ação contra o presidente Lula. Uma delas. Essa do apartamento.

Não vou entrar em detalhes sobre a fragilidade jurídica e até a lógica. Não sou jurista, mas muitos escreveram sobre isso. Isso tem sido reconhecido até por juristas fora do Brasil.

Mas voltando ao aspecto político, e a essa sensação nossa de que é absolutamente indispensável que o povo brasileiro possa escolher o seu próximo presidente e que aquele que é o mais popular dos pré-candidatos não seja retirado artificialmente da competição, eu queria mencionar mais uma vez o manifesto “Eleição sem Lula é fraude”. Já está perto de 200 mil assinaturas e queria assinalar uma ou duas coisas recentes.

Primeiro, do ponto de vista nacional, como se mantém e até se amplia essa pluralidade de apoios, com políticos até do PSB, políticos que não são de maneira nenhuma ligados diretamente ao presidente Lula.

Também gostaria de mencionar no aspecto internacional novas assinaturas. Todos sabem do Oliver Stone, foi publicado no próprio Nocaute. Mas eu queria chamar atenção para uma em especial, porque eu acho que ela tem um significado muito simbólico, que é do Daniel Ellsberg.

Para quem não é da minha geração ou talvez não tenha noção da importância disso, foi quem divulgou os famosos documentos do Pentágono, os “Pentagon Papers”, em 1971. E na realidade ali começou a acabar a Guerra do Vietnã.

Não que já não houvesse antes muitos protestos, nas universidades e outros lugares do EUA, no mundo inteiro, grandes marchas aconteceram em Londres e outros locais, mas os documentos do Pentágono foram os que retiraram a credibilidade das justificativas da narrativa que Washington fazia para justificar a Guerra do Vietnã.

E eu acho isso muito interessante porque esse vazamento, que acabou saindo no “New York Times”, os jornais americanos obviamente, a maioria deles, ia junto com o governo, mas nesse ponto houve uma abertura, um vazamento e através dele todos os mitos e mentiras que haviam sido criados para justificar a guerra, os bombardeios e houve ataques variados, aos países contíguos, Laos, Camboja…

E a descrição que aparece nesses documentos vazados por esse pesquisador, que era de um colegiado de análise política, o Run Corporation, é que marca o fim da credibilidade mesmo no establishment americano.

Eu acho muito significativo que ele tenha assinado o manifesto, porque ele conhece essas coisas. Ele sabe o que é a fake news, quando era muito antes do nome ocorrer.

E eu acho que a assinatura dele significa a percepção de que também no Brasil todo esse processo que levou à condenação do presidente Lula em primeira instância, todas essas acusações que juntam a grande mídia brasileira com decisões de Ministério Público – volto a dizer que não quero entrar no aspecto jurídico individual porque tem outras pessoas estudando isso e muito bem. Mas digamos que se misturam um pouco com a maneira como são divulgadas, utilizadas as delações.

O fato do Ellsberg ter assinado para mim demonstra que ele vê também que essa não é a narrativa verdadeira. Que há algo muito maior por trás, como havia também no caso da Guerra do Vietnã.

Essa assinatura é muito simbólica e serve como estímulo para que continuemos no plano nacional e internacional a denunciar essas manobras que na realidade teriam como efeito prático retirar do povo brasileiro o mais sagrado de seus direitos, que é o direito de escolher seus governantes.

Bem, eu queria fazer um outro comentário, sobre a política externa americana, muito rapidamente. Mas também tem saído muitas notícias sobre como a política externa norte-americana tem estado desnorteada, como o presidente Trump se refere a outros governantes de maneira até grosseira, as ameaças que faz de tirar a Coreia do Norte do mapa, mais perto de nós, o uso da força com relação à Venezuela, algo altamente preocupante, as reviravoltas em relação à aproximação com Cuba, que ajudava a harmonia continental. Tudo isso é muito ruim.

Mas eu tenho dito que essa falta de habilidade da política norte-americana e até de cuidado que, de alguma maneira, a diplomacia americana procurava ter no passado de apresentar seus interesses de modo que parecesse pelo menos interesse geral, isso abriria um espaço muito grande para a nossa integração sul-americana.

Eu fico com muita pena de ver que não há lideranças na região hoje, certamente não no caso do Brasil, para que esse momento fosse utilizado para fazer aquilo que é essencial, que é a base de toda política externa do Brasil, mas acho que é também de outros países da América do Sul, da América Latina, que é a integração sul-americana.

Queria deixar esse comentário como algo importante do que estamos vivendo.



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