Política

Andante moderato: Melancolia da derrota?

 

12/10/2020 14:16

(Marcia Foletto/O Globo)

Créditos da foto: (Marcia Foletto/O Globo)

 
"e assim podeis, perder de hoje para sempre a melancolia que vos fatiga, e fazer que a vossa esmorecida esperança recobre novos brios e força ... despeito de quantos velhacos vos pretenderem empecer; e mãos à obra, que bem se diz que no tardar costuma estar o perigo."
(Cervantes, "Dom Quixote" - Cap. XXIX)

O Brasil está sendo destruído pelo governo neofascista de Bolsonaro que abala os fundamentos das instituições que cuidam da saúde, educação, pesquisa científica, cultura, meio ambiente, política externa independente etc. O grosso do orçamento é desviado para os bancos e o mercado financeiro: 1 trilhão e 200 bilhões em março, e 325 bilhões em junho foram repassados aos bancos.

O fundamentalismo de mercado corrói o Estado e, com o apoio da mídia, divulga aos quatro ventos a panaceia das “reformas” pretensamente modernizantes. A reforma trabalhista iria salvar o Brasil. Depois, seria a vez da reforma salvadora da Previdência. Em seguida, vieram as propostas da reforma tributária e administrativa, ambas adiadas para depois das eleições. Só não dizem que essas reformas vão “salvar” e enriquecer ainda mais o 1% da população que ganhou dinheiro com a pandemia.

As lideranças políticas de oposição rejeitaram a proposta de uma campanha nacional em favor do impeachment de Bolsonaro, quando ele ostensivamente apoiava as manifestações pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal. Alegaram que o impeachment seria derrotado na votação dos parlamentares. Esqueceram que a Campanha das Diretas Já, nos anos 80, perdeu na votação, mas ganhou extraordinário apoio na sociedade.

O Brasil como país independente está ameaçado, mas os partidos políticos só pensam nas próximas eleições municipais para se fortalecerem, como se estivéssemos em uma democracia tradicional. Recusaram fazer aliança numa Frente antifascista e lançaram, na maioria das cidades, seus candidatos próprios.

Nesse contexto, o Manifesto “Por Uma Frente de Esquerda”, lançado pelo Fórum 21, semeou em solo fértil e ganhou destaque com ampla repercussão favorável. O alerta do Manifesto vai além da eleição e irá colher seus frutos nos embates políticos futuros.

As forças vivas da sociedade brasileira, o Brasil que pensa, sonha e sente, mostra indignação e vai à luta, mas as lideranças partidárias de oposição caminham em andante moderato e parecem aceitar a melancolia da derrota de 2018.



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